terça-feira, 25 de janeiro de 2022

(Conteúdo para Médicos e Nutricionistas) - Efeitos adversos dos inibidores de bomba de prótons (prazóis) - Por Prof. Valentim Magalhães

Inibidores da bomba de prótons (IBPs), como o Omeprazol, são amplamente recomendados no tratamento de condições gástricas e estão entre os 10 medicamentos mais utilizados no mundo.

Seu uso a longo prazo, no entanto, está associado a diversos desfechos negativos, como profundas alterações no microbioma de todo o segmento do trato gastrointestinal que levam ao quadro de disbiose. A hipocloridria gástrica causada por IBPs favorece um microambiente pró-inflamatório, com bactérias orais e patogênicas aumentadas na microbiota intestinal. A nível populacional, mais alterações microbianas no intestino foram associadas ao uso de IBPs do que a antibióticos ou outras drogas. Os IBPs estão também associados ao risco de infecções entéricas, em particular ao aumento de 65% na incidência de infecção por Clostridium difficile. (1)

Além disso, o uso prolongado de IBP foi associado a um risco 2,4 maior de câncer gástrico, mesmo após a terapia de erradicação do H. Pillori. (2)

Uma revisão mostrou que os IBPs foram associados ao risco elevado de fraturas em 14 estudos, embora outros 4 não tenham relatado relação significativa. Os possíveis mecanismos incluem hipersecreção de gastrina e má absorção de minerais e vitaminas devido à hipocloridria. Os IBPs também podem ter ações diretas nas células ósseas, mas os estudos são limitados. (3)

Uma metanálise de 17 estudos encontrou risco 26% maior de fratura de quadril em pacientes com uso de IBPs. O risco persistiu mesmo quando estratificado por ajuste de cálcio e a duração do uso (p <0,0001). (4)

Destacamos que os IBPs possuem indicações clínicas específicas e o seu uso deve ser considerado quando o benefício superar o risco. O uso indiscriminado, crônico e sem acompanhamento profissional deve ser amplamente desencorajado. Pacientes em tratamento devem ser constantemente avaliados quanto a hipocloridria, digestão, saúde intestinal e óssea e níveis de vitamina e minerais (principalmente ferro, cálcio e B12).


Referências:
1) Imhann, Floris, et al. "Proton pump inhibitors affect the gut microbiome." Gut 65.5 (2016): 740-748.

2)Cheung, Ka Shing, et al. "Long-term proton pump inhibitors and risk of gastric cancer development after treatment for Helicobacter pylori: a population-based study." Gut 67.1 (2018): 28-35.

3) Thong, Benjamin Ka Seng, Soelaiman Ima-Nirwana, and Kok-Yong Chin. "Proton pump inhibitors and fracture risk: a review of current evidence and mechanisms involved." International journal of environmental research and public health 16.9 (2019): 1571.

4) Hussain, Salman, et al. "Proton pump inhibitors’ use and risk of hip fracture: a systematic review and meta-analysis." Rheumatology international 38.11 (2018): 1999-2014.

Autor: Prof. Valentim Magalhães

terça-feira, 11 de janeiro de 2022

(Conteúdo para Médicos e Nutricionistas) - Recomendações alimentares para controle de peso e redução de risco cardiovascular - Por Prof. Valentim Magalhães

 Devido ao aumento crescente da obesidade desde 1975, o mundo científico tem se dedicado a elaborar recomendações alimentares para controle de peso e redução de risco cardiovascular (RCV). ⁣
Uma ampla promoção de programas dietéticos têm sido realizada pela mídia, gerando um grande debate acerca de qual abordagem seria a mais eficaz.⁣
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Uma revisão sistemática e meta-análise de ensaios clínicos randomizados recente (2020) foi realizada para determinar a eficácia relativa de diferentes estratégias alimentares para perda de peso e melhoria dos fatores de RCV entre adultos sobrepesos/obesos. Dados de 121 ensaios clínicos randomizados, incluindo 21.942 indivíduos, foram utilizados.⁣
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As dietas foram categorizadas em padrões de macronutrientes, conforme descrito abaixo:⁣
🔹 Baixo Carboidrato (BC) (Ex: Atkins, Zone Diet, Paleo Lowcarb): ≤40% de CHO, 30% PTN e 30-55% LIP;⁣
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🔹 Baixa Gordura (BG) (Ex: Ornish Diet): 60% CHO, 10-15% PTN e ≤20% LIP;⁣
🔹 Moderada (MOD) (Ex: DASH, Mediterraneo, Vigilantes do peso, Alguns tipos de Paleolítica): 55-60% CHO, 15% PTN e 21-≤30% LIP.⁣
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Foram avaliadas alterações no peso corporal, perfil lipídico, pressão arterial e PCR nos 6 e 12 meses de acompanhamento dos estudos.⁣
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As evidências mostraram que alguns tipos de dieta possuem maior efeito a curto prazo (6 meses) na perda de peso e pressão arterial (como na Atkins ou DASH).
No entanto, diferença dos efeitos na redução de peso e nas melhorias dos fatores de RCV entre cada dieta desaparecem em grande parte após 12 meses de acompanhamento, sugerindo que fim todas terão resultados semelhantes nos parâmetros analisados.⁣
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Conclui-se que este é mais um grande estudo, com metodologia criteriosa e publicado em uma das maiores revista do mundo, concluindo que a melhor dieta é a que o paciente conseguir aderir a longo prazo.⁣

Referência:
1) Referência: Ge L, Sadeghirad B, Ball GDC, et al. Comparison of dietary macronutrient patterns of 14 popular named dietary programmes for weight and cardiovascular risk factor reduction in adults: systematic review and network meta-analysis of randomised trials.

Autor: Prof. Valentim Magalhães

segunda-feira, 3 de janeiro de 2022

(Conteúdo para Médicos e Nutricionistas) - Ômega 3 e efeitos psiquiátricos - Por Prof. Valentim Magalhães

Os efeitos dos ácidos graxos ômega 3 nos transtornos psiquiátricos têm sido amplamente relatados em diversos estudos clínicos e metanálises. As membranas cerebrais contêm uma alta proporção de ômega 3, mas o mecanismo sugerido envolve, principalmente, a modulação do estado pró-inflamatório envolvido na fisiopatologia dessas doenças. ⁣
Os resultados se tornaram tão significativos que levaram a Sociedade Internacional de Pesquisa em Psiquiatria Nutricional a conduzir uma diretriz para prática clínica do uso de ômega 3 no Transtorno Depressivo Maior, revisada em 2020.⁣

Baseados em ensaios clínicos e metanálises, especialistas sugerem que EPA ou EPA/DHA (em proporção >2:1), com 1-2 g de EPA/dia por pelo menos 8 semanas, podem ser utilizados como tratamento adjuvante (e não como monoterapia!) em pacientes com Transtorno Depressivo Maior. ⁣
Uma metanálise de 19 estudos (n = 2.240) concluiu que o ômega 3 também pode ajudar a reduzir os sintomas de ansiedade clínica. A melhora dos sintomas foi significativamente maior no subgrupo com dosagem mais alta (≥ 2.000 mg/d). Além disso, os participantes que receberam suplementos contendo menos de 60% de EPA mostraram melhora significativa, mas não aqueles que receberam suplementos contendo 60% ou mais. ⁣
Este efeito oposto quanto a concentração de EPA e DHA sobre a ansiedade e a depressão é intrigante e possivelmente ligado a um mecanismo subjacente distinto do ômega 3. Outros estudos são necessários para uma compreensão melhor desses mecanismos e dosagens ideias.

Referências: 
1) Grosso, Giuseppe, et al. "Role of omega-3 fatty acids in the treatment of depressive disorders: a comprehensive meta-analysis of randomized clinical trials." PloS one 9.5 (2014): e96905.
2) International Society for Nutritional Psychiatry Research Practice Guidelines for Omega-3 Fatty Acids in the Treatment of Major Depressive Disorder.
3) Su, Kuan-Pin, et al. "Association of use of omega-3 polyunsaturated fatty acids with changes in severity of anxiety symptoms: A systematic review and meta-analysis." JAMA network open 1.5 (2018): e182327-e182327.
4) Liao, Yuhua, et al. "Efficacy of omega-3 PUFAs in depression: a meta-analysis." Translational psychiatry 9.1 (2019): 1-9.

Autor: Prof. Valentim Magalhães