sábado, 1 de abril de 2017

Quero ser nutrólogo, como proceder?


A razão desse texto é que muitos médicos tem enviado e-mail perguntando sobre a área de nutrologia. Como fazer pra ser nutrólogo, onde cursar, por onde estudar e quais os pré-requisitos para prestar a prova de título.

Antes de tudo quero deixar claro que eu (Frederico Lobo) NÃO sou nutrólogo ainda. Fiz a Pós de Nutrologia da ABRAN em 2014 e estou estudando pra prestar a prova de título (26/04/2017), já que atuo na área desde 2011 e trabalho em um Ambulatório de Nutrologia no SUS desde 2014. Os outros autores do texto são dois amigos. Dr. Leandro Marques ( nutrólogo em Anápolis e Brasília) e Dr. Delmir Rodrigues (pediatra, endocrinopediatra e nutropediatra em Brasília).

Antes de explicar o modus operandi para "se tornar nutrólogo" vale a pena fazer algumas considerações importantes sobre a Nutrologia Médica.

A Nutrologia no Brasil 

A nutrologia só foi reconhecida como especialidade médica há 39 anos (1978), entretanto desde 1952 faz parte do programa do Departamento de Clínica Médica da USP de Ribeirão Preto. Considera-se o pai da Nutrologia no Brasil o Prof. Dr. José Dutra de Oliveira. No Brasil quem representa a Nutrologia diante da Associação Médica Brasileira (AMB) e do Conselho Federal de Medicina (CFM) é a Associação Brasileira de Nutrologia (ABRAN).

Nutrologia como especialidade médica

A Nutrologia é a especialidade médica que estuda, pesquisa e avalia os benefícios e malefícios causados pela ingestão dos nutrientes, aplicando este conhecimento para a avaliação de nossas necessidades orgânicas, visando a manutenção da saúde e redução de risco de doenças, assim como o tratamento das manifestações de deficiência ou excesso. Também denominada segundo a ABRAN de Nutrologia Funcional ou Nutrologia Médica, que são sinônimos na sua conceituação.

O acompanhamento do estado nutricional do paciente e a compreensão da fisiopatologia das doenças diretamente relacionadas aos nutrientes permitem ao nutrólogo atuar no diagnóstico, prevenção e tratamento destas doenças, contribuindo na promoção de uma longevidade saudável, com melhor qualidade de vida

Nutrólogo X nutricionista

Há 7 principais diferenças entre nutrólogos e nutricionistas.
  1. Graduação
  2. Áreas de atuação
  3. Tipo de diagnóstico permitido para médicos e nutricionistas
  4. Solicitação de exames
  5. Arsenal terapêutico
  6. Indicação do tipo de de dieta e prescrição de plano dietoterápico
  7. Número de consultas por planos de saúde
Para ler mais detalhadamente sobre cada uma das diferenças sugerimos que acesse esse texto: http://www.ecologiamedica.net/2015/08/diferenca-entre-nutrologo-e.html

É importante frisar que em nenhum momento a Nutrologia invade a nutrição, sendo que os bons nutrólogos sabem trabalhar em parceria com nutricionistas. Ou seja, o médico nutrólogo não é um prescritor de dietas, ele faz a parte médica da Nutrição humana, dando diagnóstico nosológico, instituindo o melhor tipo de terapia para cada caso, orientando o paciente sobre o prognóstico da doença e solicitando ao nutricionista o tipo de dieta a ser elaborada. 

Modismo x Nutrologia Baseada em Ciência

Muitos dizem que desde 2008 com o surgimento de algumas redes sociais, a nutrologia tornou-se uma das especialidades médicas da moda. Talvez porque há alguns anos era menos difícil passar na prova de título de especialista.

As razões pela especialidade estar "em voga" são inúmeras:
  1. Aumento  estrondoso do número de pesquisas correlacionando a influência de hábitos alimentares sobre centenas de doenças.
  2. A importância da nutroterapia no desfecho de inúmeras patologias. 
  3. Médicos cansando de suas especialidades originais e querendo atuar em uma área diferente.
  4. A crença de que é uma área altamente rentável, já que trata de Obesidade e Ganho de massa (hipertrofia), ou seja, envolve estética e esse mercado gera bilhões em todo o mundo. 
  5. Como até pouco tempo atrás era relativamente fácil ter autorização para prestar a prova de título (e com isso garantir um título), médicos sem especialidade ou recém-formados viam na Nutrologia uma alternativa para ter um título de especialista. 
  6. É uma área que se interrelaciona com diversas áreas da medicina e outras profissões da área da saúde, em especial Educação física, Nutrição. 
Como era uma especialidade até então "desconhecida por ignorância" até mesmo pelos próprios médicos, o "boom" ocorrido nos últimos anos foi benéfico.

Despertou interesse da comunidade científica brasileira, dos médicos de diversas especialidades e de graduandos em medicina. Mas nem tudo são flores. Com esse "boom" surgiram inúmeros charlatões que se intitulam "nutrólogos" por terem cursado o Curso Nacional de Nutrologia (CNN) e na verdade a última coisa que exercem é a verdadeira nutrologia. 

É importante deixar claro que Nutrologia não inclui no seu arsenal terapêutico e propedêutico:
  1. Prática Ortomolecular ou Biomolecular
  2. Modulação hormonal
  3. Uso de hormônios com finalidade estética
  4. Ozonioterapia
  5. Biorressonância
  6. Medicina "quântica"
  7. Homeopatia
  8. Medicina germânica
  9. Medicina biológica
  10. Medicina funcional
Só existe UMA nutrologia, que é a nutrologia baseada em evidências científicas. Apesar da nutrição humana ser um terreno de incertezas, talvez por falhas metodológicas, ano após ano essas evidências vão se consolidando. 

Prós e contras

Por ser uma área que tem a ciência a seu favor (digo em investimentos de pesquisas científicas) é uma área ultra-dinâmica. Diariamente surgem novos estudos, ensaios clínicos e algo que era verdade até mês passado, pode deixar de ser, ou então uma dúvida paira no ar. Para quem gosta desse dinamismo, a especialidade é um prato cheio. Para quem não gosta dessa "incerteza" científica, pule fora, nutrologia não é pra você. 

É uma área que demanda muito conhecimento do ciclo básico da graduação em medicina, em especial bioquímica médica. Se você não gosta de bioquímica, vias metabólicas, hormônios, compreensão da fisiopatologia das doenças, pule fora, ainda dá tempo, pois nutrologia não é pra você. 

Se você gosta de pacientes críticos, pode seguir a área de Nutrição Enteral e Parenteral. Ficando parte do seu cotidiano restrito ao ambiente hospitalar (em especial CTI, enfermaria). Mas se ficar em hospital não te agrada, você tem inúmeras áreas dentro da Nutrologia Clínica para atuar. A Nutrologia como citado acima, correlaciona-se com várias áreas, sendo assim é rara uma especialidade em que a Nutrologia não agregará algo. 

É Pediatra? A Nutrologia pediátrica pode te auxiliar muito. Caso você assimile o conceito de imprinting metabólico, pode contribuir para uma geração totalmente diferente das demais. E isso não fica restrito só à pediatria, obstetras também podem aprender muito com isso. 
É endócrinologista? A nutrologia pode mudar totalmente sua atuação no tratamento da obesidade, diabetes, síndrome metabólica.
É cardiologista? A nutrologia pode te auxiliar a manejar melhores seus pacientes hipertensos, com síndrome metabólica ou portadores de insuficiência coronariana.
É nefrologista? A Nutrologia com certeza trará um melhor prognóstico para os seus pacientes nefropatas.
É infectologista? O suporte nutrológico pode mudar o curso de inúmeros processos infecciosos.
É geriatra? A nutrologia pode ajudar.
É oncologista? A nutrologia pode te auxiliar muito, melhorando a tolerância dos pacientes à quimioterapia e evitando a caquexia inerente ao processo neoplásico. 

Mas eu sou cirurgião, será que a nutrologia pode agregar conhecimento à minha atuação? Sim, já ouviu falar sobre imunonutrição? Nutrição enteral precoce? Menor tempo de jejum pré-operatório?

Ou seja, a nutrologia pode auxiliar a maioria das especialidades. 

A preocupação global das pessoas com a estética é uma faca de dois gumes. Se por um lado o excesso de preocupação pode precipitar transtornos alimentares, do outro temos pessoas de conscientizando mais sobre a importância de se alimentar melhor, favorecendo mais qualidade de vida e uma provável senilidade mais saudável. O mercado de emagrecimento gera bilhões em todo o mundo, assim como o desejo de hipertrofia muscular ou melhora da performance nos exercícios. Esse é um grande filão que recorre aos nutrólogos. Porém esse mesmo filão pode recorrer aos endocrinologistas, médicos do esporte, clínicos gerais, nutricionistas, profissionais da educação física, psicólogos. Ou até mesmo a farmacêuticos, enfermeiros, fisioterapeutas,  quem sabe o famoso "coach", "o tio da loja de suplementos" ou o "dono do espaço vida saudável". Ou seja, muita gente que sequer compreende as nuances da obesidade, querendo manejar uma doença multifatorial. Portanto se você quer ser nutrólogo saiba que você "concorrerá" com essas outras áreas, caso seu foco seja obesidade, hipertrofia e performance. 

Mas dá pra atuar em nutrologia sem ter como foco em obesidade, hipertrofia ou performance? Seja bem-vindo, é o que mais precisamos dentro da nutrologia. Médicos que queiram atuar em doenças. Manejo nutrológico de uma infinidade de doenças. Não necessariamente você precisa manejar só doenças. E crucial o manejo nutrológico dos principais ciclos da vida: infância, idade fértil, climatério, senilidade, ou seja, a nutrologia está presente do começo ao fim da vida.

O que temos visto é que a Nutrologia é uma das áreas médicas que mais tem atraído médicos na atualidade. Médicos de diversas áreas estão migrando para nutrologia ou complementando suas áreas com conhecimentos nutrológicos. Ainda são poucos nutrólogos titulados no Brasil. Segundo o último censo demográfico do CFM (2014), são cadastrados 1.536 nutrólogos em todo o país.

Modus operandi para se tornar nutrólogo

O que diferencia um médico nutrólogo de uma nutricionista é a formação (graduação). O médico nutrólogo geralmente faz 6 anos de graduação de medicina, 2 anos de residência de clínica médica (ou cirurgia) e 2 anos de residência de nutrologia. Ou então (até 2016) o médico que tinha outra formação de base, como por exemplo endocrinologia. Ele fazia 6 anos de graduação em medicina, 2 anos de residência em clínica médica, 2 anos de residência em endocrinologia, 2 anos de residência em nutrologia OU pós-graduação da ABRAN, com posterior aprovação na prova de título de nutrologia.

Na atualidade a ABRAN possui uma pós denominada de Curso Nacional de Nutrologia (CNN), que ocorre anualmente em São Paulo. Até 2016 a realização deste era obrigatória para quem desejava prestar a prova de título. Ou então ter feito a residência.

A partir de 2017 o edital da prova de título (clique aqui) teve uma mudança radical, feita pela Associação Médica Brasileira (AMB). Agora quem quer ser nutrólogo tem as seguintes opções:

Opção 1: Cursar 6 anos de medicina + 2 anos de residência de clínica médica e mais 2 anos de residência de Nutrologia (há 8 vagas no País inteiro - USP de Ribeirão Preto, USP São Paulo, UFRGS, BH). Nesse caso não precisa prestar a prova de título. Basta chegar no CRM e solicitar o seu Registro de qualificação de especialista (RQE) em nutrologia.

Opção 2: Fazer algum estágio ou Especialização em Nutrologia com prazo de formação mínimo de dois anos, sendo obrigatória carga horária anual de 2.880 horas, distribuídas entre atendimento ambulatorial, atendimento em unidade de internação e programa teórico. SE comprovado isso, com declaração do chefe do serviço de nutrologia (titulado) e diretor clínico, pode-se prestar a prova de título.

Opção 3: Atuar na área por 4 anos completos, em algum serviço de nutrologia que tenha atividade ambulatorial e hospitalar (obrigatoriamente) e esse serviço tem que ser reconhecido pela Associação Brasileira de Nutrologia. Nesse caso o médico deve receber uma declaração de atuação na área durante os 4 anos completos. SE comprovado isso, com declaração do chefe do serviço de nutrologia (titulado em nutrologia) e diretor clínico, pode-se prestar a prova de título.

Opção 4: Possuir 2 (dois) anos de residência médica certificada pelo MEC ou título de especialista certificado pela AMB/CFM/CNRM nas áreas de Clinica Médica e/ou Cirurgia Geral e/ou Pediatria e/ou Ginecologia e/ou Obstetrícia e/ou Medicina Intensiva. ALÉM DISSO o médico tem que possuir 2 (dois) anos completos de atividade em Nutrologia em serviço hospitalar e ambulatorial em serviços reconhecidos pela Associação Brasileira em Nutrologia - ABRAN. SE comprovado isso, com declaração do chefe do serviço de nutrologia (titulado em nutrologia) e diretor clínico, pode-se prestar a prova de título.

É importante salientar que nas Opções 2, 3 e 4 o médico que almeja prestar a prova de título deverá (segundo o edital de 2017) ter até 30 pontos no currículo e até 100 pontos de acreditação (conforme anexos do edital). Ou seja, o CNN ainda fornece uma pontuação alta e vale a pena fazer. Além disso o médico deve comparecer aos congressos ou jornadas da especialidade e preferencialmente produzir trabalhos científicos (artigos científicos, poster em congressos, artigos de livros de nutrologia, participação em mesas redondas da área). Ou seja, não basta apenas cursar o CNN, comprar os 4 anos de atuação, é preciso vivenciar verdadeiramente a especialidade e lutar para que ela cresça de forma ética.

Autores:

Dr. Frederico Lobo - Médico - Clinico geral (CRM-GO 13192)
Dr. Leandro Marques - Médico nutrólogo ( CRM-GO 14326 e CRM-DF 18413) RQE 10253
Dr. Delmir Rodrigues - Médico pediatra, endocrinopediatra e nutrólogo pediátrico (CRM- DF 14480, RQE 7746 e RQE 9984)


sexta-feira, 10 de março de 2017

Papo sério: Os esteroides anabolizantes e o nosso "relógio suíço" por Dr. Eduardo Guimarães


Desde os anos 70, os esteroides anabolizantes vêm sendo usados de forma abusiva por atletas, fisiculturistas e praticantes de atividade física. Os esteroides androgênicos anabólicos (ou anabolizantes) são hormônios representados pela testosterona e seus derivados, cujos efeitos de aumento de massa muscular e óssea e aumento da capacidade de proliferação celular são empregados em situações médicas muito restritas, como nos casos de desnutrição grave causada por câncer e AIDS. Essas substâncias hormonais também são empregadas para suprir as necessidades daqueles que as deixam de produzir, como nos casos de hipogonadismo e atraso puberal. Entretanto, o seu uso indiscriminado e crescente, sem indicação clínica, particularmente em adolescentes e adultos jovens, tem chamado a atenção das principais sociedades médicas mundo afora, principalmente aquelas ligadas a programas antidoping, que alertam sobre os riscos à saúde decorrente da exposição de terapias anabolizantes.

De fato, as propriedades “milagrosas” dos esteroides anabolizantes começaram a chamar a atenção a partir dos surpreendente ganho de força e massa muscular de atletas de alto nível, o que garantia um desempenho muito superior quando comparado com aqueles que não usavam. Não demorou muito para essas substâncias alcançarem as academias, as farmácias e alguns consultórios médicos.
Na chamada "medicina estética e antienvelhecimento", hormônios androgênicos esteroides, o hormônio da tireoide e o hormônio do crescimento  (GH), que normalmente são usados somente para reposição em situações de deficiência comprovada, são indicados precoce e erroneamente com intuito de retardar o envelhecimento, aumentar o metabolismo, aumentar a massa muscular, reduzir a gordura corporal, melhorar a textura da pele e a libido. Nesses casos, são usados hormônios sem a real necessidade e em doses muito acima do recomendado. Claro que isso faz mal para o organismo!
Termos como “bio-idêntico” ou “nano-hormônio” são usados inescrupulosamente para criar uma falsa ideia de pureza e segurança, o que obviamente não existe. Disparado, a testosterona e seus derivados (ex. oxandrolona, oximetolona, estanazolol, di-hidrotestosterona) são os líderes em uso justamente por suas fortes propriedades anabolizantes, sua facilidade de encontrar e o seu baixo custo.

Mas você sabe qual o efeito que o uso dessas substâncias terá no seu organismo?
Bem, nosso sistema endócrino é um "relógio suíço", onde tudo funciona da melhor maneira para nos manter em equilíbrio. Nossos hormônios, quando estamos saudáveis e sem doenças, são produzidos na quantidade exata das nossas necessidades, nem um gota a mais. Quando um homem usa um esteroide por estética, para aumento de massa muscular, esse sistema é inibido. Sim, porque o nosso sistema hormonal funciona assim: para tentar evitar o excesso deletério, as glândulas deixam de produzir aquele hormônio que está sendo administrado.

No caso do uso da testosterona, por exemplo, os testículos deixam de produzir a própria testosterona enquanto a pessoa estiver usando. Esse uso, geralmente em doses acima do que o corpo está habituado (para ter uma ideia: a dose de reposição para quem não produz testosterona é 1 injeção a cada 14 dias; em ciclos anabolizantes, tem gente usando 1 injeção ao dia!), cria um "falso ambiente hormonal", o que estimula forçadamente as células do corpo a proliferar e crescer de tamanho. Se eu tinha um massa muscular "x" produzindo "y" de testosterona, agora com "4y" de testosterona terei uma massa muscular "4x". Parece maravilhoso! Mas o problema é que isso só se mantém enquanto estivermos usando essas doses altas. Quando reduzimos ou interrompemos o uso, que geralmente é o que ocorre quando se termina o chamado ciclo, voltamos a ser o que éramos: "x"! E um "x" que agora não consegue produzir a sua própria testosterona, pois os testículos podem demorar para trabalhar de novo. Esse estado de não produção dos próprios hormônios nós chamamos de hipogonadismo. E é nesse período, conforme o tempo que foi usado e retirado o anabolizante, que o organismo sente muito a falta dos hormônios, gerando perda grande da muscular conquistada, cansaço intenso, fraqueza, humor deprimido, impotência e falta de libido.

Esse é um ponto crucial! O que a maioria faz:
1) se convence que é um efeito colateral do tratamento e mata no peito os sintomas;
2) busca atendimento médico para entender os sintomas e tratá-los;
3) volta a usar o anabolizante.

Na minha experiência de consultório, infelizmente a maciça maioria escolhe a opção 3. Voltam a usar e os sintomas imediatamente melhoram; voltam a ficar grandes e potentes, com libido lá em cima. E daí passa ser um ciclo atrás do outro, sempre com alguma alternativa indicada por um amigo ou médico para tentar evitar os efeitos da parada. “Ah, mas eu quero usar uma dose bem baixa, só para dar uma estimulada…” Não adianta, pois só vai ter os efeitos de supressão da testosterona sem ter o resultado de crescimento muscular.

Não importa se você compra na academia ou na farmácia sem receita ou se recebeu receita de um médico. Para ter o efeito anabolizante, você sempre terá que usar doses acima do necessário. Aliás, não se iluda se esse tipo de tratamento estiver sendo feito por um médico que garanta que é seguro. O ego de muitos médicos sempre supera (e muito) o bom senso. São pseudo-inovadores, sedutores, manipuladores, super-stars das redes sociais, revolucionários inconsequentes, messiânicos que se colocam acima da boa prática médica e das entidades médicas sérias, oferecendo tratamentos que não tem suporte de segurança pela boa literatura médica. Por favor, não se iluda!

Mas mesmo assim quer usar? Saiba então os efeitos adversos do uso dos esteroides anabolizantes: alterações dermatológicas (acne, lipodistrofia – atrofia da gordura, abscessos musculares, hematomas, calvície, estrias, excesso de pelos corporais), hematológicas (aumento do número dos glóbulos vermelhos, sangue mais viscoso), alterações sexuais (impotência, ginecomastia, atrofia testicular, infertilidade), osteo-musculares (hérnia de disco, lesões meniscais, rabdomiólise-dano muscular grave), hepáticas (hepatite, colestase, icterícia -amarelão, esteatose, nódulos, câncer de fígado), renais (insuficiência renal, glomerulonefrite), cardiovascular (redução do colesterol HDL, AVC, hipertensão arterial, aumento do volume do coração, insuficiência cardíaca, arritmia, infarto, morte súbita) e comportamentais (agressividade, comportamento imprudente e compulsivo, dependência, síndrome de abstinência, depressão, pensamentos suicidas, percepção alterada da forma corporal, maior consumo de álcool e outras drogas, transtornos alimentares tipo vigorexia, bulimia, anorexia, prática de sexo inseguro). Além disso, existem vários relatos de câncer associado ao uso de anabolizantes, como câncer de fígado, de pâncreas, miossarcoma, osteossarcoma, linfoma e leucemia.

Em mulheres, os efeitos hormonais são resultado da exposição do organismo a um hormônio caracteristicamente masculino e em quantidades muito altas. O resultado é que a testosterona passa a modificar o corpo feminino trazendo traços masculinos, que é o que chamamos de virilização (ou masculinização). Aumento exagerado da massa muscular, acne, redução anormal da gordura corporal, lipodistrofia, atrofia das mamas, excesso de pelos no rosto e no corpo, aumento do gogó, voz masculinizada, parada da menstruação, engrossamento da pele, aumento do clitóris e infertilidade. Além de todos os efeitos colaterais já citados.

A saúde não é brincadeira. Respeite o seu "relógio suíço". Não se exponha a tratamentos que podem trazer riscos desnecessários. E principalmente, não coloque a sua saúde nas mãos de inconsequentes, seja um amigo, o cara da academia ou da farmácia, o cara que traz da fronteira, um médico. Ninguém se responsabilizará por você se algo der errado.

Referências:
1 - Eberhard Nieschlag, Elena Vorona. Doping with anabolic androgenic steroids (AAS): Adverse effects on non-reproductive organs and functions. Rev Endocr Metab Disord 2015. DOI 10.1007/s11154-015-9320-5
2 - WADA worldwide antidoping network (www.wada.org).

Dr. Eduardo Guimarães Camargo
Médico Endocrinologista
CREMERS 23.404 - RQE 17.086
www.dreduardocamargo.com.br

É Assim Que Se Aprende Endocrinologia! por Dr. Rafael Reinehr

Como se forma um endocrinologista?

Quando você vai ao Endocrinologista, e ele solicita alguns exames, estabelece um diagnóstico e lhe sugere um tratamento, por trás dele existem 10 anos de estudo e aperfeiçoamento (6 anos na Faculdade de Medicina, 2 anos na residência de Medicina Interna e 2 anos na residência de Endocrinologia e Metabologia). Somente os estágios de residência (4 anos), exigem cerca de 11.500 horas de dedicação entre atendimentos ambulatoriais, pacientes internados, realização de procedimentos, rounds de discussão de pacientes e casos clínicos, estudos e plantões, muitos plantões!

Além disso, é importante lembrar que  para fazer Medicina, é necessário um concurso público. Para fazer Medicina Interna, mais um concurso público, com funil bem mais apertado. E para fazer Endocrinologia ainda mais um concurso público, com pouquíssimas vagas, onde somente os melhores entram.

Somente quem realiza residência médica em Endocrinologia e Metabologia ou é aprovado em uma prova anual de proficiência em Endocrinologia que tem direito ao RQE – Registro de Especialista, um número que deve estar presente em toda e qualquer publicidade e carimbo do médico. Fique atento(a)!

E um “nutriendocrinologista”?

Enquanto isso, vemos proliferar pelo Brasil uma onda de “cursos de formação” de “nutriendocrinologistas”, especialistas em “modulação hormonal”, criadores de síndromes inexistentes como “fadiga adrenal” e “hipotireoidismo com hormônios normais”, que são claramente atraídos pela existência de um público que está sempre em busca de algo novo e que não tem, necessariamente, a criatividade suficiente para se defender de pessoas cuja maior preocupação é não a saúde das pessoas mas aquela do seu próprio bolso.

Estes cursos de formação, alguns deles “aprovados pelo MEC” (pois tem o número suficiente de doutores que o MEC exige, entre outros parâmetros), são criados para beneficiar em primeiro lugar aqueles que os ministram (já que são cobrados altos valores para garantir a participação) e muitas vezes são realizados à distância, com um encontro presencial mensal. Para entrar? Basta pagar. Nenhuma seleção pública.

No outro dia, vi uma postagem de uma profissional da saúde se vangloriando de ter concluído um destes cursos, realizado por um “proeminente” médico, conhecido por sua visão polêmica em assuntos como “óleo de côco”, colesterol, dieta do hCG, no qual ela havia realizado 360 horas e havia sido certificada como “nutriendocrinologista”, palavra que em verdade não significa NADA, pois não é área de atuação reconhecida nem pelo MEC, nem pelo CFM, nem pela SBEM nem por nenhuma entidade internacional médica ou de saúde.



Como ocorrem os desvios éticos?

O que acontece a seguir? O próximo passo é começar a alimentar seu blog e Instagram com conteúdos relacionados à Nutrição e Endocrinologia, exaltando a sua “pós-graduação realizada em tal instituto ou com Dr. X”. O leitor incauto não consegue facilmente discernir entre alguém que realmente conhece a fundo todos os meandros e implicações endocrinológicas e metodológicas (o Médico Endocrinologista) daquele formado em cursos de final de semana (o “nutriendocrinologista”). Como nos lembra o doutor em Psicologia Moral Jonathan Haidt, nosso cérebro tende a se afixar primariamente às aparências e depois busca justificativas racionais para aceitá-las, ao invés de primariamente buscar discernir com cuidado sobre aquilo que se apresenta perante aos nossos olhos.

Assim, fica um alerta: se você realmente se preocupa com a sua saúde, busque ir além da superficialidade da internet. Descubra se o médico com o qual você está se consultando realmente dedicou – e continua dedicando – boa parte da vida para bem cuidar de você.

Descubra se o médico é um especialista de verdade

Entre na página do Conselho de Medicina do seu Estado, coloque o nome do médico que você quer saber mais (ou o CRM dele) e descubra se ele tem registro de especialista – ou se ele está enganando você com falsas promessas.

Por exemplo, as páginas dos Conselhos Regionais de Medicina do Rio Grande do Sul e de Santa Catarina são as seguintes:



Na figura abaixo:

“Isso é com que se parece aprender Endocrinologia”

“Assim a 17-alfa-hidroxilase age na progesterona que se torna 17-alfa-hidroxi-progesterona que pode ou receber a 21-hidroxilase para se tornar 11-desoxicortisol ou receber 17,20-liase para se tornar a androstenediona”

“Eu estou confuso”

“Oh, desculpe! É um pouco complicado no começo. Mas eu trouxe comigo este diagrama que vai ajudar!”



Uma excelente jornada em busca do seu médico de confiança!

Glossário:

RQE: O RQE nada mais é que o Registro de Qualificação de Especialista. Trata-se de uma certificação, criada pelo Conselho Federal de Medicina, que tem a função de deixar claro quando um profissional da saúde é especialista em alguma área. Após a criação do RQE, tornou-se vedado aos médicos a auto divulgação como especialista, ainda que tenham sido aprovados no Exame de Título de Especialista. O RQE é emitido pelo Conselho Regional de Medicina de cada Estado. Para os médicos, o RQE é essencial para transmitir aos pacientes mais segurança e credibilidade, pois através dele fica comprovada a sua capacidade de especialização em sua área, reconhecida pelo CRM. Para os pacientes: antes de se consultar com qualquer profissional de medicina que se denomine especialista, cheque se o mesmo possui RQE. Trata-se de uma maneira simples e eficaz de evitar fraudes e profissionais despreparados.

hCG: Gonadotrofina Coriônica Humana, utilizada sem embasamento científico adequado como auxiliar no processo de emagrecimento. Existem estudos demonstrando que seu uso pode ser deletério à saúde. Vide http://www.endocrino.org.br/media/uploads/PDFs/posicionamento_oficial_hcg_sbem_e_abeso.pdf

CFM: Conselho Federal de Medicina – Regulamenta o Exercício da Medicina no Brasil – http://portal.cfm.org.br

CRM: Conselho Regional de Medicina – todo Estado tem o seu, monitora e regulamenta a atividade dos médicos em nível estadual

MEC: Ministério da Educação e Cultura

SBEM: Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (http://endocrino.org.br) – Entidade Associativa que reúne médicos endocrinologistas de todo país, organiza eventos científicos e promove o esclarecimento da população quanto a assuntos relacionados à Endocrinologia e Metabologia e suas sub-especialidades.

Orientação sobre sucos: dar ou não à criança? Por Dra. Kelly Marques

Uma palavra sobre os sucos:

Muitas mamães me perguntam em relação aos sucos: Dar ou não? A partir de que idade? Qual a quantidade? Fiz uma coletânea das recomendações de diretrizes nacionais e internacionais e artigos, tomei a liberdade de resumi-las aqui para vocês, e colocar as que considero mais relevantes e pertinentes. As referências estão ao final do post. Espero que ajude!

 Recomendações dos principais órgãos:

 Sociedade Brasileira de Pediatria – Brasil

  • Os sucos naturais devem ser evitados, mas se forem administrados que sejam dados no copo, de preferência após as refeições principais, e não em substituição a estas, em dose máxima de 100 mL/dia, com a finalidade de melhorar a absorção do ferro não heme presente nos alimentos como feijão e folhas verde-escuras.

 Academia Americana de Pediatria – EUA

  •  Sucos não oferecem benefícios nutricionais para crianças menores de 6 meses e não devem ser oferecidos para as mesmas. (Veja os posts sobre benefícios do aleitamento materno e introdução alimentar).
  • A fruta in natura deve ser oferecida em preferência ao suco. Sucos não oferecem nenhum benefício maior do que a fruta in natura para crianças maiores de 6 meses.
  • Suco de fruta 100% natural pode ser parte de uma dieta saudável quando consumido como parte de uma dieta balanceada. Sucos de fruta artificiais ou de “caixinha” não são equivalentes ao suco de fruta natural e não são recomendados.
  • Sucos não devem ser dados em mamadeiras, ou em recipientes de fácil transporte, de forma a estimular a sua ingesta ao longo do dia todo (o objetivo não é esse!)
  • Não oferecer sucos na hora de dormir.
  • Sucos não são apropriados para o tratamento de desidratação e diarreia.
  • Consumo excessivo de sucos pode estar associado com diarréia, flatulência, distensão abdominal e cárie dentária, além de subnutrição.
  • Sucos não pasteurizados podem conter bactérias (Escherichia coliSalmonella e Cryptosporidium), responsáveis por doenças.
  • A ingesta de suco deve ser limitada a 120 a 180ml por dia em crianças de 1 a 6 anos, e para crianças de 7 a 18 anos, de 200 a 350 ml, ou 2 copos por dia.
  • Em crianças consideradas malnutridas, com diarreia crônica, flatulência excessiva, dor abdominal e má digestão o pediatra deve avaliar a criança e determinar a quantidade de suco consumida.
  • cárie dentária pode estar diretamente relacionada com a quantidade de suco ingerida, sem os cuidados necessários.

 Health Canada – Canadá 

Não recomenda sucos no primeiro ano. Depois de 1 ano, orientam dar suco de forma limitada e não oferecer bebida adoçadas. Se a criança estiver com sede, ofereça água a ela.

 National Health and Medical Research Council – Austrália  

  • Sucos são desnecessários e não se recomenda para crianças menores de 1 ano de idade.
  • Bebidas adoçadas estão associadas com cáries dentárias.
  • Chás e outras bebidas não tem benefícios conhecidos para a criança e podem ser potencialmente perigosos.
 National Health Service (NHS) – Reino Unido
  •  Bebês abaixo de 6 meses não devem receber sucos de fruta.
  • Sucos de fruta diluídos (uma parte de suco para 10 partes de água) podem ser oferecidos à criança com as refeições após os 6 meses. Gente eu coloquei isso aqui, mas por favor, não entendam mal! Não é para dar suco diluído como forma de refeição ou porção de frutas, seria mais como uma “água com gostinho” com o objetivo de hidratar (quando for dar água pode ser dessa forma…).
  • Dica: dar água diluída com suco de fruta natural e frutas sempre in natura!
  • Sucos in natura podem ser dados após as refeições para reduzir o risco de cárie, em pequena quantidade.

 O problema do excesso de suco

  • Excesso de suco pode levar a anemia e malnutrição (com excesso de açúcares e falta de outros nutrientes, como proteínas, carboidratos e vitaminas). Nessa situação imagine aquele bebê que se adapta perfeitamente ao suco, e acaba ficando “preguiçoso” para mastigar e comer outro alimento sólido, substituindo suco pelas refeições do dia. Nesse caso, o bebê pode ter dificuldade de ganhar peso, e ter falta de vários nutrientes importantes.
  • O excesso de suco pode danificar o esmalte do dente, levando a cárie dentária, principalmente quando oferecida na mamadeira.
  • Excesso de suco pode provocar gases e diarréia.
  • O consumo de mais de 350ml de suco por dia está associado a baixa estatura e obesidade.
  • Sucos de fruta podem conter sorbitol e uma grande quantidade de frutose, que pode causar cólicas no bebê, pela produção de gases.
  • Os açúcares podem causar problemas futuros pois mais tardiamente as crianças tem dificuldade de reduzir o carboidrato da dieta, incluído esses açúcares.
  • Sucos têm alto índice glicêmico e crianças que ingerem grandes quantidades de suco tem risco de obesidade no futuro. É só pensarmos quantas laranjas precisamos para fazer 120ml de suco em média. Provavalmente 2 laranjas. E quantos bebês comeriam 2 laranjas inteiras assim, de uma vez?

 Minha opinião como pediatra…

Prefiro a fruta in natura. Porque? A fruta in natura proporciona uma experiência muito mais interessante da criança com o alimento, com diferentes sensações: cor, cheiro, paladar, textura. Os sucos perdem isso. Além disso, as fibras são perdidas no processo de produzir o suco, bem como as vitaminas.
O suco “enche” a criança, mas não necessariamente é mais nutritivo. A tendência ainda é usar mamadeira para dar o suco (apesar de o indicado serem os copinhos de transição ou mesmo copos adaptados para criança), o que pode levar ao desmame.
Enfim, ao invés de nos perguntarmos porque não dar o suco, a pergunta deveria ser: porque dá-los à criança? Existe alguma vantagem? Espero tê-los convencido…Ah! Nem preciso dizer que isso se refere aos sucos in natura ok? Os de caixinha nem pensar!

 Conclusões…

  •  A recomendação é que se dê suco para crianças acima de 1 ano, e ainda assim, numa quantidade limitada.
  • A ingesta de suco excessiva pode contribuir para o desmame, principalmente quando oferecida na mamadeira.
  • Quando oferecida na mamadeira, principalmente à noite, pode contribuir para o surgimento de cáries.
  • A água pode ser dada no copinho junto com suco natural diluído, como forma de hidratação e nunca como substituição da fruta in natura, na proporção de 1:10 (1 parte suco para 10 partes de água)
Tudo isso só sobre suco, quanta informação! Espero ter esclarecido bem esse assunto, que tem causado muita dúvida nas mamães.  Continuem mandando suas duvidas e experiências aqui no blog, obrigada pela participação de vocês!
Para seguir o blog e receber as novidades por email, basta clicar no botão “seguir” no site. Siga também no Facebook (ative o receber notificações, para receber aviso dos posts novos) e instagram (@pediatriadescomplicada).
 Um abraço,
 Dra. Kelly Oliveira
Referências bibliográficas:
The Use and Misuse of Fruit Juice in Pediatrics. Pediatrics 2001;107;1210. Committee on Nutrition. Disponível on-line em: http://pediatrics.aappublications.org/content/107/5/1210.full.html
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domingo, 5 de março de 2017

“Ficou fácil culpar o glúten por todos os problemas do intestino”

Abaixo uma reportagem que a revista Saúde publicou. Há 5 anos venho falando a respeito disso. Desde 2012 percebi que vários dos pacientes que referiam ter sintomas quando ingeriam alimentos com glúten, não apresentavam reações ao consumir tabule (que leva trigo). Após esses anos, novos estudos sobre Sensibilidade Não-Celíaca ao Glúten (SNCG) foram surgindo e alguns autores começaram a postular que o problema talvez não seja o glúten em si.

A maioria dos pacientes que alegam ter SNCG referem sintomas geralmente quando ingerem farinha de trigo refinada, alguns com a integral. Isso nos leva a pensar que o problema possa estar durante o refino. Outro ponto interessante é: teoricamente a aveia não contém glúten, sendo que o glúten que pode ser encontrado nela, geralmente é por contaminação cruzada, já que ela é manipulada no mesmo maquinário em que o trigo. Na prática percebo que a grande maioria dos pacientes que referem ter SNCG nada apresentam quando ingerem aveia.

Vale a pena ler a reportagem. Acredito que novos estudos surgirão nesse área, na tentativa de eximir o glúten da fama de vilão.

att

Dr. Frederico Lobo
Médico - CRM-GO 13192

“Ficou fácil culpar o glúten por todos os problemas do intestino”

Na terceira e última entrevista de nossa série sobre o glúten, conversamos com o gastroenterologista Peter Gibson, professor da Universidade Monash, na Austrália. O pesquisador ficou conhecido ao publicar os primeiros experimentos sobre a existência da sensibilidade não celíaca ao glúten, nos anos de 2011 e 2013. Na entrevista, ele fala sobre a possibilidade de o problema não ser provocado pela proteína, mas por outras substâncias presentes no trigo.

A reportagem de capa da edição de fevereiro da revista SAÚDE é justamente sobre a polêmica que envolve a proteína presente em grãos como o trigo, o centeio e a cevada. Ela está disponível nas bancas de todo o país e em versão digital para compra e download no iba, na App Store e no Google Play.

Plantas como o trigo sofreram modificações genéticas que podem impactar a saúde humana?

As mais diferentes variedades de trigo foram desenvolvidas para suportar condições extremas, como a seca, e ainda assim promover aumento da produção. Isso levou a mudanças na composição do grão, como maiores quantidades de carboidrato, já que essa vantagem é utilizada pela própria planta para crescer diante de situações nada favoráveis. Além disso, o trigo com mais glúten faz um pão melhor. Logo, espécies com teores elevados dessa proteína foram privilegiadas na agricultura. Não se sabe, porém, se essa característica tem algum efeito na saúde do ser humano. As melhorias no plantio do trigo trouxeram grandes benefícios ao mundo, uma vez que ele é uma das maiores fontes de energia e nutrientes que temos. Mais do que isso, essas modificações contribuíram para melhorar a saúde das pessoas, pois ajudaram a combater a desnutrição.

A sensibilidade não celíaca pode estar relacionada a outros elementos além do glúten?

O trigo tem uma série de componentes e muitos deles estão relacionados à indução de sintomas. Ficou muito fácil culpar o glúten por todos os problemas do intestino. Carboidratos de difícil absorção, também presentes no trigo, podem desencadear a síndrome do intestino irritável. Mas há pessoas que são sensíveis ao glúten ou a outras proteínas presentes no trigo. Sem contar que existe uma série de alergias relacionadas ao grão que também precisam ser consideradas.

Esse campo de pesquisa sobre a sensibilidade não celíaca ainda é muito recente? Ou já temos confirmações sobre seus mecanismos?

Nós estamos conduzindo quatro grandes estudos. Neles, recrutamos voluntários que responderam bem a uma dieta sem glúten e reintroduzimos a proteína na alimentação em metade do grupo. Nas quatro pesquisas, nós encontramos uma porção de indivíduos que desenvolveu sintomas por causa do glúten, mas, em outra parte, os incômodos não estavam relacionados ao componente em si. O que podemos concluir é que efeitos induzidos pelo glúten especificamente são bastante incomuns. Os trabalhos atuais levam a entender que cerca de 90% dos pacientes com alimentação sem glúten se sentem bem por outros motivos, e não pela exclusão da proteína em si.

Como diagnosticar a sensibilidade não celíaca?

A única maneira seria realizar estudos controlados, em que nem os voluntários, nem os cientistas, saibam quem está ingerindo a proteína e quem não está. Mesmo se tivéssemos essa possibilidade, os resultados são de difícil interpretação, especialmente quando a resposta do indivíduo está relacionada a um fator psicológico. Por enquanto, não sabemos como realizar o diagnóstico. Quando entendermos o mecanismo fisiológico do problema, nós conseguiremos detectar a sensibilidade com precisão.

As estatísticas dizem que 1% da população tem doença celíaca e 5% manifesta a sensibilidade não celíaca. Porém, um terço das pessoas diz querer retirar o glúten da rotina. Como interpretar esse conflito estatístico?

Nós ainda não sabemos quantas pessoas realmente têm a sensibilidade não celíaca. Conhecemos, porém, os 15% da população com síndrome do intestino irritável. Inclusive, uma grande proporção deles desenvolvem sintomas relacionados à ingestão de determinados alimentos, mas nunca procuraram o médico para saber o que está acontecendo. Reduzir a ingestão de trigo pode ajudar pelo menos 70% das pessoas que fazem parte deste grupo. Não por causa do glúten, mas porque eles deixarão de consumir um importante exemplar dos carboidratos de difícil digestão, conhecidos pela sigla FODMAPs.

Fontehttp://saude.abril.com.br/alimentacao/ficou-facil-culpar-o-gluten-por-todos-os-problemas-do-intestino/

Gordura interesterificada: a “nova” gordura das margarinas é segura?


No início deste século, evidências científicas incriminando a gordura trans foram se acumulando. A gordura trans é obtida através de um processo industrial chamado de hidrogenação. Os óleos vegetais são ricos em ácidos graxos insaturados. Isto quer dizer que dentro da cadeia carbônica destes ácidos graxos existem várias ligações duplas entre os carbonos (figura 1). Durante a hidrogenação são adicionadas moléculas de hidrogênio a cadeia carbônica do ácido graxo para transformar as ligações duplas em ligações simples (figura 2). Um efeito adverso desse processo é a hidrogenação parcial de algumas das duplas ligações e a “torção” da molécula, formando a famigerada gordura trans.

FIGURA 1. Exemplos de gordura insaturada.

FIGURA 2. Processo de hidrogenação.

Mas por que a indústria gostava tanto de usar a gordura hidrogenada? De uma maneira geral, quanto mais insaturada for uma gordura, maior a probabilidade dela ser líquida. E a indústria alimentícia prefere utilizar gorduras sólidas nos seus produtos, pois além de serem mais estáveis nas altas temperaturas atingidas durante a fritura, garantem consistência mais agradável e maior prazo de validade aos alimentos.
Com cada vez mais órgãos governamentais e entidades de classe se posicionando contra o uso da gordura trans, a indústria alimentícia começou a migrar para um “novo” método para solidificar os óleos vegetais: a interesterificação.
A interesterificação é usada desde a década de 1940. Na natureza, as gorduras se apresentam em “trios” de ácidos graxos ligados a uma molécula de glicerol: são os triglicerídeos (figura 3). Dependendo de qual ácido graxo está na posição 1, 2 ou 3 da molécula do triglicerídeo, suas propriedades físico-químicas podem ser diferentes. Na forma mais comum de interesterificação utilizada pela indústria alimentícia atualmente, conhecida como método enzimático, os ácidos graxos são seletivamente ou randomicamente trocados de posição na molécula do triglicerídeo para que um óleo líquido passe a ser sólido sem o inconveniente da formação da gordura trans. Mas essa manipulação química mantém a gordura própria para consumo? É algo saudável? Esta é uma questão de resposta um pouco complexa…

FIGURA 3. Molécula de triglicerídeos. À esquerda podemos identificar os 3 carbonos da molécula de glicerol.

Primeiramente, mesmo países que historicamente conseguem ter informação epidemiológica apropriada como os Estados Unidos têm dificuldade em calcular o consumo de gordura interesterificada de sua população. Um dos motivos é a rotulagem de muitos produtos ser pouco clara quanto ao tipo de gordura utilizada na sua fabricação. Além disso, no caso da gordura interesterificada, também é importante conhecer quais “gorduras bases” foram usadas na sua fabricação, bem como a descrição do processo, já que a simples descrição da proporção de gordura saturada e insaturada ou a origem ser vegetal ou animal não permite estimar o comportamento biológico dentro do organismo. De qualquer forma, estima-se que o consumo de gordura interesterificada fique entre 1,9 e 4,8% do total energético e suas principais fontes provavelmente são: batatinhas fritas e outros chips, bolachas e pães industrializados, pipocas, margarinas, congelados prontos para fritar (nuggets e empanados, por exemplo), maionese e sorvetes.
Como os dados de consumo populacional são apenas estimados, até o momento grande parte do que se sabe sobre o impacto do consumo das gorduras interesterificadas vem de estudos pequenos, muitos feitos em animais e de curta duração. Além disso, como a gordura interesterificada compreende diversas combinações de ácidos graxos dentro da molécula de triglicerídeo, os resultados destes estudos são extremamente heterogêneos. Outra falha importante destes estudos é não conseguir reproduzir as situações reais de consumo. Isto é, ninguém come gordura interesterificada pura e em níveis até 4 vezes acima do habitual. Mas é assim que alguns estudos tentam avaliar o impacto da gordura interesterificada na saúde…
De qualquer forma, alguns pontos relevantes já foram identificados. Por exemplo, o ácido graxo de está ligado na posição 2 da molécula de triglicerídeo parece ser importante, já que ele pode ser absorvido mais facilmente pelo organismo. Além disso, o comprimento das cadeias dos ácidos graxos que ficam nas posições 1 e 3, nas pontas da molécula, também parece ser importante, já que os saturados de cadeia longa podem ser pior absorvidos quando comparados aos saturados de cadeia média. Dependendo de qual ácido graxo é preferencialmente absorvido a resposta do organismo é diferente com diferentes níveis de triglicerídeos, colesterol, marcadores inflamatórios e mesmo de glicose e de insulina.
Em resumo, até o momento ainda não sabemos se a “substituta da gordura trans” é mais saudável que ela. Para que esta pergunta seja corretamente respondida, além de mais alguns anos de pesquisa, as regras de rotulagem dos produtos alimentícios industrializados precisaram ser revistas. Neste tipo de situação onde não sabemos o real efeito de algo, o princípio da prudência se impõe. Logo, além de dar preferência às fontes naturais saudáveis de gordura (azeite de oliva, por exemplo), o consumidor tem direito de ser bem informado para decidir o que é melhor para si.

Referência:

1- Mensink RP, Sanders TA, Baer DJ, Hayes KC, Howles PN, Marangoni A. The Increasing Use of Interesterified Lipids in the Food Supply and Their Effects on Health Parameters. Adv Nutr. 2016 Jul 15;7(4):719-29. 


Dr. Mateus Dornelles Severo
 Médico Endocrinologista
CREMERS 30.576 - RQE 22.991

Papo sério: Os esteroides anabolizantes e o nosso "relógio suíço"

Desde os anos 70, os esteroides anabolizantes vêm sendo usados de forma abusiva por atletas, fisiculturistas e praticantes de atividade física. Os esteroides androgênicos anabólicos (ou anabolizantes) são hormônios representados pela testosterona e seus derivados, cujos efeitos de aumento de massa muscular e óssea e aumento da capacidade de proliferação celular são empregados em situações médicas muito restritas, como nos casos de desnutrição grave causada por câncer e AIDS. Essas substâncias hormonais também são empregadas para suprir as necessidades daqueles que as deixam de produzir, como nos casos de hipogonadismo e atraso puberal. Entretanto, o seu uso indiscriminado e crescente, sem indicação clínica, particularmente em adolescentes e adultos jovens, tem chamado a atenção das principais sociedades médicas mundo afora, principalmente aquelas ligadas a programas antidoping, que alertam sobre os riscos à saúde decorrente da exposição de terapias anabolizantes.

De fato, as propriedades “milagrosas” dos esteroides anabolizantes começaram a chamar a atenção a partir dos surpreendente ganho de força e massa muscular de atletas de alto nível, o que garantia um desempenho muito superior quando comparado com aqueles que não usavam. Não demorou muito para essas substâncias alcançarem as academias, as farmácias e alguns consultórios médicos.
Na chamada "medicina estética e antienvelhecimento", hormônios androgênicos esteroides, o hormônio da tireoide e o hormônio do crescimento  (GH), que normalmente são usados somente para reposição em situações de deficiência comprovada, são indicados precoce e erroneamente com intuito de retardar o envelhecimento, aumentar o metabolismo, aumentar a massa muscular, reduzir a gordura corporal, melhorar a textura da pele e a libido. Nesses casos, são usados hormônios sem a real necessidade e em doses muito acima do recomendado. Claro que isso faz mal para o organismo!
Termos como “bio-idêntico” ou “nano-hormônio” são usados inescrupulosamente para criar uma falsa ideia de pureza e segurança, o que obviamente não existe. Disparado, a testosterona e seus derivados (ex. oxandrolona, oximetolona, estanazolol, di-hidrotestosterona) são os líderes em uso justamente por suas fortes propriedades anabolizantes, sua facilidade de encontrar e o seu baixo custo.

Mas você sabe qual o efeito que o uso dessas substâncias terá no seu organismo?
Bem, nosso sistema endócrino é um "relógio suíço", onde tudo funciona da melhor maneira para nos manter em equilíbrio. Nossos hormônios, quando estamos saudáveis e sem doenças, são produzidos na quantidade exata das nossas necessidades, nem um gota a mais. Quando um homem usa um esteroide por estética, para aumento de massa muscular, esse sistema é inibido. Sim, porque o nosso sistema hormonal funciona assim: para tentar evitar o excesso deletério, as glândulas deixam de produzir aquele hormônio que está sendo administrado.

No caso do uso da testosterona, por exemplo, os testículos deixam de produzir a própria testosterona enquanto a pessoa estiver usando. Esse uso, geralmente em doses acima do que o corpo está habituado (para ter uma ideia: a dose de reposição para quem não produz testosterona é 1 injeção a cada 14 dias; em ciclos anabolizantes, tem gente usando 1 injeção ao dia!), cria um "falso ambiente hormonal", o que estimula forçadamente as células do corpo a proliferar e crescer de tamanho. Se eu tinha um massa muscular "x" produzindo "y" de testosterona, agora com "4y" de testosterona terei uma massa muscular "4x". Parece maravilhoso! Mas o problema é que isso só se mantém enquanto estivermos usando essas doses altas. Quando reduzimos ou interrompemos o uso, que geralmente é o que ocorre quando se termina o chamado ciclo, voltamos a ser o que éramos: "x"! E um "x" que agora não consegue produzir a sua própria testosterona, pois os testículos podem demorar para trabalhar de novo. Esse estado de não produção dos próprios hormônios nós chamamos de hipogonadismo. E é nesse período, conforme o tempo que foi usado e retirado o anabolizante, que o organismo sente muito a falta dos hormônios, gerando perda grande da muscular conquistada, cansaço intenso, fraqueza, humor deprimido, impotência e falta de libido.

Esse é um ponto crucial! O que a maioria faz:
1) se convence que é um efeito colateral do tratamento e mata no peito os sintomas;
2) busca atendimento médico para entender os sintomas e tratá-los;
3) volta a usar o anabolizante.

Na minha experiência de consultório, infelizmente a maciça maioria escolhe a opção 3. Voltam a usar e os sintomas imediatamente melhoram; voltam a ficar grandes e potentes, com libido lá em cima. E daí passa ser um ciclo atrás do outro, sempre com alguma alternativa indicada por um amigo ou médico para tentar evitar os efeitos da parada. “Ah, mas eu quero usar uma dose bem baixa, só para dar uma estimulada…” Não adianta, pois só vai ter os efeitos de supressão da testosterona sem ter o resultado de crescimento muscular.

Não importa se você compra na academia ou na farmácia sem receita ou se recebeu receita de um médico. Para ter o efeito anabolizante, você sempre terá que usar doses acima do necessário. Aliás, não se iluda se esse tipo de tratamento estiver sendo feito por um médico que garanta que é seguro. O ego de muitos médicos sempre supera (e muito) o bom senso. São pseudo-inovadores, sedutores, manipuladores, super-stars das redes sociais, revolucionários inconsequentes, messiânicos que se colocam acima da boa prática médica e das entidades médicas sérias, oferecendo tratamentos que não tem suporte de segurança pela boa literatura médica. Por favor, não se iluda!

Mas mesmo assim quer usar? Saiba então os efeitos adversos do uso dos esteroides anabolizantes: alterações dermatológicas (acne, lipodistrofia – atrofia da gordura, abscessos musculares, hematomas, calvície, estrias, excesso de pelos corporais), hematológicas (aumento do número dos glóbulos vermelhos, sangue mais viscoso), alterações sexuais (impotência, ginecomastia, atrofia testicular, infertilidade), osteo-musculares (hérnia de disco, lesões meniscais, rabdomiólise-dano muscular grave), hepáticas (hepatite, colestase, icterícia -amarelão, esteatose, nódulos, câncer de fígado), renais (insuficiência renal, glomerulonefrite), cardiovascular (redução do colesterol HDL, AVC, hipertensão arterial, aumento do volume do coração, insuficiência cardíaca, arritmia, infarto, morte súbita) e comportamentais (agressividade, comportamento imprudente e compulsivo, dependência, síndrome de abstinência, depressão, pensamentos suicidas, percepção alterada da forma corporal, maior consumo de álcool e outras drogas, transtornos alimentares tipo vigorexia, bulimia, anorexia, prática de sexo inseguro). Além disso, existem vários relatos de câncer associado ao uso de anabolizantes, como câncer de fígado, de pâncreas, miossarcoma, osteossarcoma, linfoma e leucemia.

Em mulheres, os efeitos hormonais são resultado da exposição do organismo a um hormônio caracteristicamente masculino e em quantidades muito altas. O resultado é que a testosterona passa a modificar o corpo feminino trazendo traços masculinos, que é o que chamamos de virilização (ou masculinização). Aumento exagerado da massa muscular, acne, redução anormal da gordura corporal, lipodistrofia, atrofia das mamas, excesso de pelos no rosto e no corpo, aumento do gogó, voz masculinizada, parada da menstruação, engrossamento da pele, aumento do clitóris e infertilidade. Além de todos os efeitos colaterais já citados.

A saúde não é brincadeira. Respeite o seu "relógio suíço". Não se exponha a tratamentos que podem trazer riscos desnecessários. E principalmente, não coloque a sua saúde nas mãos de inconsequentes, seja um amigo, o cara da academia ou da farmácia, o cara que traz da fronteira, um médico. Ninguém se responsabilizará por você se algo der errado.

Referências:
1 - Eberhard Nieschlag, Elena Vorona. Doping with anabolic androgenic steroids (AAS): Adverse effects on non-reproductive organs and functions. Rev Endocr Metab Disord 2015. DOI 10.1007/s11154-015-9320-5
2 - WADA worldwide antidoping network (www.wada.org).

Dr. Eduardo Guimarães Camargo
Médico Endocrinologista
CREMERS 23.404 - RQE 17.086
www.dreduardocamargo.com.br

domingo, 12 de fevereiro de 2017

Arsênio e arroz: devemos nos preocupar ?




 Eu sei que a cada post desses, você fica se perguntando: mas eu vou viver de quê? Até no arroz nosso de cada dia, tem algo para trazer preocupações, no caso o arsênio! Mas como você sabe, apesar de fato ser algo que é importante, o terrorismo nutricional, ao invés de te ajudar, termina te assustando mais.

A questão vem sendo levantada há anos, a partir de técnicas que nos permitiram detectar esses tipos de elementos na nossa comida e como o arroz é um cereal do dia a dia em quase todo o mundo, as agências regulatórias, como ANVISA aqui, FDA nos EUA e EFSA, na Europa, estão de olho nessa questão.

Particularmente na pediatria, é preocupante o uso excessivo do arroz, na forma de alimentos para bebês, como aqueles farináceos com açúcar que as mães insistem em usar em grande quantidade, adicionadas ao leite dos bebês. Claro que dar arroz para comer não será problema nenhum, mas nessa entrevista, você entenderá tudo sobre o problema e como diminuir o seu risco e do seu filho.

O entrevistado é o Dr. Bruno Lemos, pós Doutor em Toxicologia pela USP e o maior especialista no Brasil atualmente sobre o tema. Ele é membro ativo da câmara técnica da ANVISA, que visa fazer regulamentações que suscitem um consumo mais seguro dos alimentos, no caso o arroz.

Já conversei sobre esse assunto antes, mas agora teremos uma entrevista exclusiva e bastante instrutiva com um ultra especialista nessa temática. Aproveitem e não deixem de repassar para os amigos!

Fonte: http://www.pediatradofuturo.com.br/arrozearsenio/

Forma mais comum de cozinhar arroz pode trazer risco à sua saúde

A maneira que você cozinha arroz pode colocar a sua vida – e as das pessoas que comerem o alimento – em risco. Andy Meharg, professor da Universidade de Queens, no Reino Unido, revelou durante um programa da BBC que o arroz pode liberar arsênico se você utilizar um método bem comum de cozimento.

A técnica tradicional consiste em usar a proporção de duas partes de água para uma de arroz e ferver o alimento até que todo o líquido evapore. Após realizar esse processo, Meharg descobriu vestígios de arsênico no arroz, um elemento químico associado a uma série de doenças, como câncer e diabetes.

O arsênico é encontrado naturalmente no solo. Por isso, pequenas quantidades desse produto químico podem infectar o alimento. Geralmente, os níveis tóxicos são tão baixos que não causam preocupação às autoridades.

No caso do arroz, no entanto, a história é diferente. Isso porque, ele é cultivado em plantações inundadas e esse método faz com que o arsênico do solo entre com mais facilidade nos grãos. De acordo com a reportagem da BBC, o arroz tem cerca de 10 a 20 vezes mais arsênico do que outras culturas de cereais.

“A única coisa que posso comparar (com o ato de comer arroz) é fumar”, disse Meharg. “Se você fuma um ou dois cigarros por dia, seus riscos serão muito menores do que os riscos de uma pessoa que fuma 30 ou 40 cigarros diariamente. Depende da dose, quando mais você comer, maior é o risco.”

O que preocupa o professor não é a quantidade de arroz que um adulto come, mas quantas porções do grão que crianças ou bebês ingerem. “Sabemos que os baixos níveis de arsênico podem impactar o desenvolvimento imunológico, o crescimento e o desenvolvimento do QI.”

Em 2014, a agência que regula medicamentos e alimentos nos EUA, a FDA, apresentou uma pesquisa que revelou que os níveis de arsênico em mais de 1.300 amostras de arroz não oferecem risco imediato ou no curto prazo para a saúde. Contudo, o órgão disse que continuaria a investigar se o consumo do grão poderia causar doenças crônicas.

Alternativas

Apesar de a pesquisa ser importante para que mais estudos seja feitos sobre o assunto, isso não significa que você precisa parar de comer arroz. No programa, o professor também apresentou duas outras maneiras de cozinhar o alimento para ficar parcialmente livre do arsênico.

A primeira é usar uma proporção de cinco partes de água para uma parte de arroz e ainda tirar o excesso de água. Com isso, os níveis do produto tóxico foram quase reduzidos pela metade. A segunda é deixar o arroz de molho durante a noite e depois drenar a água. Assim, o grau de toxina é reduzido em 80%.

Fonte: http://exame.abril.com.br/ciencia/o-jeito-que-voce-cozinha-arroz-pode-trazer-riscos-a-sua-saude/

Glúten, lactose e outras modas por Dr. Drauzio Varella

Nunca houve tantos modismos na dieta. Dieta sem glúten, sem lactose, sem gordura, sem carboidratos, sem nada que venha dos animais e até dietas sem alimentos que contenham DNA (pedras, talvez).

A história de nossos antepassados é a da miséria. Dos 6 milhões de anos de nossa espécie, pelo menos 99,9% do tempo caçávamos, pescávamos, coletávamos frutos e raízes e disputávamos carcaças de animais com outros carnívoros famintos.

Há insignificantes 10 mil anos, o surgimento da agricultura criou a oportunidade de abandonarmos a vida nômade e armazenarmos víveres para a época das vacas magras.

Ainda assim, as epidemias de fome e a desnutrição chegaram até os dias atuais. Na metade do século passado havia fome coletiva na França, Inglaterra, Alemanha e demais países da Europa deflagrada.

Comida farta só chegou à mesa de grandes massas populacionais depois da Segunda Guerra Mundial, graças à mecanização e aos avanços da agricultura e da tecnologia de conservação de alimentos. Hoje, um brasileiro de classe média tem acesso a refeições mais variadas e nutritivas do que as dos nobres nos castelos medievais.

A fartura trouxe o exagero. Um cérebro com circuitos de neurônios moldados em tempos de penúria não desenvolveu mecanismos de saciedade, capazes de frear os impulsos viscerais despertados pela fome, antes de nos empanturrarmos até passar mal de tanto comer.

Essencial à sobrevivência quando precisávamos acumular reservas para os longos períodos de jejum que se sucediam, essa estratégia se voltou contra nós.

Ao mesmo tempo, vão distantes os dias em que gastávamos energia para alimentar a família. Pela primeira vez na história da humanidade, desfrutamos o privilégio de ganhar o sustento sentados em cadeiras confortáveis. A um toque de celular o disque-pizza nos entrega 5.000 calorias à porta, sem sairmos do sofá.

Fartura e sedentarismo, gula e preguiça, criaram as raízes da epidemia de obesidade que assola o mundo. Novembro de 2016 foi o primeiro mês dos tempos modernos em que a expectativa de vida diminuiu em relação à do mês anterior, nos Estados Unidos.

Seguimos pelo mesmo caminho. A continuar nesse passo, a obesidade e a vida sedentária farão nossos filhos viverem menos do que nós.

Sem disposição nem coragem para encarar a realidade de que comemos mais do que o necessário e andamos menos do que deveríamos, procuramos uma saída mágica que nos mantenha saudáveis.

Inventamos teorias mirabolantes que a internet divulga com tal velocidade que se transformam em ideologias com manadas de defensores ardorosos: carne é veneno, nenhum animal adulto toma leite, glúten engorda e incha, suco de berinjela reduz colesterol, e tantas outras.

É desperdício de tempo e risco de perder amigos questionar essas crenças. Não adianta dizer que nossos antepassados não teriam sobrevivido não fosse a carne, que alimentos com glúten costumam conter carboidratos simples com índices glicêmicos elevados, que a coitada da berinjela jamais teve a pretensão de proteger alguém contra o ataque cardíaco e que onças adultas não tomam leite pela mesma razão que não bebem chope nem água encanada.

Para confundir ainda mais, estudos com resultados que exigiriam interpretações estatísticas cautelosas e confirmação em pesquisas mais elaboradas ganham destaque nas mídias como se apresentassem conclusões definitivas. Num dia, o ovo é uma bomba de colesterol prestes a explodir as coronárias; no outro, asseguram que tem alto valor nutritivo. A carne de porco que já foi a mãe de todos os males está reabilitada, a de boi enfrenta suspeitas.

A confusão acontece porque esses estudos costumam ser observacionais. Neles, são analisadas as características dietéticas de uma população e as enfermidades que a afligem. Em ciência, publicações desse tipo são consideradas apenas geradoras de hipóteses. Para confirmá-las são fundamentais os estudos prospectivos, randomizados, muito mais complexos, dispendiosos e demorados.

Perdido na selva de informações desencontradas, o que você deve fazer, leitor? Coma frutas, saladas e verduras com liberalidade; do resto, de tudo um pouco. Procure comer o que sua avó considerava comida.

Fonte: http://www1.folha.uol.com.br/colunas/drauziovarella/2017/02/1855591-gluten-lactose-e-outras-modas.shtml

Anvisa proíbe noz da Índia e chapéu de Napoleão

A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) proibiu a fabricação, a comercialização, a distribuição e a importação de Noz da Índia (Aleurites moluccanus) e do Chapéu de Napoleão (Thevetia peruviana) como insumos em medicamentos e alimentos e em quaisquer formas de apresentação. Os produtos à base dessas plantas são comercializados e divulgados irregularmente com indicações de emagrecimento, por suas propriedades laxativas. No entanto, nunca houve registro na agência. A medida, publicada no Diário Oficial da União (DOU) desta terça-feira, vale para todo o território nacional.

De acordo com a agência, as sementes são tóxicas e há relatos de mortes associadas ao seu consumo. De acordo com informações do jornal O Globo, a noz da Índia é nativa da Ásia e tem propriedades laxantes. Já o chapéu de Napoleão, nativo da América do Sul, é uma planta parecida com a Noz da Índia.

A medida também está baseada na Nota Técnica 001/2016 emitida pelo Centro Integrado de Vigilância Toxicológica do Estado do Mato Grosso do Sul (Civitox/CVA/SGVS/SES/MS), sobre casos de intoxicação pelo uso da semente.

Chapéu de Napoleão

Também está proibida a distribuição e uso da planta Chapéu de Napoleão ou “jorro-jorro” (Thevetia peruviana), cujas sementes se assemelham àquelas da Noz da Índia. Essas sementes, quando ingeridas, também são tóxicas e seu uso é proibido em diversos países.

A medida sanitária aplicada pela Anvisa ao consumo dessas sementes, em qualquer forma de apresentação, proíbe também a divulgação, em todos os meios de comunicação, de medicamentos e alimentos que apresentem estes insumos.

Fonte: http://veja.abril.com.br/saude/anvisa-proibe-noz-da-india-e-chapeu-de-napoleao/

Dieta materna influencia reprogramação do DNA do feto


Pesquisa da USP de Ribeirão Preto confirma ação do ácido fólico sobre função genética da prole para doenças cardiovasculares e diabete.

Toda gestante deve receber alimentação rica em ácido fólico para prevenir anencefalia e diferentes graus de deficiência mental no futuro bebê. Mas de que maneira essa vitamina atua sobre o DNA e define o funcionamento dos genes no organismo em gestação?

A busca de respostas para a questão fez a equipe do Setor de Nutrologia da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (FMRP) da USP estudar a ação do ácido fólico em genes ligados a doenças cardiovasculares e diabetes mellitus tipo 2. E os resultados da pesquisa mostraram que mudanças no fornecimento da vitamina a ratas gestantes e lactantes interferem no controle da expressão gênica das proles para essas doenças.

Os pesquisadores da USP de Ribeirão Preto analisaram material genético de filhotes cujas mães receberam diferentes concentrações de ácido fólico durante a gestação e lactação. E verificaram que os filhotes gestados com dieta deficiente da vitamina apresentaram maior expressão dos genes envolvidos com essas doenças, enquanto os filhotes de mães que receberam suplemento de ácido fólico, ao contrário, apresentaram pouca expressão desses genes.

Esses resultados, conta a geneticista Paula Lumy Takeuchi (foto), responsável pelo estudo, revelam mecanismos moleculares envolvidos no que a pesquisadora chama de “reprogramação epigenética fetal” dos genes ligados a doenças cardiovasculares e diabetes mellitus tipo 2. E, também, mostram a importância do “fornecimento adequado de ácido fólico às mães durante o desenvolvimento embrionário”.

Paula adianta que essa “reprogramação epigenética” corresponde às mudanças observadas nas expressões dos genes estudados. O ácido fólico, vitamina retirada de alimentos, participa ao nível genético de “reações de metilação do DNA”.

A alteração da quantidade de ácido fólico fornecida pela alimentação das mães alterou o “ciclo da metionina, principal aminoácido doador de grupos metil para as reações de metilação do DNA e de proteínas”. Esse é um dos mecanismos pelo qual os genes são “ligados e desligados”; o que vale dizer que eles podem estar ativos ou inativos no organismo.

Da multiplicação celular ao controle genético de doenças

Não se pode fazer uma correlação direta entre os achados experimentais, em ratos de laboratório, com o organismo humano. A pesquisadora lembra que o metabolismo do rato é bem diferente do humano. Mas é fato que as mulheres gestantes devem ingerir ácido fólico, pois ele é importante para a multiplicação celular e, portanto, importante para o desenvolvimento do embrião em formação, principalmente o tubo neural.

É do tubo neural, explica Paula, que se originam o eixo central do sistema nervoso, na cabeça e a coluna vertebral do feto. “Nossos estudos são uma iniciativa de elucidar os mecanismos moleculares que podem influenciar o desenvolvimento de doenças na prole de mães que tiveram sua dieta em ácido fólico alterada durante a gestação e lactação”, conta a pesquisadora.

Como essa vitamina pode alterar a regulação da expressão de genes como os relacionados a essas duas doenças: diabetes mellitus tipo 2 e cardiovasculares? A cientista antecipa que já se suspeitava que a suplementação alimentar com ácido fólico provocaria diminuição da expressão de genes e, ao contrário, a deficiência induziria ao aumento da expressão de genes.

Mas Paula alerta que a “diminuição ou aumento da expressão de genes é uma faca de dois gumes”, pois depende da função que esses genes desempenham no organismo. Ela cita o exemplo do colesterol bom (HDL) e o colesterol ruim (LDL) que estão relacionados a dois genes que estudou.

Se no tratamento com suplementação com ácido fólico ocorre a diminuição da expressão desses dois genes, “poderá haver uma menor síntese do LDL, mas também haverá diminuição da síntese do HDL”. Mas mesmo assim, a geneticista afirma que não podemos atribuir “o desenvolvimento de doenças cardiovasculares e diabetes mellitus tipo 2 apenas à desregulação da expressão de genes; outros fatores externos também contribuem de forma preponderante”.

Alimentação durante gravidez e lactação

O estudo da nutrologia da USP de Ribeirão Preto ainda está em desenvolvimento. A equipe ainda está analisando outros parâmetros relacionados à regulação desses genes que podem desencadear doenças cardiovasculares e diabete. Mas, garante Paula, que “alterações da dieta materna durante os períodos de gestação e lactação podem afetar a expressão de genes na prole”.

Quando o embrião está se desenvolvendo, há dois momentos em que ocorrem “apagões globais do padrão de metilação do DNA”. Nesses momentos, o feto fica suscetível às variações de oferta de substâncias (do grupo metil) para restabelecer o processo padrão de metilação de seu DNA.

Assim, a recomendação do Conselho Federal de Medicina é de que as mulheres usem o ácido fólico antes da concepção e nos três primeiros meses de gravidez. A ingestão diária de 400 microgramas dessa vitamina pode reduzir em até 75% o riso de má formação no tubo neural do feto, o que previne casos de anencefalia, paralisia de membros inferiores, incontinência urinária e intestinal nos bebês. Isso, além de diferentes graus de deficiência mental e de dificuldades de aprendizagem escolar.

Com esse estudo, a pesquisadora e pós-doutoranda Paula Lumy Takeuchi e o professor da FMRP Hélio Vannucchi (foto) receberam o prêmio internacional “2017 Malaspina International Scholar Travel Award” do International Life Sciences Institute (ILSI), fundação mundial sem fins lucrativos que procura colaboração científica entre nutrição, segurança alimentar, toxicologia, avaliação de risco e meio ambiente.  O prêmio foi recebido durante o 2017 ILSI Annual Meeting em La Jolla, Califórnia, EUA, realizado entre 22 e 24 de janeiro.

Fonte: http://ribeirao.usp.br/?p=11381

Abaixo uma tabela de biodisponibilidade de ácido fólico em alguns alimentos (TACO, 2012)


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