sábado, 5 de abril de 2014

1 agrotóxico: 10 mil animais


No dia 23/01/14, São Paulo tornou-se o primeiro estado Brasileiro a proibir o uso de animais para avaliação de segurança de cosmético. Não apenas cosméticos, usam animais para avaliação de segurança humana, mas também medicamentos e agrotóxicos.  Agrotóxicos são considerados extremamente relevante no modelo de desenvolvimento na agricultura no País. Colocando o Brasil o maior consumidor de produtos agrotóxicos no mundo. Em decorrência da significativa importância, tanto em relação ao uso e toxicidade. (Ministério do Meio Ambiente, 2014)

Na avaliação de segurança de um único agrotóxico usa-se em torno de 10 mil animais ao fim de obter informação como: mutagenicidade, carcinogenicidade, efeitos na reprodução, irritação e corrosão dérmica - ocular, DL50 e toxicidade inalatória.
A pergunta que não quer calar: é necessário mesmo o uso de tantos animais para obtenção de informações para a humanidade? A resposta é clara e objetiva. Não! 

No mundo todo, existem agências reguladoras para a substituição de uso de animais na experimentação de produtos. Atualmente, alguns modelos de métodos alternativos ao uso de animais são validados e aprovados por diretrizes como OECD (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico) e centros internacionais que coordenam e avaliam métodos com intuito de substituir testes em animais, ECVAM (Centro Europeu de Validação de Métodos Alternativos). E por que o Brasil não usam então esses testes para esses tipos de avaliação? Essa resposta já é um pouco complicada. A ciência coloca os parâmetros que já foram seguidos  em outros países. O problema é que a regulação dos agrotóxicos está subordinada a um conjunto de interesses políticos e econômicos. 

No dia 2 de Abril de 2014, Brasília-DF, a ANVISA (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) junto ao RENAMA (Rede Nacional de Métodos Alternativos), CONCEA (Conselho Nacional de Controle de Experimentação Animal), BraCVAM (Centro Brasileiro de Validação de Métodos Alternativos) e SBMALT (Sociedade Brasileira de Métodos Alternativos á Experimentação Animal) realizaram um Workshop Internacional com o objetivos de discutir maneiras de implementar esses métodos as grandes empresas produtoras de agrotóxicos, e também, solicitar um posicionamento da ANVISA frente ao grande e desnecessário uso de animais em testes.
(ANVISA, 2014): A falta de conhecimento e medo pela mudança faz com que nós tenhamos um pé atrás frente aos métodos alternativos.

É mais fácil usar um animal e observar o que acontece com ele, do que padronizar, implementar e aplicar um método in vitro. A sociedade brasileira precisa ter conhecimento sobre tais interesses políticos e econômicos ao uso indevido de tantos animais para pesquisa. Solução a academia científica tem. Interesses governamentais não.

“a questão não é se os animais raciocinam ou se eles podem falar, mas se eles sofrem“. Marchall Hall

Autor: Rafael Ducas ( @rafaducas ) - Farmacêutico e bioquímico. Mestrando em Toxicologia Universidade Federal de Goiás. Ênfase em pesquisa de métodos alternativos a uso de animais a experimentação

quarta-feira, 2 de abril de 2014

Ovo


Um estudo publicado em 2011 no European Journal of Clinical Nutrition, seguiu 14185 indivíduos ao longo de 6 anos e constatou que não havia diferenças entre os grupos estudados no que toca a doença cardiovascular (infarto agudo do miocárdio, AVC ou cirurgia cardíaca e revascularização).Os grupos foram divididos conforme o consumo de ovo: 1) nenhum ovo por semana, 2) 2 a 4 ovos por semana e 3) 4 por semana. Foram avaliados 2 vezes ao ano durante 6 anos. Após ajuste para confundidores como sexo, idade, calorias ingeridas, adesão à dieta mediterrânica e outros fatores de risco cardiovascular, não foi encontrada qualquer associação entre o consumo de ovo (muito ou pouco) e as doenças cardiovasculares

Outro estudo, publicado em 2010 no Nutrition Journal buscou verificar o efeito do uso moderado (2 a 3 ovos por dia) na função endotelial e nos níveis de coltesterol e triglicérides em pacientes já portadores de dislipidemia. O estudo conclui que uso moderado de ovos (2 a 3/dia) não alterou função endotelial e dislipidemia de adultos dislipidêmicos.

O link pros 2 estudos está aqui nesse texto do meu blog: http://www.ecologiamedica.net/2011/05/ovos-colesterol-e-risco-cardiovascular.html

Infrações éticas

Para os colegas médicos: RESOLUÇÃO CFM Nº 1.974/2011 (Publicada no D.O.U. de 19 de agosto de 2011, Seção I, p.241-244) ➡ É VEDADO AO MÉDICO : " g)  Expor a figura de seu paciente como forma de divulgar técnica, método ou resultado de tratamento, ainda que com autorização expressa do mesmo, ressalvado o disposto no art. 10 desta resolução; "

Para os colegas nutricionistas:

Sejamos éticos ! Tenhamos compaixão pelo próximo.

Da série: Charlatanices. Exame Biorressonância (VegaTest)

No último final de semana na pós de nutrologia conversando com alguns colegas e professores discutíamos o tanto de picaretagem que tem rodeado a medicina. Charlatanices dos mais diversos tipos.

Então resolvi criar uma série sobre charlatanices. Abrirei a série com o método mais esdrúxulo de todos os tempos: Bioressonância (ou VegaTest). Imagine que vegetais, minerais, animais emitam uma onda eletromagnética. Segundo o teste, todas as ondas eletromagnéticas emitidas pelos seres vivos ou por materiais da natureza vivos, ou também mortos, podem ser mensuradas e é isso que o aparelho busca fazer. É na realidade um TESTE DE RESSONÂNCIA entre o paciente e a substância ou informação a ser obtida pelo Reflexo autonômico VEJA.

No exame o examinador liga o aparelho a um eletrodo e posiciona o eletrodo em alguns pontos das mãos do paciente (início do meridiano segundo a Medicina chinesa). No aparelho há uma colméia (um recipiente que contem fragmentos de centenas de substâncias, desde metais tóxicos a lisado de órgãos.

Começa o teste e busca-se a ressonância entre o paciente e a substância testada. Para vocês entenderem: vamos testar se a pessoa tem deficiência de zinco. Se tiver ressonância a deficiência se comprova (Sem dosar no sangue, urina, cabelo). Testa-se todos os minerais, vitaminas, algumas verminoses (sim, descobre até se vc tem Giárdia via esse exame rs). O examinador também consegue descobrir qual o melhor tipo de tratamento pra vc. Acupuntura? Fitoterapia ? Também consegue falar se algum órgão seu está com deficiência. E a melhor parte é a estimativa do nível de cortisol.

Preço: 200 a 300 reais.

Tem validação científica? NÃO. O médico ou nutricionista pode realizar ? Pode, assim como qualquer profissional que saiba manejar o aparelho e queira ganhar grana. O médico pode cobrar ? NÃO. Segundo o CFM o médico só pode cobrar por exames com validação científica.

Quando o paciente chega ao meu consultório com resultado desse exame, alegando que tirou ovo, glúten, leite, determinadas frutas pq o exame acusou, a vontade que tenho é de rasgar o exame e jogar no lixo. Só não faço por educação.

#Bioressonância #VegaTest #Ortomolecular #NutriçãoFuncional #Picaretagens #Charlatanices #Ética

Glúten, mito ou realidade?

Dentro do exercício da Medicina Baseada em Evidências não há evidências científicas que a retirada do glúten da alimentação promova perda de peso. Emagrecer é uma equação entre o que ingerimos e o que gastamos, resumindo de forma simplista (claro que há inúmeras variáveis envolvidas).

Precisamos reduzir a ingestão calórica dos alimentos e/ ou aumentar exercício físico (Gasto energético), promovendo balanço energético negativo.

A questão é: NÃO existe NENHUM estudo científico confiável em humanos mostrando que o grupo que cortou glúten emagreceu mais. Apenas poucos estudos com ratos. A maioria esmagadora de artigos na área são apenas ligados a exclusão de glúten em celíacos.

Talvez esteja na hora de realizarem pesquisas em humanos. Por que digo isso? Porque a ciência fala uma coisa, mas prática clínica  muitas vezes fala o oposto. Inúmeras vezes vi pacientes perdendo peso após a retirada do glúten, mesmo em dietas com a mesma quantidade de calorias. E aí ? Tem gente que se beneficia, tem gente que não. Sem contar que muitas vezes a tal "dieta sem glúten e sem lactose" pode até gerar estresse pela restrição dietética (sim, vários pacientes relatam que ficaram estressados pois acham difícil ficar controlando a seleção dos alimentos isentos de glúten e lactose).

Cortisol e contraceptivos: O mito do falso cortisol elevado por Dr. Flávio Cadegiani

Chega muito ao meu consultório a queixa de “cortisol elevado”. Normalmente são mulheres que usam anticoncepcional e que passaram por médicos ou nutricionistas que atribuíram a elevação do cortisol ao “perfil estressado” ou com “problemas pessoais” dessas mulheres.

Contudo, existe um detalhe nestas histórias que mudam completamente o cenário. O uso do anticoncepcional. Mas como assim?

O anticoncepcional, por exemplo, diminui a libido de muitas mulheres. E pelo mesmo motivo.
Estes hormônios, principalmente via oral, aumentam as proteínas e globulinas carreadoras de hormônios. Então uma parte maior dos hormônios circulantes estarão ligadas a estas partículas. E com isso, uma pequena parte somente estará livre para agir. Somente a fração livre dos hormônios tem ação biológica.

Com isso, existe o aumento da CBG (cortisol binding globulin, ou globulina carreadora do cortisol), diminuindo a fração livre do cortisol. Assim, o corpo nota essa “baixa” do total de cortisol “ativo” e por homestase manda produzir mais. Com isso, a concentração de cortisol total no sangue aumenta, porém sem ter aumento da fração livre. Por isso o cortisol na sangue (que mede somente o total) dá alto. Nestes casos, eu sempre sugiro confirmar a falsa elevação pelo cortisol salivar, que mede praticamente só a fração livre, e é feito por todos os laboratório e coberto pelo convênio.

Do mesmo modo, ocorre aumento do SHBG (sex hormones binding globulin ou globulina carreadora de hormônios sexuais) que se ligam à androgênios e diminuem a quantidade de testosterona livre, causando queda da libido de muitas mulheres.

Abraço,

Dr. Flávio Cadegiani CRM-DF 16.219
Endocrinologista com residência médica e título de especialista pela SBEM
Fellow em Adrenal pela Unifesp

Whey virou farinha ?

Páscoa só tem uma vez ao ano e o ser inventa de comer ovo com whey. Acho sem noção essa onda de receitas com whey. Salgado com whey... o problema é proteína?

Comida de verdade tem aos montes, a tabela abaixo (baseada na TACO 2011) mostra a quantidade de proteína existente em 100g dos respectivos tipos de carne. Além de ganhar proteína ingere fibras, minerais (Zinco, Magnésio, Manganês, Molibdênio), Vitaminas (Vitamina K2, Vitaminas do complexo B em especial B12), acidos graxos (ômega 3, 6).

Daqui uns tempos existirá até pasta de dente de whey.

#ComaComida #ComidaDeVerdade

Modulação hormonal - os riscos que os praticantes não contam


Muitos pacientes, amigos, familiares  perguntam minha visão sobre o tema. Sempre deixo claro: Discordo e condeno veemente. Por que? Discordo até mesmo dos endocrinologistas que prescrevem hormônio sem antes investigar a causa base. Na minha formação acadêmica aprendi que para qualquer alteração, existe uma explicação. Nenhum hormônio sobe ou desce de forma inexplicável. Exceto pela idade, na qual fisiologicamente há um declínio NORMAL.

Por exemplo, se a pessoa apresentam alteração laboratorial num hormônio (ex. TSH que é o que estimula a Tireóide a produzir os hormônios T3 e T4), antes devo REPETIR essa dosagem pra confirmar (já que dosagem hormonal é algo difícil de se confiar, mesmo em laboratórios excelentes). POSTERIORMENTE se confirmada a alteração, tentar dentro do quadro clínico descobrir o que pode estar INTERFERINDO na cinética adequada daquele eixo hormonal. Aí entra uma anamnese minuciosa, verificando principalmente os hábitos de vida e alimentares do paciente.

Exemplo comum: homens com sobrepeso ou obeso com baixa de testosterona. Confirmada duas vezes essa baixa de testosterona, qual a conduta adequada? Repor testosterona? NÃO !

Quando há um aumento da insulina associado a obesidade, os níveis de testosterona caem, isso é fisiologia endócrina. Se o paciente obeso receber testosterona, a chance dessa testosterona ser convertida em estrogênio (hormônio feminino) no tecido adiposo (aromatizar) é alta.

Um outro exemplo clássico, que há 4 anos presencio no consultório. Pacientes com TSH acima de 5 ou 6. Muitos endocrinologistas e os chamados moduladores hormonais (geralmente tratam quando acima de 2,5), preferem iniciar com doses baixas de T4 (um dos hormônios tireoideano) associadas ao hormônio T3 (sendo que não existe NENHUMA recomendação nos guidelines de tireóide, para uso de T3. Pelo contrário, contraindicam devido o efeito arritmogênico e aumento do risco cardiovascular).

Eu particularmente não faço isso. Primeiro tento descobrir o porquê desse TSH estar elevado, já que INÚMERAS condições podem elevá-lo:
  • Privação de sono, se o paciente foi dormir tarde, se o paciente é obeso, se faz uso de medicações que alteram o TSH como por exemplo um anti-hipertensivo da classe dos betabloqueadores (Propranolol), contraceptivos orais, drogas anti-arrítmicas como a Amiodarona. Outras fazem o TSH cair e uma elevação dos níveis de T4, como por exemplo a Metformina, um hipoglicemiante.
  • Deficiências nutricionais de nutrientes essenciais pra cinética correta dos hormônios tireoideanos. Por exemplo, sem Selênio não ocorre a conversão do hormônio T4 em T3 (que é a forma ativa), assim como a falta de Zinco e Vitamina D. E essas deficiências nutricionais são MUITO COMUNS na maioria da população. Ano passado dosei o Selênio sérico em 246 pacientes e somente 3 apresentavam níveis adequados de Selênio. Vitamina D, dosei em mais de 300 pacientes e somente 2 apresentavam níveis adequados. 
Quantas vezes fiz suplementações básicas de Selênio, Vitamina D e Zinco eum TSH limítrofe ou um pouco acima do normal, normalizou? Mais de 500. Diariamente faço isso e com bons resultados. SE o TSH não caiu, aí sim entro com levotiroxina (T4), mas apenas ela e não com T3 associado. No mundo todo esse tipo de associação é condenada.

Ou seja, primeiramente é DEVER do médico investigar a causa da alteração, tentar mudar o estilo de vida, adequar a alimentação (o que ja dá resultados excelentes, pois os alimentos conseguem modular os hormônios), suplementar substâncias naturais (vitaminas, minerais, aminoácidos) e verificar se há uma resolução do quadro. SE não resolver, aí sim, postular a reposição hormonal.

Pelo que vejo, a reposição hormonal foi banalizada e diariamente pego pacientes vítimas de iatrogenia médica. Final de 2012 ocorreu uma Jornada de Anti-envelhecimento no CRM de Goiás e lá os conselheiros e especialistas deixaram claro, que a maioria das condutas dos chamados "Moduladores hormonais" não possuem embasamento científico AINDA. E o profissional que for pego prescrevendo hormônio sem a devida comprovação laboratorial da deficiência do mesmo, será punido pelo CRM, com até cassação do registro. Estimulou os médicos a incitarem os pacientes vítimas de tais iatrogenias a levarem suas receitas no CRM. O médico endocrinologistas ou outros especialistas não podem fazer praticamente nada diante da situação, apenas orientar o paciente. Na mesma época o Conselho Federal de Medicina publicou uma resolução sobre o tema. Veja abaixo:

Outubro de 2012 o Conselho Federal de Medicina, lançou a Resolução Nº 1999 DE 27/09/2012 (Federal) na qual resolve:

Art. 1º. A reposição de deficiências de hormônios e de outros elementos essenciais se fará somente em caso de deficiência específica comprovada, de acordo com a existência de nexo causal entre a deficiência e o quadro clínico, ou de deficiências diagnosticadas cuja reposição mostra evidências de benefícios cientificamente comprovados.

 Art. 2º. São vedados no exercício da Medicina, por serem destituídos de comprovação científica suficiente quanto ao benefício para o ser humano sadio ou doente, o uso e divulgação dos seguintes procedimentos e respectivas indicações da chamada medicina antienvelhecimento:

I - Utilização do ácido etilenodiaminatetraacetico (EDTA), procaína, vitaminas e antioxidantes referidos como terapia antienvelhecimento, anticâncer, antiarteriosclerose ou voltadas para o tratamento de doenças crônico- degenerativas;
II - Quaisquer terapias antienvelhecimento, anticâncer, antiarteriosclerose ou voltadas para doenças crônico-degenerativas, exceto nas situações de deficiências diagnosticadas cuja reposição mostra evidências de benefícios cientificamente comprovados;
III - Utilização de hormônios, em qualquer formulação, inclusive o hormônio de crescimento, exceto nas situações de deficiências diagnosticadas cuja reposição mostra evidências de benefícios cientificamente comprovados;
IV - Tratamentos baseados na reposição, suplementação ou modulação hormonal com os objetivos de prevenir, retardar, modular e/ou reverter o processo de envelhecimento, prevenir a perda funcional da velhice, prevenir doenças crônicas e promover o envelhecimento saudável;
V - A prescrição de hormônios conhecidos como "bioidênticos" para o tratamento antienvelhecimento, com vistas a prevenir, retardar e/ou modular processo de envelhecimento, prevenir a perda funcional da velhice, prevenir doenças crônicas e promover o envelhecimento saudável;
VI - Os testes de saliva para dehidroepiandrosterona (DHEA), estrogênio, melatonina, progesterona, testosterona ou cortisol utilizados com a finalidade de triagem, diagnóstico ou acompanhamento da menopausa ou a doenças relacionadas ao envelhecimento, por não apresentar evidências científicas para a utilização na prática clínica diária.

 Art. 3º. Esta resolução entra em vigor na data de sua publicação.

 ROBERTO LUIZ DAVILA
Presidente do Conselho


Outras práticas comuns pelos ditos moduladores são:
  • Cortisol matinal abaixo de 10, consideram que a glândula adrenal está fadiga e prescrevem um corticóide, chamado Hidrocortisona. Esta quando prescrita desnecessariamente pode ocasionar elevação da pressão arterial, acne, estrias, aumento do risco  cardiovascular, risco de depressão, fragilidade capilar, elevação da glicemia, osteoporose.
  • GH: quando o IGF1 e IGFBP3 estão 25% a 50% acima do limite inferior, já indicam utilização de GH. 25 a 50% acima do limite inferior não é deficiência, está dentro do valor de referência.
O texto abaixo mostra alguns dos riscos da prática de modulação hormonal feita por não-endocrinologistas

Os riscos das terapias antienvelhecimento

Para as manchas na pele existe maquiagem. Para os cabelos brancos, tintura. Para as rugas, cremes. Mas mesmo todo esse avanço da indústria cosmética é incapaz de reverter ou impedir o envelhecimento. "Envelhecer é um processo natural do corpo e até hoje não existe nenhum tratamento ou substância capaz de mudar esse fato", afirma o geriatra Salo Buksman, da Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia (SBGG).

Mas a obsessão pela juventude começou a popularizar as chamadas terapias hormonais antienvelhecimento, condenadas pelo Conselho Federal de Medicina (CFM). "Elas pregam que a diminuição dos níveis hormonais no corpo, que começa por volta dos 30 anos, seja a responsável pelo envelhecimento, enquanto que na literatura médica temos que o envelhecimento é o responsável pela diminuição dos hormônios", afirma o especialista.

Assim, sem qualquer embasamento, são receitados hormônios que vão desde a testosterona até a gonadotrofina coriônica humana, produzida durante a gestação. Conheça os perigos a que os adeptos desse tratamento estão expostos:

Câncer: Alguns cânceres, como o de próstata e o de mama, são considerados hormônio-sensíveis, ou seja, podem ter seu desenvolvimento estimulado pelos níveis hormonais no organismo. Neste caso, pela testosterona e pelo estrógeno, respectivamente. "Ainda não se sabe se eles são capazes de gerar um tumor, mas, certamente, contribuem para que lesões pré-existentes se desenvolvam", afirma o endocrinologista Amélio Godói Matos, da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM). Sabe-se ainda que pessoas com níveis de elevados do hormônio do crescimento (GH) também apresentam um risco maior de ter câncer de intestino.

Problemas cardiovasculares:  Alguns hormônios, como a testosterona e o hormônio do crescimento (GH), são bastante populares em academias por levarem ao ganho de massa muscular. O problema é que eles também aumentam o risco de problemas cardiovasculares. "Tanto a testosterona quanto o GH em excesso levam ao aumento de todo o tecido muscular do organismo, inclusive do coração, causando hipertrofia cardíaca", afirma a endocrinologista Claudia Chang, doutoranda em Endocrinologia e Metabologia pela USP. Há ainda a procaína, anestésico que promete emagrecer, mas, na verdade, leva ao aumento da pressão arterial e dos batimentos cardíacos.

AVC: O uso de testosterona a longo prazo também está associado a um risco cinco vezes maior de AVC. "Ela aumenta o número de células vermelhas no sangue, que são responsáveis pela coagulação, o que torna o plasma mais viscoso", diz o endocrinologista Amélio. O problema é que a alta dosagem pode resultar na hipercoagulação sanguínea, podendo entupir um vaso e levar a um derrame. O caso é ainda mais grave quando o paciente sofre de apneia do sono. Isso porque a má oxigenação sanguínea, decorrente dos períodos em que a respiração é interrompida, provoca uma produção maior de células vermelhas que fazem o transporte do oxigênio para os diversos tecidos do corpo.

Atrofia dos testículos: Há muito tempo, especialistas tentam desenvolver uma pílula masculina capaz de inibir a produção de espermatozoides pelos testículos. "Um hormônio que tem esse efeito é a testosterona, mas ela também leva à atrofia dos testículos", afirma o especialista Amélio. Por isso, o projeto nunca foi para frente. Assim, receitar altas dosagens de testosterona apresenta mais esse efeito colateral. "Ela cumpre o papel de inibir as células germinativas, que compõem 80% dos testículos, mas faz com que seu volume diminua".

Ganho de peso: As terapias hormonais também costumam receitar a cortisona, medicamento à base do hormônio cortisol altamente perigoso quando usado fora de suas indicações. "Um dos efeitos colaterais da cortisona é o aumento da proliferação de células adiposas, especialmente na região central do corpo", afirma o endocrinologista Amélio. O uso prolongado pode resultar ainda na síndrome de Cushing, em que o depósito de gordura se dá no tronco, no pescoço e no rosto, enquanto que braços e pernas perdem a musculatura e ficam mais finos. A consequência disso é a fraqueza do paciente, principalmente ao caminhar ou subir escadas.

Problemas hepáticos: Como o fígado é responsável pela metabolização de todos os medicamentos, ele pode ser sobrecarregado com a ingestão de altas doses de hormônios ou remédios. "A aplicação injetável tem ação direta, então, o perigo maior é em relação àqueles com indicação de consumo via oral, como um tipo de testosterona usada no passado", afirma a endocrinologista Claudia. Isso acontece porque as enzimas do órgão nem sempre dão conta de todos os hormônios consumidos, gerando nódulos que podem evoluir para um câncer.

Apnéia do sono: De acordo com a endocrinologista Claudia, o uso do hormônio do crescimento (GH) em excesso pode levar ao inchaço dos órgãos. Entre eles, a língua, problema conhecido como macroglossia. "Isso pode não só originar um quadro de apneia do sono, já que a passagem do ar fica bloqueada, como ainda pode piorar um caso pré-existente da doença". Esse agravamento também pode acontecer com altas dosagens de testosterona. E, como vários estudos já mostraram, a apneia do sono é fator de risco para diversas doenças do coração, uma vez que interrompe, ainda que por alguns segundos, a oxigenação do sangue.

Virilização: Crescimento de pelos no rosto, queda de cabelos, acne e retenção de líquidos são apenas alguns dos efeitos colaterais do uso de testosterona sem indicação adequada para mulheres. "O hormônio causa ainda alterações comportamentais, deixando a paciente mais agressiva", afirma o endocrinologista Amélio. O uso também pode levar ao engrossamento da voz e ao crescimento do pomo de adão.

Diabetes: "Como alguns hormônios levam ao ganho de peso, principalmente na região abdominal, há um risco maior do desenvolvimento do diabetes", afirma a endocrinologista Claudia. Embora a gordura seja fundamental para o bom funcionamento do organismo, ela deve ocupar uma porcentagem pequena do peso corporal e deve estar distribuída de forma homogênea pelo corpo. A gordura acumulada na circunferência abdominal aumenta a produção de substâncias que favorecem o aumento da taxa de glicose, diferente do que ocorre com a gordura acumulada embaixo da pele ou espalhada pelo corpo  esta ajuda a controlar as taxas de açúcar no sangue.

Fonte: http://www.minhavida.com.br/saude/galerias/15468-conheca-os-riscos-das-terapias-hormonais-antienvelhecimento/7


Hormônios Bioidênticos (parecer da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia - SBEM)

Com o aumento da expectativa de vida do brasileiro e o crescimento do número de idosos no país, cada vez mais médicos e especialistas se deparam com questões relacionadas às terapias contra o envelhecimento. Dessa forma, Uma delas é a reposição hormonal.

Muito se fala, hoje, dos chamados Hormônios Bioidênticos, substâncias hormonais que possuem exatamente a mesma estrutura química e molecular encontrada nos hormônios produzidos no corpo humano. A nomenclatura, no entanto, está sendo utilizada, indevidamente, apenas para os hormônios manipulados, como se fossem novas opções de tratamento quando, na verdade, há muito tempo hormônios bioidênticos são produzidos em indústrias farmacêuticas e estão disponíveis nas farmácias.

Para o Dr. Ricardo Meirelles, o uso do termo vem sendo feito com objetivos evidentemente comerciais, como uma forma de marketing. "Na realidade, quando um endocrinologista prescreve tiroxina (hormônio tiroidiano), estradiol e progesterona natural (hormônios ovarianos), testosterona (hormônio masculino), hormônio do crescimento e outros, está receitando hormônios bioidênticos, no sentido de que são hormônios cuja fórmula molecular é igual à dos produzidos pelo corpo humano", afirma.

De acordo com a Dra. Ruth Clapauch*, o uso dos bioidênticos pode ser apropriado, porém devem ser utilizados com cautela. "Eles são importantes para controlar os níveis hormonais no organismo, repondo o que falta no nosso corpo, mas somente um endocrinologista estará apto para receitá-los de maneira correta, na dose ideal, evitando complicações futuras", afirma. Para ela, médicos devem estar atentos e dar preferência na prescrição médica a produtos produzidos com tecnologia de ponta e não artesanalmente, onde possa estar garantido o grau de pureza, dosagem, estabilidade, absorção, eficácia e segurança. "Fórmulas manipuladas podem apresentar diferenças em relação a substâncias testadas pela indústria farmacêutica, que passaram por estudos em laboratório, em animais e em pessoas antes que fossem aprovadas  para comercialização", afirma.

A doutora relembra o posicionamento Sociedade de Endocrinologia dos Estados Unidos. Ele adverte que a fabricação individualizada de um hormônio, a tal "customização", é praticamente impossível de ser alcançada "porque os níveis de hormônio no sangue são difíceis de medir e regular devido às variações fisiológicas". Além disso, segundo o posicionamento, não há estudos que atestem os benefícios e riscos dos bioidênticos manipulados.

A especialista concorda com o texto. "Muitos dos manipulados não são controlados pelos órgãos de vigilância sanitária, ao contrário daqueles fabricados pelos grandes laboratórios, que foram testados e estudados", afirma. "Com hormônios industrializados, fica mais fácil para que o endocrinologista individualize a reposição hormonal, já que não existem oscilações nem inconsistência na quantidade das substâncias", completa.

Embora muitos médicos defendam que os bioidênticos sejam a chave para reduzir o processo de envelhecimento do corpo de maneira natural, nada está comprovado cientificamente e a população deve tomar cuidado com tais promessas. "Alguns especialistas defendem o fato de que os bioidênticos manipulados são naturais e, por causa disso, o organismo seria capaz de metabolizá-lo da mesma forma que faria com um hormônio do próprio corpo. No entanto, eles são produzidos de maneira artificial, e sofrem alterações em sua estrutura química", alerta a Dra. Ruth.

(*)Dra. Ruth Clapauch
Formação
Residência médica + curso de especialização em Endocrinologia (IEDE)
Título de especialista em Endocrinologia
Mestrado (UFRJ) e Doutorado (UERJ)
Professora de pós graduação em Endocrinologia
 Atualmente é vice-presidente do Departamento de Endocrinologia Feminina e Andrologia, já tendo sido presidente deste Departamento em 2 gestões
Membro da Comissão de Educação Médica Continuada da SBEM
Autora de diversos artigos em revistas científicas nacionais e internacionais sobre reposição hormonal

Fonte: http://www.endocrino.org.br/hormonios-bioidenticos/

Dieta HCG a moda da vez



Muitos ortomoleculares e nutrólogos estão utilizando no seu arsenal terapêutico a modulação hormonal e administração de Gonadotrofina coriônica humana (HCG) para fins de emagrecimento. Saliento que dieta HCG não faz parte do arsenal terapêutico de ortomoleculares e muito menos de nutrólogos ou endocrinologistas. Semanalmente recebo do consultório pacientes que fizeram a tal Dieta HCG, tão na moda e tão sem evidências científicas.

Afinal, o que é o HCG? 
HCG (gonadotrofina coriônica humana = human chorionic gonadotropin) é um hormônio (glicoproteína)  produzida pelas células trofoblásticas sinciciais (placenta).  É o único hormônio exclusivo da gravidez, fazendo com que o teste de gravidez pela análise de HCG tenha acerto de quase 100%. É o único exame que comprova exatamente a gravidez.

O que ele faz no corpo da mulher?
A função da HCG é manter o corpo lúteo no ovário durante o primeiro trimestre da gestação. Garante a manutenção da gestação, inibindo a menstruação, e a ausência de uma nova ovulação. Alguns tipos de câncer, como coriocarcinoma, produzem HCG. No homem, altos níveis de HCG podem indicar câncer de testículo. Já no cérebro, o HCG sinaliza ao hipotálamo para mobilizar reservas de gordura, alterando a homeostase energética (portanto altera o metabolismo)

No que consiste a dieta?
A dieta do HCG combina injeções diárias do hormônio com uma dieta de 500Kcal. Os defensores alegam que a perda de "gordura" é de 450gramas a 1,3kg  por dia. Normalmente, a dieta de HCG dura 3 semanas. Nos 2 primeiros dias da injeção você pode comer excessivamente. Após a 3ª injeção, você deve aderir à dieta de 600Kcal por até 72 h após a última injeção. Açúcares, frutas com alto índice glicêmico, alimentos processados e amidos não são permitidos.

Frequentemente recebo pacientes querendo que eu prescreva a tal dieta do HCG, porque a amiga perdeu tantos kilos... Felizmente nego e explico: a pessoa pode até perder X kilos, mas qual a repercussão no futuro do uso desse hormônio? Isso no caso de mulheres. E em homens, qual a repercussão futura ao se dar um hormônio que somente em situações patológicas se eleva? Sim, porque nós homens possuímos HCG em níveis fisiológicos.
Alguns pacientes apresentam emagrecimento mas é puramente devido a dieta de 600Kcal. Além disso a terapia não é inócua, além do risco nutricional pela dieta hipocalórica, há o risco de trombose em pacientes que fazem uso do HCG.  Emagrecimento é um processo complexo e que envolve muita vezes 2 ou mais profissionais da saúde. Obesidade é uma doença multifatorial e portanto o tratamento muitas vezes não se resume apenas em "fechar a boca" como alguns dizem. Consulte um nutrólogo.

Histórico e evidências científicas

A tal dieta do HCG surgiu por volta da década de 50 quando um endocrinologista britânico, Dr. Simeon percebeu que ao injetar o hormônio em pacientes que seguiam uma dieta hipocalórica, a perda de peso era acelerada. Mas, com a falta de estudos científicos que comprovassem a relação do HCG com a perda de peso, o método caiu em desuso.  Nesse meio tempo (5 décadas) a maioria dos estudos feitos para provar sua eficácia falharam. Acredita-se que a perda de peso seja principalmente à dieta altamente restritiva.

Em 1983, Birmingham & Smith publicaram uma revisão entitulada "HCG não tem nenhum valor no controle da obesidade", cujo último parágrafo diz: "Como a 'terapia' com HCG para tratamento da obesidade tem sido extensivamente desacreditada e consequentemente rejeitada pela vasta maioria da comunidade médica, qualquer profissional cujos pacientes experimentem efeitos colaterais indesejados como consequência dessa terapia deve ser responsabilizado civil e até mesmo criminalmente".

Já na década de 90 um grupo de cientistas holandeses fizeram uma metanálise (uma metanálise é o método estatístico aplicado à revisão sistemática que integra os resultados de dois ou mais estudos primários)  que concluíram que o uso do HCG é uma "terapia inapropriada para perda de peso"

Em 2007, com o lançamento do livro HCG weight loss cure guide — a supplemental guide to Dr. Simeon’s HCG protocol, o assunto voltou à tona. E nos últimos 3 anos viu-se o método virar mania no consultório dos denominados "moduladores hormonais".

Ano passado (2013) Goodbar et al. fizeram um relato de caso sobre uma paciente que iniciou a dieta HCG e duas semanas após apresentou um quadro de trombose venosa profunda com posterior tromboembolismo pulmonar. No artigo alertam que "como a popularidade da dieta HCG continua a aumentar, também aumentam os eventos adversos potenciais associados com a indução da perda de peso por meio de uma estratégia sem comprovações"
Resumindo, com base em evidências científicas nos últimos 50 anos a Dieta HCG é considerada fraudulenta e ilegal em diversos países. No Brasil existe até resolução do Conselho Federal de Medicina vetando o uso de HCG com finalidade de emagrecimento.

Dr. Frederico Lobo
CRM-GO 13192

Abaixo, algumas palavras de um tio e amigo sobre o tratamento com gonadotrofina coriônica (HCG) para emagrecimento. O mesmo chama-se Flávio Moutinho, é médico, endocrinologista, endocrinopediatra, professor de endocrinologia, endocrinopediatria e fisiologia endócrina na UERJ. A visão dele é semelhante a minha.

"Quanto mais picareta, mais se ganha dinheiro. E isso não é exclusividade do Brasil, até porque essas picaretagens não nascem aqui.

HCG (gonadotrofina coriônica humana) oral + dieta de 600kcal/dia

1) Se vc faz uma dieta de 600kcal e usa HCG, vc perde peso; se vc faz uma dieta de 600kcal e toma uma pílula de homeopatia, vc perde peso; se vc faz uma dieta de 600kcal e toma uma colher de aguarraz por dia, vc perde peso.

2) O HCG é um hormônio polipeptídeo. Se usado por via oral, assim que chegar ao estômago, vai acontecer com ele a mesma coisa que acontece com qualquer proteína: pelo pH ácido e as enzimas gástricas, vai ser quebrado em aminoácidos, e cada um deles vai ser absorvido independentemente, e vão ser matéria prima para qualquer proteína que o organismo precise fazer.

3) Existem algumas doenças para as quais se usa HCG como tratamento, sobretudo o hipogonadismo hipogonadotrófico. Esse "palavrão" quer dizer que o organismo não produz o hormônio que estimula a função das gônadas - testículos ou ovários - em produzir os hormônios sexuais. Mas a gente prescreve por via intramuscular, e não é por maldade de fazer o paciente usar uma injeção em vez de um comprimido. É "só" pelo que foi dito em (2).

4) Esse (3) também se vê no "hormônio de crescimento oral". É, tratamos de crianças e adolescentes por anos e anos a fio com uma aplicação subcutânea por dia porque somos maus mesmo. Porque apesar de existir uma opção oral, queremos mesmo que ele use injeção. Blaaaa!

5) A parte mais "engraçada" do site é quando ele diz que os laboratórios não se interessam pelo HCG porque não podem patentear. Curioso que os medicamentos biológicos, obtidos por engenharia genética, dentre os quais os hormônios peptídeos, estão entre os mais caros que existem."

Abaixo, uma reportagem no jornal O Globo falando sobre o tema:

"A busca por fórmulas ditas milagrosas para emagrecer está levando mulheres e alguns homens a se injetarem hormônio de gravidez diante da promessa de perder pelo menos meio quilo por dia. Conhecida como dieta hCG, ela associa a aplicação diária de injeções de beta-hCG (sigla de gonadotrofina coriônica humana) - liberado naturalmente na gravidez e receitado como fármaco em tratamento de infertilidade feminina - à alimentação altamente restritiva: em média, 500 kcal/dia (quilocalorias). Esse programa de emagrecimento ganha cada vez mais adeptos nos Estados Unidos e até no Brasil, onde clientes o compram pela internet; mas pode causar sérios danos à saúde, como embolia.

Em forma de fármaco, o beta-hCG é receitado para estimular a ovulação em tratamento de pacientes com dificuldade de engravidar, e a ideia de usá-lo para perder quilos é antiga. O tratamento foi proposto pela primeira vez em 1954 pelo médico britânico W. Simeons, mas pesquisadores nunca encontraram evidências de que a substância atue no emagrecimento. Aqueles que defendem a dieta hCG afirmam que o hormônio ajuda a suportar os efeitos de uma alimentação quase anoréxica, que traz transtornos como dor de cabeça, problemas intestinais, fraqueza e irritabilidade.

Scott Blyer, um médico americano que oferece a dieta hCG, explica que a substância "engana o corpo, como se a pessoa estivesse grávida". Então o organismo "passa a queimar gordura para que o feto receba calorias suficientes, mas protege o músculo". Na tentativa de atrair mais clientes incautos, as clínicas que vendem o programa da dieta hCG dizem que esse tratamento queima a gordura nas áreas mais difíceis, como braços, barriga e coxas. A terapia dura de 25 a 40 dias, com a "garantia" de o paciente perder em torno de 20 quilos, ao custo de US$ 500 a US$ 1 mil por mês, incluindo consulta, suprimento de hormônio e as seringas.

Em cada etapa do programa (geralmente três) são 21 injeções. Há relatos de mulheres que perderam 11 quilos, ou mais, em 30 dias. E ainda existe a opção de aplicar o hCG em gotas, usada embaixo da língua, mas esta é uma forma menos divulgada. O americano Lionel Bissoon, com clínica em Nova York, cobra US$ 1.150 pelo tratamento da dieta hCG com injeções e afirma que "médicos de todo o país estão vendo pessoas perderem grande quantidade de peso com o programa, e não se pode ignorar isso".

Perigo de problemas cardiovasculares

A dieta começa com aplicações diárias de injeções hCG e no quarto dia o paciente começa a dieta restritiva. Uma brasileira que experimentou o tratamento contou num blog que, depois das injeções, saía para caminhar sob o sol, porque em contato com a radiação ultravioleta "o hCG prometia melhorar a pele, a libido e a fertilidade". Isto é, além de suportar a dieta de fome, ela acreditava que poderia ficar ativa sexualmente e com uma pele mais bonita. No almoço e jantar, tinha direito apenas a consumir 600 gramas: 200 gramas de proteína, 200 gramas de verduras e a mesma quantidade com frutas; sem variar, e tudo cozido, grelhado ou assado, só com sal. Pelo programa, ela não poderia usar condimentos nem alimentos gordurosos - além, claro, de passar longe dos alimentos mais calóricos, como chocolate, pizza e sorvete. E nada de lanchinho nos intervalos. Ela também teria que evitar pintar o cabelo e não tomar corticoides, restrições para grávidas.

Só no fim do programa começa a fase de "reeducação alimentar". O endocrinologista Ricardo Meirelles, presidente da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (Sbem), diz que estudos mostraram que o beta-hCG não contribui para a perda de peso total, nem para melhorar a distribuição de gordura.

- O médico americano fornece o hormônio em seu próprio consultório, prática inaceitável no Brasil e estritamente proibida pelo Código de Ética Médica. Já existiram por aqui clínicas que faziam o mesmo, mas não tenho ouvido falar nelas - diz Meirelles.

Mesmo o FDA, o órgão americano que controla medicamentos e alimentos, alerta que "não está provado que o produto intensifique a perda de peso, que cause distribuição mais atraente de gordura ou reduza fome". E a instituição já recebeu relato sobre um paciente que faz a dieta hCG e sofreu uma embolia pulmonar. Mesmo assim, clínicas continuam oferecendo.

- Outra coisa que chama a atenção é que os médicos que vendem esse programa de dieta se propõem a tratar de pessoas que não preenchem os critérios de sobrepeso e obesidade, ou seja, que apresentem índice de massa corporal acima de 30 - comenta Meirelles. - Eles tratam de noivas interessadas em emagrecer para um casamento e mulheres com outras motivações desse tipo. Com a dieta que receitam, qualquer um emagrece. As injeções são placebo para motivar a adesão ao programa. Isto é antiético.

Efeito similar ao de um placebo

Também o endocrinologista Amélio de Godoy Matos, do Instituto de Endocrinologia e Diabetes do Estado do Rio (Iede), diz que a dieta hCG é "charlatanice" desde a década de 60 e acredita que no Brasil há clínicas oferecendo esse tratamento. Mas não há evidência de que ele funcione, tampouco alguma coerência no que afirmam os defensores desse tratamento.

- Nem se sabe o que esses médicos estão injetando em seus pacientes, pois a injeção é aplicada na própria clínica ou vendida pelos próprios interessados. Os riscos com esse tratamento podem ser altos se, de fato, for o hormônio beta-hCG, pois é um hormônio potente, que pode levar a formações de cistos nos ovários, aumentar a produção de testosterona e, com isso, virilizar, causar infertilidade e doença cardiovascular. O estranho é que o FDA não tenha até hoje punido esses médicos - diz.

Também o endocrinologista Alfredo Halpern, professor da faculdade de Medicina da USP, alerta para o perigo da dieta hCG:

- Esse programa não tem qualquer base científica para ser aplicado. Infelizmente há pessoas que gastam dinheiro com isso - critica Halpern.

- Os testes com as pessoas que usaram o hormônio hCG comparados a outro grupo com tratamento placebo mostraram que a perda de peso foi igual.

O que faz emagrecer, diz Halpern, é a dieta de 500, 600kcal, semelhante a de cardápios de spa.

- Qualquer pessoa perde peso em um programa tão restritivo assim. O hormônio hCG não emagrece - garante.


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