sexta-feira, 10 de março de 2017

Papo sério: Os esteroides anabolizantes e o nosso "relógio suíço" por Dr. Eduardo Guimarães


Desde os anos 70, os esteroides anabolizantes vêm sendo usados de forma abusiva por atletas, fisiculturistas e praticantes de atividade física. Os esteroides androgênicos anabólicos (ou anabolizantes) são hormônios representados pela testosterona e seus derivados, cujos efeitos de aumento de massa muscular e óssea e aumento da capacidade de proliferação celular são empregados em situações médicas muito restritas, como nos casos de desnutrição grave causada por câncer e AIDS. Essas substâncias hormonais também são empregadas para suprir as necessidades daqueles que as deixam de produzir, como nos casos de hipogonadismo e atraso puberal. Entretanto, o seu uso indiscriminado e crescente, sem indicação clínica, particularmente em adolescentes e adultos jovens, tem chamado a atenção das principais sociedades médicas mundo afora, principalmente aquelas ligadas a programas antidoping, que alertam sobre os riscos à saúde decorrente da exposição de terapias anabolizantes.

De fato, as propriedades “milagrosas” dos esteroides anabolizantes começaram a chamar a atenção a partir dos surpreendente ganho de força e massa muscular de atletas de alto nível, o que garantia um desempenho muito superior quando comparado com aqueles que não usavam. Não demorou muito para essas substâncias alcançarem as academias, as farmácias e alguns consultórios médicos.
Na chamada "medicina estética e antienvelhecimento", hormônios androgênicos esteroides, o hormônio da tireoide e o hormônio do crescimento  (GH), que normalmente são usados somente para reposição em situações de deficiência comprovada, são indicados precoce e erroneamente com intuito de retardar o envelhecimento, aumentar o metabolismo, aumentar a massa muscular, reduzir a gordura corporal, melhorar a textura da pele e a libido. Nesses casos, são usados hormônios sem a real necessidade e em doses muito acima do recomendado. Claro que isso faz mal para o organismo!
Termos como “bio-idêntico” ou “nano-hormônio” são usados inescrupulosamente para criar uma falsa ideia de pureza e segurança, o que obviamente não existe. Disparado, a testosterona e seus derivados (ex. oxandrolona, oximetolona, estanazolol, di-hidrotestosterona) são os líderes em uso justamente por suas fortes propriedades anabolizantes, sua facilidade de encontrar e o seu baixo custo.

Mas você sabe qual o efeito que o uso dessas substâncias terá no seu organismo?
Bem, nosso sistema endócrino é um "relógio suíço", onde tudo funciona da melhor maneira para nos manter em equilíbrio. Nossos hormônios, quando estamos saudáveis e sem doenças, são produzidos na quantidade exata das nossas necessidades, nem um gota a mais. Quando um homem usa um esteroide por estética, para aumento de massa muscular, esse sistema é inibido. Sim, porque o nosso sistema hormonal funciona assim: para tentar evitar o excesso deletério, as glândulas deixam de produzir aquele hormônio que está sendo administrado.

No caso do uso da testosterona, por exemplo, os testículos deixam de produzir a própria testosterona enquanto a pessoa estiver usando. Esse uso, geralmente em doses acima do que o corpo está habituado (para ter uma ideia: a dose de reposição para quem não produz testosterona é 1 injeção a cada 14 dias; em ciclos anabolizantes, tem gente usando 1 injeção ao dia!), cria um "falso ambiente hormonal", o que estimula forçadamente as células do corpo a proliferar e crescer de tamanho. Se eu tinha um massa muscular "x" produzindo "y" de testosterona, agora com "4y" de testosterona terei uma massa muscular "4x". Parece maravilhoso! Mas o problema é que isso só se mantém enquanto estivermos usando essas doses altas. Quando reduzimos ou interrompemos o uso, que geralmente é o que ocorre quando se termina o chamado ciclo, voltamos a ser o que éramos: "x"! E um "x" que agora não consegue produzir a sua própria testosterona, pois os testículos podem demorar para trabalhar de novo. Esse estado de não produção dos próprios hormônios nós chamamos de hipogonadismo. E é nesse período, conforme o tempo que foi usado e retirado o anabolizante, que o organismo sente muito a falta dos hormônios, gerando perda grande da muscular conquistada, cansaço intenso, fraqueza, humor deprimido, impotência e falta de libido.

Esse é um ponto crucial! O que a maioria faz:
1) se convence que é um efeito colateral do tratamento e mata no peito os sintomas;
2) busca atendimento médico para entender os sintomas e tratá-los;
3) volta a usar o anabolizante.

Na minha experiência de consultório, infelizmente a maciça maioria escolhe a opção 3. Voltam a usar e os sintomas imediatamente melhoram; voltam a ficar grandes e potentes, com libido lá em cima. E daí passa ser um ciclo atrás do outro, sempre com alguma alternativa indicada por um amigo ou médico para tentar evitar os efeitos da parada. “Ah, mas eu quero usar uma dose bem baixa, só para dar uma estimulada…” Não adianta, pois só vai ter os efeitos de supressão da testosterona sem ter o resultado de crescimento muscular.

Não importa se você compra na academia ou na farmácia sem receita ou se recebeu receita de um médico. Para ter o efeito anabolizante, você sempre terá que usar doses acima do necessário. Aliás, não se iluda se esse tipo de tratamento estiver sendo feito por um médico que garanta que é seguro. O ego de muitos médicos sempre supera (e muito) o bom senso. São pseudo-inovadores, sedutores, manipuladores, super-stars das redes sociais, revolucionários inconsequentes, messiânicos que se colocam acima da boa prática médica e das entidades médicas sérias, oferecendo tratamentos que não tem suporte de segurança pela boa literatura médica. Por favor, não se iluda!

Mas mesmo assim quer usar? Saiba então os efeitos adversos do uso dos esteroides anabolizantes: alterações dermatológicas (acne, lipodistrofia – atrofia da gordura, abscessos musculares, hematomas, calvície, estrias, excesso de pelos corporais), hematológicas (aumento do número dos glóbulos vermelhos, sangue mais viscoso), alterações sexuais (impotência, ginecomastia, atrofia testicular, infertilidade), osteo-musculares (hérnia de disco, lesões meniscais, rabdomiólise-dano muscular grave), hepáticas (hepatite, colestase, icterícia -amarelão, esteatose, nódulos, câncer de fígado), renais (insuficiência renal, glomerulonefrite), cardiovascular (redução do colesterol HDL, AVC, hipertensão arterial, aumento do volume do coração, insuficiência cardíaca, arritmia, infarto, morte súbita) e comportamentais (agressividade, comportamento imprudente e compulsivo, dependência, síndrome de abstinência, depressão, pensamentos suicidas, percepção alterada da forma corporal, maior consumo de álcool e outras drogas, transtornos alimentares tipo vigorexia, bulimia, anorexia, prática de sexo inseguro). Além disso, existem vários relatos de câncer associado ao uso de anabolizantes, como câncer de fígado, de pâncreas, miossarcoma, osteossarcoma, linfoma e leucemia.

Em mulheres, os efeitos hormonais são resultado da exposição do organismo a um hormônio caracteristicamente masculino e em quantidades muito altas. O resultado é que a testosterona passa a modificar o corpo feminino trazendo traços masculinos, que é o que chamamos de virilização (ou masculinização). Aumento exagerado da massa muscular, acne, redução anormal da gordura corporal, lipodistrofia, atrofia das mamas, excesso de pelos no rosto e no corpo, aumento do gogó, voz masculinizada, parada da menstruação, engrossamento da pele, aumento do clitóris e infertilidade. Além de todos os efeitos colaterais já citados.

A saúde não é brincadeira. Respeite o seu "relógio suíço". Não se exponha a tratamentos que podem trazer riscos desnecessários. E principalmente, não coloque a sua saúde nas mãos de inconsequentes, seja um amigo, o cara da academia ou da farmácia, o cara que traz da fronteira, um médico. Ninguém se responsabilizará por você se algo der errado.

Referências:
1 - Eberhard Nieschlag, Elena Vorona. Doping with anabolic androgenic steroids (AAS): Adverse effects on non-reproductive organs and functions. Rev Endocr Metab Disord 2015. DOI 10.1007/s11154-015-9320-5
2 - WADA worldwide antidoping network (www.wada.org).

Dr. Eduardo Guimarães Camargo
Médico Endocrinologista
CREMERS 23.404 - RQE 17.086
www.dreduardocamargo.com.br

É Assim Que Se Aprende Endocrinologia! por Dr. Rafael Reinehr

Como se forma um endocrinologista?

Quando você vai ao Endocrinologista, e ele solicita alguns exames, estabelece um diagnóstico e lhe sugere um tratamento, por trás dele existem 10 anos de estudo e aperfeiçoamento (6 anos na Faculdade de Medicina, 2 anos na residência de Medicina Interna e 2 anos na residência de Endocrinologia e Metabologia). Somente os estágios de residência (4 anos), exigem cerca de 11.500 horas de dedicação entre atendimentos ambulatoriais, pacientes internados, realização de procedimentos, rounds de discussão de pacientes e casos clínicos, estudos e plantões, muitos plantões!

Além disso, é importante lembrar que  para fazer Medicina, é necessário um concurso público. Para fazer Medicina Interna, mais um concurso público, com funil bem mais apertado. E para fazer Endocrinologia ainda mais um concurso público, com pouquíssimas vagas, onde somente os melhores entram.

Somente quem realiza residência médica em Endocrinologia e Metabologia ou é aprovado em uma prova anual de proficiência em Endocrinologia que tem direito ao RQE – Registro de Especialista, um número que deve estar presente em toda e qualquer publicidade e carimbo do médico. Fique atento(a)!

E um “nutriendocrinologista”?

Enquanto isso, vemos proliferar pelo Brasil uma onda de “cursos de formação” de “nutriendocrinologistas”, especialistas em “modulação hormonal”, criadores de síndromes inexistentes como “fadiga adrenal” e “hipotireoidismo com hormônios normais”, que são claramente atraídos pela existência de um público que está sempre em busca de algo novo e que não tem, necessariamente, a criatividade suficiente para se defender de pessoas cuja maior preocupação é não a saúde das pessoas mas aquela do seu próprio bolso.

Estes cursos de formação, alguns deles “aprovados pelo MEC” (pois tem o número suficiente de doutores que o MEC exige, entre outros parâmetros), são criados para beneficiar em primeiro lugar aqueles que os ministram (já que são cobrados altos valores para garantir a participação) e muitas vezes são realizados à distância, com um encontro presencial mensal. Para entrar? Basta pagar. Nenhuma seleção pública.

No outro dia, vi uma postagem de uma profissional da saúde se vangloriando de ter concluído um destes cursos, realizado por um “proeminente” médico, conhecido por sua visão polêmica em assuntos como “óleo de côco”, colesterol, dieta do hCG, no qual ela havia realizado 360 horas e havia sido certificada como “nutriendocrinologista”, palavra que em verdade não significa NADA, pois não é área de atuação reconhecida nem pelo MEC, nem pelo CFM, nem pela SBEM nem por nenhuma entidade internacional médica ou de saúde.



Como ocorrem os desvios éticos?

O que acontece a seguir? O próximo passo é começar a alimentar seu blog e Instagram com conteúdos relacionados à Nutrição e Endocrinologia, exaltando a sua “pós-graduação realizada em tal instituto ou com Dr. X”. O leitor incauto não consegue facilmente discernir entre alguém que realmente conhece a fundo todos os meandros e implicações endocrinológicas e metodológicas (o Médico Endocrinologista) daquele formado em cursos de final de semana (o “nutriendocrinologista”). Como nos lembra o doutor em Psicologia Moral Jonathan Haidt, nosso cérebro tende a se afixar primariamente às aparências e depois busca justificativas racionais para aceitá-las, ao invés de primariamente buscar discernir com cuidado sobre aquilo que se apresenta perante aos nossos olhos.

Assim, fica um alerta: se você realmente se preocupa com a sua saúde, busque ir além da superficialidade da internet. Descubra se o médico com o qual você está se consultando realmente dedicou – e continua dedicando – boa parte da vida para bem cuidar de você.

Descubra se o médico é um especialista de verdade

Entre na página do Conselho de Medicina do seu Estado, coloque o nome do médico que você quer saber mais (ou o CRM dele) e descubra se ele tem registro de especialista – ou se ele está enganando você com falsas promessas.

Por exemplo, as páginas dos Conselhos Regionais de Medicina do Rio Grande do Sul e de Santa Catarina são as seguintes:



Na figura abaixo:

“Isso é com que se parece aprender Endocrinologia”

“Assim a 17-alfa-hidroxilase age na progesterona que se torna 17-alfa-hidroxi-progesterona que pode ou receber a 21-hidroxilase para se tornar 11-desoxicortisol ou receber 17,20-liase para se tornar a androstenediona”

“Eu estou confuso”

“Oh, desculpe! É um pouco complicado no começo. Mas eu trouxe comigo este diagrama que vai ajudar!”



Uma excelente jornada em busca do seu médico de confiança!

Glossário:

RQE: O RQE nada mais é que o Registro de Qualificação de Especialista. Trata-se de uma certificação, criada pelo Conselho Federal de Medicina, que tem a função de deixar claro quando um profissional da saúde é especialista em alguma área. Após a criação do RQE, tornou-se vedado aos médicos a auto divulgação como especialista, ainda que tenham sido aprovados no Exame de Título de Especialista. O RQE é emitido pelo Conselho Regional de Medicina de cada Estado. Para os médicos, o RQE é essencial para transmitir aos pacientes mais segurança e credibilidade, pois através dele fica comprovada a sua capacidade de especialização em sua área, reconhecida pelo CRM. Para os pacientes: antes de se consultar com qualquer profissional de medicina que se denomine especialista, cheque se o mesmo possui RQE. Trata-se de uma maneira simples e eficaz de evitar fraudes e profissionais despreparados.

hCG: Gonadotrofina Coriônica Humana, utilizada sem embasamento científico adequado como auxiliar no processo de emagrecimento. Existem estudos demonstrando que seu uso pode ser deletério à saúde. Vide http://www.endocrino.org.br/media/uploads/PDFs/posicionamento_oficial_hcg_sbem_e_abeso.pdf

CFM: Conselho Federal de Medicina – Regulamenta o Exercício da Medicina no Brasil – http://portal.cfm.org.br

CRM: Conselho Regional de Medicina – todo Estado tem o seu, monitora e regulamenta a atividade dos médicos em nível estadual

MEC: Ministério da Educação e Cultura

SBEM: Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (http://endocrino.org.br) – Entidade Associativa que reúne médicos endocrinologistas de todo país, organiza eventos científicos e promove o esclarecimento da população quanto a assuntos relacionados à Endocrinologia e Metabologia e suas sub-especialidades.

Orientação sobre sucos: dar ou não à criança? Por Dra. Kelly Marques

Uma palavra sobre os sucos:

Muitas mamães me perguntam em relação aos sucos: Dar ou não? A partir de que idade? Qual a quantidade? Fiz uma coletânea das recomendações de diretrizes nacionais e internacionais e artigos, tomei a liberdade de resumi-las aqui para vocês, e colocar as que considero mais relevantes e pertinentes. As referências estão ao final do post. Espero que ajude!

 Recomendações dos principais órgãos:

 Sociedade Brasileira de Pediatria – Brasil

  • Os sucos naturais devem ser evitados, mas se forem administrados que sejam dados no copo, de preferência após as refeições principais, e não em substituição a estas, em dose máxima de 100 mL/dia, com a finalidade de melhorar a absorção do ferro não heme presente nos alimentos como feijão e folhas verde-escuras.

 Academia Americana de Pediatria – EUA

  •  Sucos não oferecem benefícios nutricionais para crianças menores de 6 meses e não devem ser oferecidos para as mesmas. (Veja os posts sobre benefícios do aleitamento materno e introdução alimentar).
  • A fruta in natura deve ser oferecida em preferência ao suco. Sucos não oferecem nenhum benefício maior do que a fruta in natura para crianças maiores de 6 meses.
  • Suco de fruta 100% natural pode ser parte de uma dieta saudável quando consumido como parte de uma dieta balanceada. Sucos de fruta artificiais ou de “caixinha” não são equivalentes ao suco de fruta natural e não são recomendados.
  • Sucos não devem ser dados em mamadeiras, ou em recipientes de fácil transporte, de forma a estimular a sua ingesta ao longo do dia todo (o objetivo não é esse!)
  • Não oferecer sucos na hora de dormir.
  • Sucos não são apropriados para o tratamento de desidratação e diarreia.
  • Consumo excessivo de sucos pode estar associado com diarréia, flatulência, distensão abdominal e cárie dentária, além de subnutrição.
  • Sucos não pasteurizados podem conter bactérias (Escherichia coliSalmonella e Cryptosporidium), responsáveis por doenças.
  • A ingesta de suco deve ser limitada a 120 a 180ml por dia em crianças de 1 a 6 anos, e para crianças de 7 a 18 anos, de 200 a 350 ml, ou 2 copos por dia.
  • Em crianças consideradas malnutridas, com diarreia crônica, flatulência excessiva, dor abdominal e má digestão o pediatra deve avaliar a criança e determinar a quantidade de suco consumida.
  • cárie dentária pode estar diretamente relacionada com a quantidade de suco ingerida, sem os cuidados necessários.

 Health Canada – Canadá 

Não recomenda sucos no primeiro ano. Depois de 1 ano, orientam dar suco de forma limitada e não oferecer bebida adoçadas. Se a criança estiver com sede, ofereça água a ela.

 National Health and Medical Research Council – Austrália  

  • Sucos são desnecessários e não se recomenda para crianças menores de 1 ano de idade.
  • Bebidas adoçadas estão associadas com cáries dentárias.
  • Chás e outras bebidas não tem benefícios conhecidos para a criança e podem ser potencialmente perigosos.
 National Health Service (NHS) – Reino Unido
  •  Bebês abaixo de 6 meses não devem receber sucos de fruta.
  • Sucos de fruta diluídos (uma parte de suco para 10 partes de água) podem ser oferecidos à criança com as refeições após os 6 meses. Gente eu coloquei isso aqui, mas por favor, não entendam mal! Não é para dar suco diluído como forma de refeição ou porção de frutas, seria mais como uma “água com gostinho” com o objetivo de hidratar (quando for dar água pode ser dessa forma…).
  • Dica: dar água diluída com suco de fruta natural e frutas sempre in natura!
  • Sucos in natura podem ser dados após as refeições para reduzir o risco de cárie, em pequena quantidade.

 O problema do excesso de suco

  • Excesso de suco pode levar a anemia e malnutrição (com excesso de açúcares e falta de outros nutrientes, como proteínas, carboidratos e vitaminas). Nessa situação imagine aquele bebê que se adapta perfeitamente ao suco, e acaba ficando “preguiçoso” para mastigar e comer outro alimento sólido, substituindo suco pelas refeições do dia. Nesse caso, o bebê pode ter dificuldade de ganhar peso, e ter falta de vários nutrientes importantes.
  • O excesso de suco pode danificar o esmalte do dente, levando a cárie dentária, principalmente quando oferecida na mamadeira.
  • Excesso de suco pode provocar gases e diarréia.
  • O consumo de mais de 350ml de suco por dia está associado a baixa estatura e obesidade.
  • Sucos de fruta podem conter sorbitol e uma grande quantidade de frutose, que pode causar cólicas no bebê, pela produção de gases.
  • Os açúcares podem causar problemas futuros pois mais tardiamente as crianças tem dificuldade de reduzir o carboidrato da dieta, incluído esses açúcares.
  • Sucos têm alto índice glicêmico e crianças que ingerem grandes quantidades de suco tem risco de obesidade no futuro. É só pensarmos quantas laranjas precisamos para fazer 120ml de suco em média. Provavalmente 2 laranjas. E quantos bebês comeriam 2 laranjas inteiras assim, de uma vez?

 Minha opinião como pediatra…

Prefiro a fruta in natura. Porque? A fruta in natura proporciona uma experiência muito mais interessante da criança com o alimento, com diferentes sensações: cor, cheiro, paladar, textura. Os sucos perdem isso. Além disso, as fibras são perdidas no processo de produzir o suco, bem como as vitaminas.
O suco “enche” a criança, mas não necessariamente é mais nutritivo. A tendência ainda é usar mamadeira para dar o suco (apesar de o indicado serem os copinhos de transição ou mesmo copos adaptados para criança), o que pode levar ao desmame.
Enfim, ao invés de nos perguntarmos porque não dar o suco, a pergunta deveria ser: porque dá-los à criança? Existe alguma vantagem? Espero tê-los convencido…Ah! Nem preciso dizer que isso se refere aos sucos in natura ok? Os de caixinha nem pensar!

 Conclusões…

  •  A recomendação é que se dê suco para crianças acima de 1 ano, e ainda assim, numa quantidade limitada.
  • A ingesta de suco excessiva pode contribuir para o desmame, principalmente quando oferecida na mamadeira.
  • Quando oferecida na mamadeira, principalmente à noite, pode contribuir para o surgimento de cáries.
  • A água pode ser dada no copinho junto com suco natural diluído, como forma de hidratação e nunca como substituição da fruta in natura, na proporção de 1:10 (1 parte suco para 10 partes de água)
Tudo isso só sobre suco, quanta informação! Espero ter esclarecido bem esse assunto, que tem causado muita dúvida nas mamães.  Continuem mandando suas duvidas e experiências aqui no blog, obrigada pela participação de vocês!
Para seguir o blog e receber as novidades por email, basta clicar no botão “seguir” no site. Siga também no Facebook (ative o receber notificações, para receber aviso dos posts novos) e instagram (@pediatriadescomplicada).
 Um abraço,
 Dra. Kelly Oliveira
Referências bibliográficas:
The Use and Misuse of Fruit Juice in Pediatrics. Pediatrics 2001;107;1210. Committee on Nutrition. Disponível on-line em: http://pediatrics.aappublications.org/content/107/5/1210.full.html
photo credit: http://www.simplebites.net/wp-content/uploads/2012/09/Clara-peach.jpg

domingo, 5 de março de 2017

“Ficou fácil culpar o glúten por todos os problemas do intestino”

Abaixo uma reportagem que a revista Saúde publicou. Há 5 anos venho falando a respeito disso. Desde 2012 percebi que vários dos pacientes que referiam ter sintomas quando ingeriam alimentos com glúten, não apresentavam reações ao consumir tabule (que leva trigo). Após esses anos, novos estudos sobre Sensibilidade Não-Celíaca ao Glúten (SNCG) foram surgindo e alguns autores começaram a postular que o problema talvez não seja o glúten em si.

A maioria dos pacientes que alegam ter SNCG referem sintomas geralmente quando ingerem farinha de trigo refinada, alguns com a integral. Isso nos leva a pensar que o problema possa estar durante o refino. Outro ponto interessante é: teoricamente a aveia não contém glúten, sendo que o glúten que pode ser encontrado nela, geralmente é por contaminação cruzada, já que ela é manipulada no mesmo maquinário em que o trigo. Na prática percebo que a grande maioria dos pacientes que referem ter SNCG nada apresentam quando ingerem aveia.

Vale a pena ler a reportagem. Acredito que novos estudos surgirão nesse área, na tentativa de eximir o glúten da fama de vilão.

att

Dr. Frederico Lobo
Médico - CRM-GO 13192

“Ficou fácil culpar o glúten por todos os problemas do intestino”

Na terceira e última entrevista de nossa série sobre o glúten, conversamos com o gastroenterologista Peter Gibson, professor da Universidade Monash, na Austrália. O pesquisador ficou conhecido ao publicar os primeiros experimentos sobre a existência da sensibilidade não celíaca ao glúten, nos anos de 2011 e 2013. Na entrevista, ele fala sobre a possibilidade de o problema não ser provocado pela proteína, mas por outras substâncias presentes no trigo.

A reportagem de capa da edição de fevereiro da revista SAÚDE é justamente sobre a polêmica que envolve a proteína presente em grãos como o trigo, o centeio e a cevada. Ela está disponível nas bancas de todo o país e em versão digital para compra e download no iba, na App Store e no Google Play.

Plantas como o trigo sofreram modificações genéticas que podem impactar a saúde humana?

As mais diferentes variedades de trigo foram desenvolvidas para suportar condições extremas, como a seca, e ainda assim promover aumento da produção. Isso levou a mudanças na composição do grão, como maiores quantidades de carboidrato, já que essa vantagem é utilizada pela própria planta para crescer diante de situações nada favoráveis. Além disso, o trigo com mais glúten faz um pão melhor. Logo, espécies com teores elevados dessa proteína foram privilegiadas na agricultura. Não se sabe, porém, se essa característica tem algum efeito na saúde do ser humano. As melhorias no plantio do trigo trouxeram grandes benefícios ao mundo, uma vez que ele é uma das maiores fontes de energia e nutrientes que temos. Mais do que isso, essas modificações contribuíram para melhorar a saúde das pessoas, pois ajudaram a combater a desnutrição.

A sensibilidade não celíaca pode estar relacionada a outros elementos além do glúten?

O trigo tem uma série de componentes e muitos deles estão relacionados à indução de sintomas. Ficou muito fácil culpar o glúten por todos os problemas do intestino. Carboidratos de difícil absorção, também presentes no trigo, podem desencadear a síndrome do intestino irritável. Mas há pessoas que são sensíveis ao glúten ou a outras proteínas presentes no trigo. Sem contar que existe uma série de alergias relacionadas ao grão que também precisam ser consideradas.

Esse campo de pesquisa sobre a sensibilidade não celíaca ainda é muito recente? Ou já temos confirmações sobre seus mecanismos?

Nós estamos conduzindo quatro grandes estudos. Neles, recrutamos voluntários que responderam bem a uma dieta sem glúten e reintroduzimos a proteína na alimentação em metade do grupo. Nas quatro pesquisas, nós encontramos uma porção de indivíduos que desenvolveu sintomas por causa do glúten, mas, em outra parte, os incômodos não estavam relacionados ao componente em si. O que podemos concluir é que efeitos induzidos pelo glúten especificamente são bastante incomuns. Os trabalhos atuais levam a entender que cerca de 90% dos pacientes com alimentação sem glúten se sentem bem por outros motivos, e não pela exclusão da proteína em si.

Como diagnosticar a sensibilidade não celíaca?

A única maneira seria realizar estudos controlados, em que nem os voluntários, nem os cientistas, saibam quem está ingerindo a proteína e quem não está. Mesmo se tivéssemos essa possibilidade, os resultados são de difícil interpretação, especialmente quando a resposta do indivíduo está relacionada a um fator psicológico. Por enquanto, não sabemos como realizar o diagnóstico. Quando entendermos o mecanismo fisiológico do problema, nós conseguiremos detectar a sensibilidade com precisão.

As estatísticas dizem que 1% da população tem doença celíaca e 5% manifesta a sensibilidade não celíaca. Porém, um terço das pessoas diz querer retirar o glúten da rotina. Como interpretar esse conflito estatístico?

Nós ainda não sabemos quantas pessoas realmente têm a sensibilidade não celíaca. Conhecemos, porém, os 15% da população com síndrome do intestino irritável. Inclusive, uma grande proporção deles desenvolvem sintomas relacionados à ingestão de determinados alimentos, mas nunca procuraram o médico para saber o que está acontecendo. Reduzir a ingestão de trigo pode ajudar pelo menos 70% das pessoas que fazem parte deste grupo. Não por causa do glúten, mas porque eles deixarão de consumir um importante exemplar dos carboidratos de difícil digestão, conhecidos pela sigla FODMAPs.

Fontehttp://saude.abril.com.br/alimentacao/ficou-facil-culpar-o-gluten-por-todos-os-problemas-do-intestino/

Gordura interesterificada: a “nova” gordura das margarinas é segura?


No início deste século, evidências científicas incriminando a gordura trans foram se acumulando. A gordura trans é obtida através de um processo industrial chamado de hidrogenação. Os óleos vegetais são ricos em ácidos graxos insaturados. Isto quer dizer que dentro da cadeia carbônica destes ácidos graxos existem várias ligações duplas entre os carbonos (figura 1). Durante a hidrogenação são adicionadas moléculas de hidrogênio a cadeia carbônica do ácido graxo para transformar as ligações duplas em ligações simples (figura 2). Um efeito adverso desse processo é a hidrogenação parcial de algumas das duplas ligações e a “torção” da molécula, formando a famigerada gordura trans.

FIGURA 1. Exemplos de gordura insaturada.

FIGURA 2. Processo de hidrogenação.

Mas por que a indústria gostava tanto de usar a gordura hidrogenada? De uma maneira geral, quanto mais insaturada for uma gordura, maior a probabilidade dela ser líquida. E a indústria alimentícia prefere utilizar gorduras sólidas nos seus produtos, pois além de serem mais estáveis nas altas temperaturas atingidas durante a fritura, garantem consistência mais agradável e maior prazo de validade aos alimentos.
Com cada vez mais órgãos governamentais e entidades de classe se posicionando contra o uso da gordura trans, a indústria alimentícia começou a migrar para um “novo” método para solidificar os óleos vegetais: a interesterificação.
A interesterificação é usada desde a década de 1940. Na natureza, as gorduras se apresentam em “trios” de ácidos graxos ligados a uma molécula de glicerol: são os triglicerídeos (figura 3). Dependendo de qual ácido graxo está na posição 1, 2 ou 3 da molécula do triglicerídeo, suas propriedades físico-químicas podem ser diferentes. Na forma mais comum de interesterificação utilizada pela indústria alimentícia atualmente, conhecida como método enzimático, os ácidos graxos são seletivamente ou randomicamente trocados de posição na molécula do triglicerídeo para que um óleo líquido passe a ser sólido sem o inconveniente da formação da gordura trans. Mas essa manipulação química mantém a gordura própria para consumo? É algo saudável? Esta é uma questão de resposta um pouco complexa…

FIGURA 3. Molécula de triglicerídeos. À esquerda podemos identificar os 3 carbonos da molécula de glicerol.

Primeiramente, mesmo países que historicamente conseguem ter informação epidemiológica apropriada como os Estados Unidos têm dificuldade em calcular o consumo de gordura interesterificada de sua população. Um dos motivos é a rotulagem de muitos produtos ser pouco clara quanto ao tipo de gordura utilizada na sua fabricação. Além disso, no caso da gordura interesterificada, também é importante conhecer quais “gorduras bases” foram usadas na sua fabricação, bem como a descrição do processo, já que a simples descrição da proporção de gordura saturada e insaturada ou a origem ser vegetal ou animal não permite estimar o comportamento biológico dentro do organismo. De qualquer forma, estima-se que o consumo de gordura interesterificada fique entre 1,9 e 4,8% do total energético e suas principais fontes provavelmente são: batatinhas fritas e outros chips, bolachas e pães industrializados, pipocas, margarinas, congelados prontos para fritar (nuggets e empanados, por exemplo), maionese e sorvetes.
Como os dados de consumo populacional são apenas estimados, até o momento grande parte do que se sabe sobre o impacto do consumo das gorduras interesterificadas vem de estudos pequenos, muitos feitos em animais e de curta duração. Além disso, como a gordura interesterificada compreende diversas combinações de ácidos graxos dentro da molécula de triglicerídeo, os resultados destes estudos são extremamente heterogêneos. Outra falha importante destes estudos é não conseguir reproduzir as situações reais de consumo. Isto é, ninguém come gordura interesterificada pura e em níveis até 4 vezes acima do habitual. Mas é assim que alguns estudos tentam avaliar o impacto da gordura interesterificada na saúde…
De qualquer forma, alguns pontos relevantes já foram identificados. Por exemplo, o ácido graxo de está ligado na posição 2 da molécula de triglicerídeo parece ser importante, já que ele pode ser absorvido mais facilmente pelo organismo. Além disso, o comprimento das cadeias dos ácidos graxos que ficam nas posições 1 e 3, nas pontas da molécula, também parece ser importante, já que os saturados de cadeia longa podem ser pior absorvidos quando comparados aos saturados de cadeia média. Dependendo de qual ácido graxo é preferencialmente absorvido a resposta do organismo é diferente com diferentes níveis de triglicerídeos, colesterol, marcadores inflamatórios e mesmo de glicose e de insulina.
Em resumo, até o momento ainda não sabemos se a “substituta da gordura trans” é mais saudável que ela. Para que esta pergunta seja corretamente respondida, além de mais alguns anos de pesquisa, as regras de rotulagem dos produtos alimentícios industrializados precisaram ser revistas. Neste tipo de situação onde não sabemos o real efeito de algo, o princípio da prudência se impõe. Logo, além de dar preferência às fontes naturais saudáveis de gordura (azeite de oliva, por exemplo), o consumidor tem direito de ser bem informado para decidir o que é melhor para si.

Referência:

1- Mensink RP, Sanders TA, Baer DJ, Hayes KC, Howles PN, Marangoni A. The Increasing Use of Interesterified Lipids in the Food Supply and Their Effects on Health Parameters. Adv Nutr. 2016 Jul 15;7(4):719-29. 


Dr. Mateus Dornelles Severo
 Médico Endocrinologista
CREMERS 30.576 - RQE 22.991

Papo sério: Os esteroides anabolizantes e o nosso "relógio suíço"

Desde os anos 70, os esteroides anabolizantes vêm sendo usados de forma abusiva por atletas, fisiculturistas e praticantes de atividade física. Os esteroides androgênicos anabólicos (ou anabolizantes) são hormônios representados pela testosterona e seus derivados, cujos efeitos de aumento de massa muscular e óssea e aumento da capacidade de proliferação celular são empregados em situações médicas muito restritas, como nos casos de desnutrição grave causada por câncer e AIDS. Essas substâncias hormonais também são empregadas para suprir as necessidades daqueles que as deixam de produzir, como nos casos de hipogonadismo e atraso puberal. Entretanto, o seu uso indiscriminado e crescente, sem indicação clínica, particularmente em adolescentes e adultos jovens, tem chamado a atenção das principais sociedades médicas mundo afora, principalmente aquelas ligadas a programas antidoping, que alertam sobre os riscos à saúde decorrente da exposição de terapias anabolizantes.

De fato, as propriedades “milagrosas” dos esteroides anabolizantes começaram a chamar a atenção a partir dos surpreendente ganho de força e massa muscular de atletas de alto nível, o que garantia um desempenho muito superior quando comparado com aqueles que não usavam. Não demorou muito para essas substâncias alcançarem as academias, as farmácias e alguns consultórios médicos.
Na chamada "medicina estética e antienvelhecimento", hormônios androgênicos esteroides, o hormônio da tireoide e o hormônio do crescimento  (GH), que normalmente são usados somente para reposição em situações de deficiência comprovada, são indicados precoce e erroneamente com intuito de retardar o envelhecimento, aumentar o metabolismo, aumentar a massa muscular, reduzir a gordura corporal, melhorar a textura da pele e a libido. Nesses casos, são usados hormônios sem a real necessidade e em doses muito acima do recomendado. Claro que isso faz mal para o organismo!
Termos como “bio-idêntico” ou “nano-hormônio” são usados inescrupulosamente para criar uma falsa ideia de pureza e segurança, o que obviamente não existe. Disparado, a testosterona e seus derivados (ex. oxandrolona, oximetolona, estanazolol, di-hidrotestosterona) são os líderes em uso justamente por suas fortes propriedades anabolizantes, sua facilidade de encontrar e o seu baixo custo.

Mas você sabe qual o efeito que o uso dessas substâncias terá no seu organismo?
Bem, nosso sistema endócrino é um "relógio suíço", onde tudo funciona da melhor maneira para nos manter em equilíbrio. Nossos hormônios, quando estamos saudáveis e sem doenças, são produzidos na quantidade exata das nossas necessidades, nem um gota a mais. Quando um homem usa um esteroide por estética, para aumento de massa muscular, esse sistema é inibido. Sim, porque o nosso sistema hormonal funciona assim: para tentar evitar o excesso deletério, as glândulas deixam de produzir aquele hormônio que está sendo administrado.

No caso do uso da testosterona, por exemplo, os testículos deixam de produzir a própria testosterona enquanto a pessoa estiver usando. Esse uso, geralmente em doses acima do que o corpo está habituado (para ter uma ideia: a dose de reposição para quem não produz testosterona é 1 injeção a cada 14 dias; em ciclos anabolizantes, tem gente usando 1 injeção ao dia!), cria um "falso ambiente hormonal", o que estimula forçadamente as células do corpo a proliferar e crescer de tamanho. Se eu tinha um massa muscular "x" produzindo "y" de testosterona, agora com "4y" de testosterona terei uma massa muscular "4x". Parece maravilhoso! Mas o problema é que isso só se mantém enquanto estivermos usando essas doses altas. Quando reduzimos ou interrompemos o uso, que geralmente é o que ocorre quando se termina o chamado ciclo, voltamos a ser o que éramos: "x"! E um "x" que agora não consegue produzir a sua própria testosterona, pois os testículos podem demorar para trabalhar de novo. Esse estado de não produção dos próprios hormônios nós chamamos de hipogonadismo. E é nesse período, conforme o tempo que foi usado e retirado o anabolizante, que o organismo sente muito a falta dos hormônios, gerando perda grande da muscular conquistada, cansaço intenso, fraqueza, humor deprimido, impotência e falta de libido.

Esse é um ponto crucial! O que a maioria faz:
1) se convence que é um efeito colateral do tratamento e mata no peito os sintomas;
2) busca atendimento médico para entender os sintomas e tratá-los;
3) volta a usar o anabolizante.

Na minha experiência de consultório, infelizmente a maciça maioria escolhe a opção 3. Voltam a usar e os sintomas imediatamente melhoram; voltam a ficar grandes e potentes, com libido lá em cima. E daí passa ser um ciclo atrás do outro, sempre com alguma alternativa indicada por um amigo ou médico para tentar evitar os efeitos da parada. “Ah, mas eu quero usar uma dose bem baixa, só para dar uma estimulada…” Não adianta, pois só vai ter os efeitos de supressão da testosterona sem ter o resultado de crescimento muscular.

Não importa se você compra na academia ou na farmácia sem receita ou se recebeu receita de um médico. Para ter o efeito anabolizante, você sempre terá que usar doses acima do necessário. Aliás, não se iluda se esse tipo de tratamento estiver sendo feito por um médico que garanta que é seguro. O ego de muitos médicos sempre supera (e muito) o bom senso. São pseudo-inovadores, sedutores, manipuladores, super-stars das redes sociais, revolucionários inconsequentes, messiânicos que se colocam acima da boa prática médica e das entidades médicas sérias, oferecendo tratamentos que não tem suporte de segurança pela boa literatura médica. Por favor, não se iluda!

Mas mesmo assim quer usar? Saiba então os efeitos adversos do uso dos esteroides anabolizantes: alterações dermatológicas (acne, lipodistrofia – atrofia da gordura, abscessos musculares, hematomas, calvície, estrias, excesso de pelos corporais), hematológicas (aumento do número dos glóbulos vermelhos, sangue mais viscoso), alterações sexuais (impotência, ginecomastia, atrofia testicular, infertilidade), osteo-musculares (hérnia de disco, lesões meniscais, rabdomiólise-dano muscular grave), hepáticas (hepatite, colestase, icterícia -amarelão, esteatose, nódulos, câncer de fígado), renais (insuficiência renal, glomerulonefrite), cardiovascular (redução do colesterol HDL, AVC, hipertensão arterial, aumento do volume do coração, insuficiência cardíaca, arritmia, infarto, morte súbita) e comportamentais (agressividade, comportamento imprudente e compulsivo, dependência, síndrome de abstinência, depressão, pensamentos suicidas, percepção alterada da forma corporal, maior consumo de álcool e outras drogas, transtornos alimentares tipo vigorexia, bulimia, anorexia, prática de sexo inseguro). Além disso, existem vários relatos de câncer associado ao uso de anabolizantes, como câncer de fígado, de pâncreas, miossarcoma, osteossarcoma, linfoma e leucemia.

Em mulheres, os efeitos hormonais são resultado da exposição do organismo a um hormônio caracteristicamente masculino e em quantidades muito altas. O resultado é que a testosterona passa a modificar o corpo feminino trazendo traços masculinos, que é o que chamamos de virilização (ou masculinização). Aumento exagerado da massa muscular, acne, redução anormal da gordura corporal, lipodistrofia, atrofia das mamas, excesso de pelos no rosto e no corpo, aumento do gogó, voz masculinizada, parada da menstruação, engrossamento da pele, aumento do clitóris e infertilidade. Além de todos os efeitos colaterais já citados.

A saúde não é brincadeira. Respeite o seu "relógio suíço". Não se exponha a tratamentos que podem trazer riscos desnecessários. E principalmente, não coloque a sua saúde nas mãos de inconsequentes, seja um amigo, o cara da academia ou da farmácia, o cara que traz da fronteira, um médico. Ninguém se responsabilizará por você se algo der errado.

Referências:
1 - Eberhard Nieschlag, Elena Vorona. Doping with anabolic androgenic steroids (AAS): Adverse effects on non-reproductive organs and functions. Rev Endocr Metab Disord 2015. DOI 10.1007/s11154-015-9320-5
2 - WADA worldwide antidoping network (www.wada.org).

Dr. Eduardo Guimarães Camargo
Médico Endocrinologista
CREMERS 23.404 - RQE 17.086
www.dreduardocamargo.com.br

domingo, 12 de fevereiro de 2017

Arsênio e arroz: devemos nos preocupar ?




 Eu sei que a cada post desses, você fica se perguntando: mas eu vou viver de quê? Até no arroz nosso de cada dia, tem algo para trazer preocupações, no caso o arsênio! Mas como você sabe, apesar de fato ser algo que é importante, o terrorismo nutricional, ao invés de te ajudar, termina te assustando mais.

A questão vem sendo levantada há anos, a partir de técnicas que nos permitiram detectar esses tipos de elementos na nossa comida e como o arroz é um cereal do dia a dia em quase todo o mundo, as agências regulatórias, como ANVISA aqui, FDA nos EUA e EFSA, na Europa, estão de olho nessa questão.

Particularmente na pediatria, é preocupante o uso excessivo do arroz, na forma de alimentos para bebês, como aqueles farináceos com açúcar que as mães insistem em usar em grande quantidade, adicionadas ao leite dos bebês. Claro que dar arroz para comer não será problema nenhum, mas nessa entrevista, você entenderá tudo sobre o problema e como diminuir o seu risco e do seu filho.

O entrevistado é o Dr. Bruno Lemos, pós Doutor em Toxicologia pela USP e o maior especialista no Brasil atualmente sobre o tema. Ele é membro ativo da câmara técnica da ANVISA, que visa fazer regulamentações que suscitem um consumo mais seguro dos alimentos, no caso o arroz.

Já conversei sobre esse assunto antes, mas agora teremos uma entrevista exclusiva e bastante instrutiva com um ultra especialista nessa temática. Aproveitem e não deixem de repassar para os amigos!

Fonte: http://www.pediatradofuturo.com.br/arrozearsenio/

Forma mais comum de cozinhar arroz pode trazer risco à sua saúde

A maneira que você cozinha arroz pode colocar a sua vida – e as das pessoas que comerem o alimento – em risco. Andy Meharg, professor da Universidade de Queens, no Reino Unido, revelou durante um programa da BBC que o arroz pode liberar arsênico se você utilizar um método bem comum de cozimento.

A técnica tradicional consiste em usar a proporção de duas partes de água para uma de arroz e ferver o alimento até que todo o líquido evapore. Após realizar esse processo, Meharg descobriu vestígios de arsênico no arroz, um elemento químico associado a uma série de doenças, como câncer e diabetes.

O arsênico é encontrado naturalmente no solo. Por isso, pequenas quantidades desse produto químico podem infectar o alimento. Geralmente, os níveis tóxicos são tão baixos que não causam preocupação às autoridades.

No caso do arroz, no entanto, a história é diferente. Isso porque, ele é cultivado em plantações inundadas e esse método faz com que o arsênico do solo entre com mais facilidade nos grãos. De acordo com a reportagem da BBC, o arroz tem cerca de 10 a 20 vezes mais arsênico do que outras culturas de cereais.

“A única coisa que posso comparar (com o ato de comer arroz) é fumar”, disse Meharg. “Se você fuma um ou dois cigarros por dia, seus riscos serão muito menores do que os riscos de uma pessoa que fuma 30 ou 40 cigarros diariamente. Depende da dose, quando mais você comer, maior é o risco.”

O que preocupa o professor não é a quantidade de arroz que um adulto come, mas quantas porções do grão que crianças ou bebês ingerem. “Sabemos que os baixos níveis de arsênico podem impactar o desenvolvimento imunológico, o crescimento e o desenvolvimento do QI.”

Em 2014, a agência que regula medicamentos e alimentos nos EUA, a FDA, apresentou uma pesquisa que revelou que os níveis de arsênico em mais de 1.300 amostras de arroz não oferecem risco imediato ou no curto prazo para a saúde. Contudo, o órgão disse que continuaria a investigar se o consumo do grão poderia causar doenças crônicas.

Alternativas

Apesar de a pesquisa ser importante para que mais estudos seja feitos sobre o assunto, isso não significa que você precisa parar de comer arroz. No programa, o professor também apresentou duas outras maneiras de cozinhar o alimento para ficar parcialmente livre do arsênico.

A primeira é usar uma proporção de cinco partes de água para uma parte de arroz e ainda tirar o excesso de água. Com isso, os níveis do produto tóxico foram quase reduzidos pela metade. A segunda é deixar o arroz de molho durante a noite e depois drenar a água. Assim, o grau de toxina é reduzido em 80%.

Fonte: http://exame.abril.com.br/ciencia/o-jeito-que-voce-cozinha-arroz-pode-trazer-riscos-a-sua-saude/

Glúten, lactose e outras modas por Dr. Drauzio Varella

Nunca houve tantos modismos na dieta. Dieta sem glúten, sem lactose, sem gordura, sem carboidratos, sem nada que venha dos animais e até dietas sem alimentos que contenham DNA (pedras, talvez).

A história de nossos antepassados é a da miséria. Dos 6 milhões de anos de nossa espécie, pelo menos 99,9% do tempo caçávamos, pescávamos, coletávamos frutos e raízes e disputávamos carcaças de animais com outros carnívoros famintos.

Há insignificantes 10 mil anos, o surgimento da agricultura criou a oportunidade de abandonarmos a vida nômade e armazenarmos víveres para a época das vacas magras.

Ainda assim, as epidemias de fome e a desnutrição chegaram até os dias atuais. Na metade do século passado havia fome coletiva na França, Inglaterra, Alemanha e demais países da Europa deflagrada.

Comida farta só chegou à mesa de grandes massas populacionais depois da Segunda Guerra Mundial, graças à mecanização e aos avanços da agricultura e da tecnologia de conservação de alimentos. Hoje, um brasileiro de classe média tem acesso a refeições mais variadas e nutritivas do que as dos nobres nos castelos medievais.

A fartura trouxe o exagero. Um cérebro com circuitos de neurônios moldados em tempos de penúria não desenvolveu mecanismos de saciedade, capazes de frear os impulsos viscerais despertados pela fome, antes de nos empanturrarmos até passar mal de tanto comer.

Essencial à sobrevivência quando precisávamos acumular reservas para os longos períodos de jejum que se sucediam, essa estratégia se voltou contra nós.

Ao mesmo tempo, vão distantes os dias em que gastávamos energia para alimentar a família. Pela primeira vez na história da humanidade, desfrutamos o privilégio de ganhar o sustento sentados em cadeiras confortáveis. A um toque de celular o disque-pizza nos entrega 5.000 calorias à porta, sem sairmos do sofá.

Fartura e sedentarismo, gula e preguiça, criaram as raízes da epidemia de obesidade que assola o mundo. Novembro de 2016 foi o primeiro mês dos tempos modernos em que a expectativa de vida diminuiu em relação à do mês anterior, nos Estados Unidos.

Seguimos pelo mesmo caminho. A continuar nesse passo, a obesidade e a vida sedentária farão nossos filhos viverem menos do que nós.

Sem disposição nem coragem para encarar a realidade de que comemos mais do que o necessário e andamos menos do que deveríamos, procuramos uma saída mágica que nos mantenha saudáveis.

Inventamos teorias mirabolantes que a internet divulga com tal velocidade que se transformam em ideologias com manadas de defensores ardorosos: carne é veneno, nenhum animal adulto toma leite, glúten engorda e incha, suco de berinjela reduz colesterol, e tantas outras.

É desperdício de tempo e risco de perder amigos questionar essas crenças. Não adianta dizer que nossos antepassados não teriam sobrevivido não fosse a carne, que alimentos com glúten costumam conter carboidratos simples com índices glicêmicos elevados, que a coitada da berinjela jamais teve a pretensão de proteger alguém contra o ataque cardíaco e que onças adultas não tomam leite pela mesma razão que não bebem chope nem água encanada.

Para confundir ainda mais, estudos com resultados que exigiriam interpretações estatísticas cautelosas e confirmação em pesquisas mais elaboradas ganham destaque nas mídias como se apresentassem conclusões definitivas. Num dia, o ovo é uma bomba de colesterol prestes a explodir as coronárias; no outro, asseguram que tem alto valor nutritivo. A carne de porco que já foi a mãe de todos os males está reabilitada, a de boi enfrenta suspeitas.

A confusão acontece porque esses estudos costumam ser observacionais. Neles, são analisadas as características dietéticas de uma população e as enfermidades que a afligem. Em ciência, publicações desse tipo são consideradas apenas geradoras de hipóteses. Para confirmá-las são fundamentais os estudos prospectivos, randomizados, muito mais complexos, dispendiosos e demorados.

Perdido na selva de informações desencontradas, o que você deve fazer, leitor? Coma frutas, saladas e verduras com liberalidade; do resto, de tudo um pouco. Procure comer o que sua avó considerava comida.

Fonte: http://www1.folha.uol.com.br/colunas/drauziovarella/2017/02/1855591-gluten-lactose-e-outras-modas.shtml

Anvisa proíbe noz da Índia e chapéu de Napoleão

A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) proibiu a fabricação, a comercialização, a distribuição e a importação de Noz da Índia (Aleurites moluccanus) e do Chapéu de Napoleão (Thevetia peruviana) como insumos em medicamentos e alimentos e em quaisquer formas de apresentação. Os produtos à base dessas plantas são comercializados e divulgados irregularmente com indicações de emagrecimento, por suas propriedades laxativas. No entanto, nunca houve registro na agência. A medida, publicada no Diário Oficial da União (DOU) desta terça-feira, vale para todo o território nacional.

De acordo com a agência, as sementes são tóxicas e há relatos de mortes associadas ao seu consumo. De acordo com informações do jornal O Globo, a noz da Índia é nativa da Ásia e tem propriedades laxantes. Já o chapéu de Napoleão, nativo da América do Sul, é uma planta parecida com a Noz da Índia.

A medida também está baseada na Nota Técnica 001/2016 emitida pelo Centro Integrado de Vigilância Toxicológica do Estado do Mato Grosso do Sul (Civitox/CVA/SGVS/SES/MS), sobre casos de intoxicação pelo uso da semente.

Chapéu de Napoleão

Também está proibida a distribuição e uso da planta Chapéu de Napoleão ou “jorro-jorro” (Thevetia peruviana), cujas sementes se assemelham àquelas da Noz da Índia. Essas sementes, quando ingeridas, também são tóxicas e seu uso é proibido em diversos países.

A medida sanitária aplicada pela Anvisa ao consumo dessas sementes, em qualquer forma de apresentação, proíbe também a divulgação, em todos os meios de comunicação, de medicamentos e alimentos que apresentem estes insumos.

Fonte: http://veja.abril.com.br/saude/anvisa-proibe-noz-da-india-e-chapeu-de-napoleao/

Dieta materna influencia reprogramação do DNA do feto


Pesquisa da USP de Ribeirão Preto confirma ação do ácido fólico sobre função genética da prole para doenças cardiovasculares e diabete.

Toda gestante deve receber alimentação rica em ácido fólico para prevenir anencefalia e diferentes graus de deficiência mental no futuro bebê. Mas de que maneira essa vitamina atua sobre o DNA e define o funcionamento dos genes no organismo em gestação?

A busca de respostas para a questão fez a equipe do Setor de Nutrologia da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (FMRP) da USP estudar a ação do ácido fólico em genes ligados a doenças cardiovasculares e diabetes mellitus tipo 2. E os resultados da pesquisa mostraram que mudanças no fornecimento da vitamina a ratas gestantes e lactantes interferem no controle da expressão gênica das proles para essas doenças.

Os pesquisadores da USP de Ribeirão Preto analisaram material genético de filhotes cujas mães receberam diferentes concentrações de ácido fólico durante a gestação e lactação. E verificaram que os filhotes gestados com dieta deficiente da vitamina apresentaram maior expressão dos genes envolvidos com essas doenças, enquanto os filhotes de mães que receberam suplemento de ácido fólico, ao contrário, apresentaram pouca expressão desses genes.

Esses resultados, conta a geneticista Paula Lumy Takeuchi (foto), responsável pelo estudo, revelam mecanismos moleculares envolvidos no que a pesquisadora chama de “reprogramação epigenética fetal” dos genes ligados a doenças cardiovasculares e diabetes mellitus tipo 2. E, também, mostram a importância do “fornecimento adequado de ácido fólico às mães durante o desenvolvimento embrionário”.

Paula adianta que essa “reprogramação epigenética” corresponde às mudanças observadas nas expressões dos genes estudados. O ácido fólico, vitamina retirada de alimentos, participa ao nível genético de “reações de metilação do DNA”.

A alteração da quantidade de ácido fólico fornecida pela alimentação das mães alterou o “ciclo da metionina, principal aminoácido doador de grupos metil para as reações de metilação do DNA e de proteínas”. Esse é um dos mecanismos pelo qual os genes são “ligados e desligados”; o que vale dizer que eles podem estar ativos ou inativos no organismo.

Da multiplicação celular ao controle genético de doenças

Não se pode fazer uma correlação direta entre os achados experimentais, em ratos de laboratório, com o organismo humano. A pesquisadora lembra que o metabolismo do rato é bem diferente do humano. Mas é fato que as mulheres gestantes devem ingerir ácido fólico, pois ele é importante para a multiplicação celular e, portanto, importante para o desenvolvimento do embrião em formação, principalmente o tubo neural.

É do tubo neural, explica Paula, que se originam o eixo central do sistema nervoso, na cabeça e a coluna vertebral do feto. “Nossos estudos são uma iniciativa de elucidar os mecanismos moleculares que podem influenciar o desenvolvimento de doenças na prole de mães que tiveram sua dieta em ácido fólico alterada durante a gestação e lactação”, conta a pesquisadora.

Como essa vitamina pode alterar a regulação da expressão de genes como os relacionados a essas duas doenças: diabetes mellitus tipo 2 e cardiovasculares? A cientista antecipa que já se suspeitava que a suplementação alimentar com ácido fólico provocaria diminuição da expressão de genes e, ao contrário, a deficiência induziria ao aumento da expressão de genes.

Mas Paula alerta que a “diminuição ou aumento da expressão de genes é uma faca de dois gumes”, pois depende da função que esses genes desempenham no organismo. Ela cita o exemplo do colesterol bom (HDL) e o colesterol ruim (LDL) que estão relacionados a dois genes que estudou.

Se no tratamento com suplementação com ácido fólico ocorre a diminuição da expressão desses dois genes, “poderá haver uma menor síntese do LDL, mas também haverá diminuição da síntese do HDL”. Mas mesmo assim, a geneticista afirma que não podemos atribuir “o desenvolvimento de doenças cardiovasculares e diabetes mellitus tipo 2 apenas à desregulação da expressão de genes; outros fatores externos também contribuem de forma preponderante”.

Alimentação durante gravidez e lactação

O estudo da nutrologia da USP de Ribeirão Preto ainda está em desenvolvimento. A equipe ainda está analisando outros parâmetros relacionados à regulação desses genes que podem desencadear doenças cardiovasculares e diabete. Mas, garante Paula, que “alterações da dieta materna durante os períodos de gestação e lactação podem afetar a expressão de genes na prole”.

Quando o embrião está se desenvolvendo, há dois momentos em que ocorrem “apagões globais do padrão de metilação do DNA”. Nesses momentos, o feto fica suscetível às variações de oferta de substâncias (do grupo metil) para restabelecer o processo padrão de metilação de seu DNA.

Assim, a recomendação do Conselho Federal de Medicina é de que as mulheres usem o ácido fólico antes da concepção e nos três primeiros meses de gravidez. A ingestão diária de 400 microgramas dessa vitamina pode reduzir em até 75% o riso de má formação no tubo neural do feto, o que previne casos de anencefalia, paralisia de membros inferiores, incontinência urinária e intestinal nos bebês. Isso, além de diferentes graus de deficiência mental e de dificuldades de aprendizagem escolar.

Com esse estudo, a pesquisadora e pós-doutoranda Paula Lumy Takeuchi e o professor da FMRP Hélio Vannucchi (foto) receberam o prêmio internacional “2017 Malaspina International Scholar Travel Award” do International Life Sciences Institute (ILSI), fundação mundial sem fins lucrativos que procura colaboração científica entre nutrição, segurança alimentar, toxicologia, avaliação de risco e meio ambiente.  O prêmio foi recebido durante o 2017 ILSI Annual Meeting em La Jolla, Califórnia, EUA, realizado entre 22 e 24 de janeiro.

Fonte: http://ribeirao.usp.br/?p=11381

Abaixo uma tabela de biodisponibilidade de ácido fólico em alguns alimentos (TACO, 2012)


quinta-feira, 2 de fevereiro de 2017

Orientações para Ferritina alta (Hiperferritinemia) - Abordagem Nutrológica

Uma abordagem clínica e nutrológica para um problema cada vez mais comum e que causa muita preocupação principalmente em homens na meia-idade.
Não é um, nem dois ou três pacientes que procuram atendimento médico assustados após abrirem o envelope com resultados dos exames laboratoriais e neles se depararem com um nível alto de ferritina. Muitos, inclusive, por conta própria, já chegam com uma dieta restritiva, demonizando o pobre do feijão, da lentilha e, é claro, da carne vermelha. “Doutor, há dois anos não como churrasco por causa dessa tal de ferritina!” – me relatou um senhor dias atrás. Parece simples, mas imagine você o medo que o resultado lhe causou; afinal de contas,  estamos no Rio Grande do Sul e um churrasco de vez em quando é quase que necessário. Chega a soar como uma moda ou uma nova pandemia, tamanha a quantidade de pessoas que apresentam a alteração. Mas o que está por trás desse valor elevado de ferritina? Necessariamente o paciente precisa afastar-se de alimentos ricos em ferro? Onde está o perigo? A sangria sempre é indicada? Vamos lá. Tentarei tirar algumas dúvidas, tranquilizar na medida do possível e orientar que a melhor conduta é o seguimento médico feito com calma, passo a passo, quer dizer – guarde bem isso –, por etapas.
Começo por definir o que é a ferritina e quais são suas funções – esse entendimento é fundamental para a compreensão da mensagem que quero transmitir hoje. A ferritina é uma proteína produzida principalmente pelo fígado, cujas funções básicas são: carregar ferro e mediar o processo de inflamação. Por estar envolvida no transporte do ferro, é natural que haja uma proporcionalidade nos níveis da proteína com os do mineral. Por isso, uma das utilidades clínicas do exame se dá, por exemplo, na avaliação das reservas do mineral em pacientes com anemia ou em situações de risco para deficiência de ferro, como crianças e gestantes; níveis reduzidos de ferritina nesses casos indicam baixa reserva do mineral.
Quanto à questão da presença de um processo inflamatório agudo e crônico ou de uma ativação do sistema imunológico, assim como ocorre com outros marcadores bioquímicos, a ferritina eleva-se – ou seja, quando estamos diante de gripe, pneumonia, câncer, gastroenterite e, até mesmo, simples resfriado, os níveis sobem rapidamente. Nesses casos, a produção de ferritina pode até triplicar sem haver nenhum aumento na quantidade corporal de ferro. Outras condições que cursam com o aumento nesse marcador são o alcoolismo e as doenças do fígado, como a cirrose, as hepatites e a esteatose – que é o tão comum acúmulo de gordura no órgão.  Também são causas de hiperferritinemia (ferritina elevada) as cada vez mais presentes obesidade e síndrome metabólica (combinação entre acúmulo de gordura visceral, resistência insulínica, hipertensão arterial e alterações nos níveis de colesterol e triglicérides). Para deixar bem claro essa questão entre as causas da elevação da ferritina, trago um estudo australiano recente, ressaltando que apenas 10% dos casos de elevação do marcador são associados à sobrecarga de ferro – todas essas outras doenças que acabei de mencionar são responsáveis por 90% dos casos. (leia essa última frase de novo!)
Deixo aqui dois pontos importantes: (1) outras condições elevam a ferritina e, por isso, (2) nem sempre esse aumento significa sobrecarga de ferro – condição não tão frequente assim.
Passo, então, para a segunda pergunta, sobre as mudanças imediatas nos hábitos alimentares. Não há a necessidade de se restringir alimentos ricos em ferro após abrir o envelope dos exames e encontrar um nível alto de ferritina. Isso porque se trata de um exame que não é definitivo quanto ao diagnóstico de excesso de ferro.  Antes da mudança na dieta, um resultado alterado deve levar o paciente e seu médico a uma investigação atenta e por etapas. Deixo de novo ressaltado a necessidade de ser uma investigação organizada por etapas para que se evite precipitações, erros no diagnóstico e sangrias ou dietas desnecessárias.
Inicialmente, uma questão deve ser evocada e respondida: o paciente estava com alguma condição inflamatória (resfriado ou uma artrite no joelho, por exemplo) quando realizou o exame ou alguma doença crônica pode estar causando esse aumento? É sempre indicada a repetição do exame, orientando os pacientes a respeitar três dias sem ingestão de bebidas alcóolicas e não praticar exercício físico intensos no dia anterior. Caso a ferritina venha novamente alta e na intenção de aprofundar essa análise, além da anamnese (entrevista clínica) e exame físico, o médico pode solicitar outros exames bastante simples, como a saturação de transferrina, a proteína C-reativa ultrassensível e o VSG. O primeiro é mais fidedigno na detecção de uma sobrecarga de ferro e deve ser sempre solicitado, enquanto os últimos dizem respeito ao estado inflamatório do organismo. Para exemplificar e facilitar a compreensão, aquele senhor que há dois anos não comia um churrasco apresentava ferritina e a proteína C-reativa elevadas, mas tinha a saturação de transferrina baixa (<30%), logo, não tinha sobrecarga de ferro e não precisaria se submeter a nenhuma restrição alimentar.
E qual seria o perigo de um resultado laboratorial “ferritina elevada” e do excesso de ferro?
Nos últimos anos, pesquisas têm demostrado o impacto negativo da sobrecarga de ferro e seu consequente acúmulo de radicais livres no funcionamento de diversos órgãos e no desenvolvimento de doenças degenerativas. Numa passada rápida, destaco danos principalmente ao fígado, coração e vasos sanguíneos, articulações, glândulas como tireoide, pâncreas e testículos. Entre essas doenças degenerativas, cito a aterosclerose (acúmulo de gordura nas artérias), a diabetes e a doença de Alzheimer. Não parando por aí, há também aumento no risco de desenvolvimento de alguns cânceres e um envelhecimento precoce se instala. Estudos com análises de biologia molecular comprovam que o excesso de ferro reduz o tamanho dos telômeros de leucócitos – que é um marcador de envelhecimento acelerado.
São diversos fatores que motivam a realização dessas recentes pesquisas, entre eles, a quantidade aumentada de pacientes apresentando excesso de ferro.
Quanto ao problema em si, trata-se de uma questão inicialmente matemática no desequilíbrio entre a ingestão e a eliminação do mineral. Para funcionar bem, um adulto homem necessita de cerca de 8 mg de ferro ao dia, da qual absorve pouco mais de 10%, enquanto a dieta ocidental oferece cerca de 6 mg a cada mil calorias consumidas, ou cerca de 18 mg numa dieta comum de 3 mil calorias. Diferentemente de outros minerais, o ferro é facilmente absorvido pelo tubo digestivo e apresenta, por outro lado, uma eliminação mais complicada, basicamente pela descamação da parede do intestino. Somos melhores em absorver do que em eliminar ferro do nosso organismo. Algumas pessoas possuem características genéticas que as predispõem a uma absorção do ferro ainda mais fácil  e outras consomem alimentos que também potencializam a absorção do metal, como a gordura saturada em excesso.
Falando da questão genética, existe uma doença razoavelmente rara  e predominantemente assintomática chamada Hemocromatose – sua prevalência varia entre 1 caso em 200-500 adultos nos EUA –, que se caracteriza justamente pela facilidade em acumular o mineral (2-3 vezes mais) e que, quando não tratada, pode levar a outros problemas como cirrose (25% dos acometidos) e câncer de fígado, deformações articulares, cardiopatia, hipotireoidismo, diabetes e hipogonadismo – que significa baixos níveis de hormônios sexuais. O diagnóstico é feito através de exames de sangue, entre eles um teste genético para as mutações C282Y e H63D, exames de imagens (ressonância magnética) ou mesmo uma biópsia do fígado. Com o diagnóstico de hemocromatose, ou de uma sobrecarga de ferro – que pode acontecer sem a presença da doença –, a sangria nem sempre é a primeira conduta; ela está condicionada a valores encontrados nos exames e presença de lesões ou ao associado mau funcionamento de algum órgão.
A sobrecarga de ferro é verificada quando:
  • a saturação de transferrina está acima de 45%;
  • presença de acúmulo de ferro na biópsia hepática ou ressonância magnética (ex. FerriScan ou com protocolos para a finalidade) –  isso porque 90% do ferro do organismo se encontra depositado no fígado;
  • por flebotomia quantitativa ( ausência de anemia após 16 “sangrias” semanais – que equivale a retirada de pelo menos 4 g de ferro).
Pelo teste genético ser de difícil acesso (muitos planos de saúde não o cobrem e seu custo é de pelo menos 280 reais), sugere-se, em homens, a utilização da saturação de transferrina como exame de rastreio para a doença. Um estudo norueguês apontou que duas medidas acima de 55% possuem uma sensibilidade de 90% e especificidade de 99,6% para encontrar a alteração genética C282Y – típica da hemocromatose. É claro que a genética populacional nossa e dos noruegueses é bem diferente e não existe pesquisa semelhante por aqui, logo, essa precisão da saturação de transferrina não pode ser transportada para os brasileiros. No entanto, em pacientes com altos níveis de saturação de transferrina, a indicação do teste genético ganha um peso maior.
Retomando ao o que fazer, como foi demonstrado, é preciso uma investigação para determinar se realmente há o excesso de ferro, se há a hemocromatose e como estão os órgãos mais comumente afetados.  Caso seja indicada, a sangria terapêutica (flebotomia) é geralmente feita em bancos de sangue, com indicação médica, e apresenta ótimos resultados. Num primeiro momento é feita uma retirada do excesso de ferro com diversas sangrias e, após, são realizadas de 2 a 6 delas anualmente para manutenção. Em alguns casos, quando o paciente não apresenta contra-indicações, até mesmo doações de sangue frequentes podem ser indicadas como caráter preventivo para se evitar a sobrecarga do mineral. Existem medicações que diminuem o ferro corporal, chamados de quelantes, porém são reservadas para situações muito específicas.
O grande perigo da sangria (flebotomia): o alvo pode estar errado!
Na presença de sobrecarga de ferro e o paciente sendo capaz de tolerar a retirada de sangue, como vimos, a indicação de sangria é sim correta e útil. Quanto aos perigos do tratamento com flebotomias, destaco o risco de desenvolvimento de anemia naquelas pessoas que não apresentam sobrecarga de ferro, o  medo de que alguma doença genética exista na família e os riscos de lesões venosas, como feridas e flebites. Porém, o grande perigo da indicação errada de sangria é o de se perder a chance de intervir em outra causa de elevação da ferritina que não seja a sobrecarga de ferro – refiro-me à esteatose hepática, à obesidade ou à hepatite B ou C, por exemplo.
Mas, então, se tenho ferritina alta e a saturação de transferrina veio baixa, não preciso me preocupar? A questão da hiperferritinemia metabólica.
Precisa sim. Mesmo quando uma sobrecarga de ferro não está presente, essa situação de ferritina alta deve sempre ser encarada como um sinal de alerta. Por quê? Você está lembrando que entre as funções dessa proteína, está a de ser um marcador do processo inflamatório, dessa forma, algo de errado está acontecendo e se faz necessário descobrir do que se trata. Além disso, o excesso de ferritina nessa circunstância está associado ao risco de desenvolvimento de uma doença perigosa: a diabetes. São diversas pesquisas recentes que apontam a relação entre níveis elevados da proteína com um risco aumentado para a doença.
Um estudo coreano, agora de 2013, acompanhou 2 mil homens ao longo de 4 anos. Aqueles que apresentavam níveis elevados de ferritina tiveram um risco 2 vezes maior de se tornarem diabéticos. Outras duas pesquisas, do tipo meta-análise, também desse ano, só que vindas da China e da Inglaterra, confirmou a mesma tendência: um risco 1,6 a 1,7 vez maior de desenvolver diabetes naqueles pacientes com níveis mais elevados de ferritina. Essa última pesquisa, realizada pela Universidade de Cambridge, analisou 12 estudos e um total de 185.462 participantes.
Em pesquisa de 2013, do tipo revisão sistemática e meta-análise (de 12 estudos), com uma população total de 185 462 participantes, concluiu-se que para cada 5 ng/mL de ferritina aumentada, o risco para o desenvolvimento de diabetes aumentou em 1%.  Traduzindo para uma realidade de compreensão mais fácil, alguém com 800 de ferritina tem 80% maior risco de desenvolver diabetes quando comparado a quem tem 400.
 Fora a questão da diabetes, pesquisadores apontam que um nível alto do marcador pode indicar problemas no tratamento de outros doenças. Num estudo publicado nesse ano, pesquisadores sugeriram que a ferritina poderia influenciar inclusive na progressão do câncer de mama, através da sua participação nas vias inflamatórias. Também sobre o câncer de mama, outra pesquisa recente, de 2012, mostrou que aquelas mulheres com níveis de ferritina elevados (>250) antes de receberem quimioterapia tiveram uma taxa de resposta pior e uma sobrevida menor.
Quanto à saúde dos homens, uma pesquisa chinesa agora de outubro de 2013 apontou uma relação inversa entre níveis de ferritina com os de testosterona total e livre, ou seja, quanto maiores os níveis do marcador, menores as taxas hormonais. O interessante é que essa relação, assim como a da resistência insulínica, estimula um ciclo metabólico vicioso, pelo fato do hipogonadismo secundário acentuar os achados da síndrome metabólica e da esteatose hepática, o que aumenta ainda mais os níveis de ferritina, podendo facilitar o aparecimento de sobrecarga de ferro. Essa sobrecarga, por sua vez, prejudica o funcionamento dos testículos, levando a baixos níveis de testosterona. Bom espero não ter dado nenhum nó na cabeça de ninguém. A mensagem é que em breve evidências científicas reforçarão o marcador ferritina elevada como preditor de hipogonadismo masculino (a chamada “andropausa”) – o que não é nada bom, mas nada bom mesmo!
Isso quer dizer, em suma, ferritina alta se trata de um importante sinal de alerta! Significa que algo não vai nada bem!
Ferro, insulina, gordura no fígado e diabetes
Agora, vou me focar um pouco na forma como o excesso de ferro prejudica nossa saúde. Possivelmente, as alterações em seu metabolismo levam ao que chamamos de resistência insulínica –  fenômeno caracterizado não pela falta do hormônio, mas uma dificuldade nos receptores celulares em “aceita-lo”,  o que leva o pâncreas a ter que produzir ainda mais insulina. Trata-se de um estágio inicial no desenvolvimento da diabetes e é uma das características da síndrome metabólica. Em conjunto, as alterações no metabolismo do ferro e a resistência insulínica favorecem o surgimento de uma condição frequente e que nos últimos anos vem ganhando importância clínica: a esteatose hepática – que é o acúmulo de ácidos graxos no fígado. Longe de ser um achado ocasional no exame de ecografia, essa condição representa um problema de saúde e é um marcador para desenvolvimento de problemas como estatohepatite, cirrose, hipertensão arterial, placas nas carótidas e diabetes.
Outras duas vias fisiopatológicas, ou seja, que explicam o surgimento de doenças, também encontram espaço nessa relação ferritina elevada e diabetes, entre elas posso citar o tão falado estresse oxidativo (lembrando que o excesso de ferro facilita o surgimento de espécies reativas de oxigênios, os radicais livres) e a inflamação. Esses dois processos atuam perpetuando o excesso de ferro, elevação de ferritina, esteatose hepática e surgimento de diabetes. Isso tanto é verdade que uma das únicas formas de tratamento da esteatose hepática é a suplementação de altas doses de um poderoso antioxidante, a vitamina E em 800 U ao dia.
Quanto à relação entre excesso de ferro e diabetes, a torno mais evidente com pesquisas comprovando que a retirada do metal está relacionada a uma melhora, sempre importante, em marcadores de inflamação, de resistência insulínica e nos níveis de glicemia e, principalmente, hemoglobina glicada, que é um dos principais alvos terapêuticos nessa doença.
Recentemente (2015), pesquisas mostraram que:
– pacientes com pré-diabetes e com sobrecarga de ferro têm mortalidade aumentada em comparação com aqueles sem o excesso do metal (risco 15% maior);
– o risco para desenvolvimento de diabetes pode ser 400% maior em pacientes com ferritina elevada (trabalho com 6,300 dinamarqueses);
– a ferritina elevada está sendo cogitada como marcador de risco cardiovascular.

Alimentos com Ferro não são os Únicos Vilões!
Sobre os aspectos nutrológicos do excesso de ferro, em muitos casos é  recomendada a restrição da ingestão do mineral, além do cuidado no uso de suplementos alimentares que possam contê-lo, ou então apresentem vitamina C em sua fórmula –  lembrando que essa vitamina facilita e muito a absorção de ferro nos intestinos. Entre outras medidas, volto a falar na “dupla digestiva”: algumas pesquisas apontam que o uso de café e chá verde logo após uma refeição contendo ferro diminua a absorção do mineral. Alimentos ricos em cálcio, como leite, podem também exercer o mesmo efeito.
Pesquisas recentes comprovam, no entanto, que não é somente o consumo de alimentos ricos em ferro que causa elevações na ferritina. Hoje, sabemos que condições metabólicas diversas favorecem o descontrole do fígado em lidar com o metal. Através da produção de um hormônio chamado hepcidina, é o fígado que está entre em responsáveis por esse controle. A hepcidina atua ajudando o organismo a diminuir os níveis de ferro. Um tipo de açúcar, no entanto, chamado frutose, prejudica o funcionamento do órgão e leva tanto ao aumento nos níveis de ferritina, como nos de ácido úrico, de gordura intra-hepática (dentro do órgão) e causa resistência insulínica. Isso explica, por exemplo, o fato de pessoas que não consomem grandes quantidades de carne vermelha apresentarem ferritina alta – basta que consumam refrigerantes, sucos de caixinha, doces, mel e frutas em excesso. Outro grande vilão da alimentação saudável, o xarope de milho utilizado em produtos industrializados, é também rico em frutose.
Outro vilão nessa questão de prejudicar o fígado na forma como ele lida com o ferro, é o consumo em excesso da gordura do tipo saturada (>7% do total de calorias diárias). Ela é encontrada em frituras, alimentos congelados, biscoitos, sorvetes e fast-food em geral.
Retomando à questão de imediatamente se restringir o ferro na dieta, nada a ver, então, sair logo cortando a carne ou o feijão – ele, inclusive, pode ser um importante aliado quando propomos uma reeducação alimentar (é rico em fibra e proteína). Um detalhe é que quando ingerido junto à carne vermelha, a quantidade de ferro proveniente do feijão é ingerida mais facilmente. Logo, recomendo que se coma-a longe da carne. Quando bem feita, uma orientação nutrológica precisa levar em conta diversos aspectos do metabolismo do fígado, composição dos alimentos e análise de exames com muito critério. Preste bem atenção ao próximo parágrafo.
Deixe o medo da ferritina alta de lado e procure seu médico para uma avaliação mais completa. Muitas vezes o exame pode ser repetido e vir normal ou muito mais baixo. Caso fique na dúvida, uma consulta com um hematologista,  pode ser feita – ele é o profissional especialista em distúrbios do sangue e poderá ajudar na definição do diagnóstico de hemocromatose e do tratamento a ser feito. Gastroenterologistas, nutrólogos e alguns clínicos que possuem interesse no assunto também podem te ajudar. Caso tenha dificuldade em entender as recomendações nutrológicas – sei que nem todas são fáceis -, procure um profissional da nutrição.  A meu ver, uma situação como essa, de estar com o exame alterado, é uma excelente oportunidade para aproximação com o médico e  para revisar diversos detalhes que podem estar passando desapercebidos e logo mais causarão sérios problemas. Felizmente, a ciência não para de nos dar valiosos sinais para nos cuidarmos, reconsiderarmos nossa rotina, valorizarmos nossa saúde. Esse é mais um deles: ferritina elevada.
Lista de exames complementares úteis na investigação da hiperferritinemia:
ecografia abdominal total (para detectar esteatose hepática);
hemograma, repetição da ferritina, saturação de transferrina, glicemia, hemoglobina glicada, insulina, tgo, tgp, gama gt, HbSAg, anti-HCV, ácido úrico, perfil lipídico, testosterona total e livre (ou SHBG + albumina), estradiol (em homens), TSH, T4 livre; também podem ter valor, caso sejam necessários: FAN, teste genético para hemocromatose, biópsia hepática, Ressonância Nuclear Magnética para detecção de ferro hepático.
Um grande abraço,
Dr. Leandro Minozzo – Nutrólogo e Clínico Geral

11 tópicos para levar para casa:
1)    Ferritina alta (entre 300 e 1000) na maioria dos casos não indica excesso de ferro;
2)    Existe uma doença chamada Hemocromatose que causa sobrecarga do metal;
3)    Diversas doenças elevam a ferritina: gripes, resfriados, hepatites, tumores e inflamações em geral;
4)    Três condições cada vez mais comuns lideram os motivos de níveis elevados de ferritina: diabetes, pré-diabetes de esteatose hepática (gordura no fígado);
5)    Nem sempre é necessária uma restrição de ferro quando o nível de ferritina vem alterado;
6)    O consumo de gordura saturada e frutose (açúcar das frutas, refrigerantes, xarope de milho, mel e alimentos industrializados) também eleva a ferritina;
7)    Em algumas situações, é indicada a sangria terapêutica (flebotomia) e mesmo a doação de sangue a cada 3 meses;
8 )    Segundo estudo australiano, em 90% dos casos a ferritina alta não está relacionada ao excesso de ferro;
9)   Outro exame muito útil nos casos de excesso de ferro é a saturação de transferrina. Valores acima de 45% indicam a necessidade de repetição do exame em 30 dias; persistindo o valor alto, é indicado o teste genético;
10)    A indicação errada de sangrias pode ocultar o diagnóstico e tratamento de outras doenças.
11) Um exame mostrando ferritina alta é um indicativo muito sério de que algo não vai bem com a sua saúde. Há um risco dobrado para diabetes. Procure seu médico!
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Atenção: Os esclarecimentos contidos nesse texto e no blog não substituem a consulta médica. Peço desculpas aos profissionais que pesquisam profundamente sobre o tema por ter tido que reduzir conceitos complexos para aproximá-los do entendimento dos leitores.
Leia mais:
Artigo sobre inflamação crônica (clique aqui)
Hospital Albert Einstein: http://www.einstein.br/einstein-saude/pagina-einstein/Paginas/hemocromatose-a-doenca-do-excesso-de-ferro.aspx;  Int J Obes (Lond). 2008 Nov;32(11):1665-9.; World J Gastroenterol. 2012 Aug 7;18(29):3782-6.;  Haematologica March 2009 94: 307-309;  Full Text; Clin Nutr. 2012 Dec 28. pii: S0261-5614(12)00281-6, Diabetes Metab Res Rev. 2013 May;29(4):308-18
http://www.bcguidelines.ca/pdf/hemochromatosis.pdf (guideline da Associação Médica de British Columbia – Canadá/2013)

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