sexta-feira, 28 de maio de 2021

A personalização da Medicina

 



Virou moda falar que o médico exerce uma Medicina Personalizada. Mas afinal, o que é essa Medicina personalizada? Será que é real ou fake ? 

A razão desse post não é diminuir o trabalho de ninguém, mas sim alertar meus seguidores sobre o que acredito deveria ser o correto na Medicina/Nutrição/Fisioterapia/Odontologia/Enfermagem/Psicologia. 

Por que o exercício de uma Medicina personalizada é tão difícil e muitas vezes pode ser utópica, dependendo do contexto em que tentamos praticar ?

Com o decorrer do tempo e ao longo dos meus estudos de diversos temas dentro da Medicina estou percebendo que por mais que eu me apegasse a uma teoria, a uma ideia, a uma modalidade terapêutica, o que de real existe é O PACIENTE. 

E o que quero dizer com isso? Que cada paciente é único. Ou seja, infelizmente um tipo de terapia não servirá para todos. 

 - Não ?
Não, a dieta da vizinha pode ser que sirva ou não para você. 
Não, o treino que serve para o seu primo, talvez não promova os mesmos benefícios para você.
Não, a adoção de um respectivo hábito de vida pode ser que seja ótima para a sua mães, mas para você será uma catástrofe. 
Não, uma suplementação ou medicação que deu certo com seu amigo (a) pode ser que nem faça efeito no seu caso. 
Não, os exames que foram solicitados para seu familiar não são os mesmos que aos quais você precisa ser submetido.

E isso ocorre por que?  Porque somos diferentes. Simplesmente isso. Temos demandas diferentes, reações diferentes e consequentemente desfechos diferentes.

Ou seja, precisamos personalizar o tratamento do paciente. Isso faz parte da boa prática médica, afinal temos que olhar o paciente como um todo.
Olhar:
  • Sua história de vida
  • Sua genética (história patológica familiar)
  • Sua história patológica pregressa
  • Suas preferências alimentares
  • Sua dinâmica ao longo do dia, desde quando acorda até hora de dormir
  • O contexto social em que ele está inserido.
  • O ambiente em que ele está vivendo
  • As relações interpessoais
  • Suas fontes de prazer
  • Suas alergias
  • Os tratamentos que já foram feitos e não deram certo
  • Mudanças que já foram feitas e deram resultado
  • Seu(s) propósito(s) de vida

Com base nisso enxergar a infinidade de tratamentos que podem ser utilizados. Isso é personalização. 

Mas o que tenho visto no consultório são inúmeros pacientes sendo submetidos a protocolos que não respeitam a própria natureza do paciente. Condutas impostas, como se fossem verdades absolutas e que não condizem com a natureza daquele paciente. Tudo isso denominado de uma medicina personalizada. 

Ou seja, uma personalização Fake !

Cada um é cada um. 

Não é porque terapia cognitivo comportamental (uma linha da psicologia) funciona para um paciente obeso, que irá funcionar para todos. Por essas e outras quando atendo um indivíduo acima do peso, tento enxergar todo o contexto por trás do peso e com isso indicar um profissional específico em meio a uma gama de colegas que me dão suporte.

Ex. um paciente que tem dificuldade de se conectar com o próprio corpo, uma pessoa extremamente racional, na qual a racionalidade é até deletéria por atrapalharem as próprias emoções. Eu vou indicar psicanálise para essa pessoa? Não. Prefiro indicar Psicologia corporal. 

Ex 2: um paciente desorganizado, que fica refém das próprias emoções, confuso. Eu vou indicar uma abordagem Y, sendo que sei que ele poderá ter benefícios com a terapia cognitivo comportamental? Claro que indicarei a terapia cognitivo comportamental naquele momento e posteriormente ele pode escolher um outro tipo de terapia que se sinta mais confortável. 

A mesma coisa funciona quando se trata de dietas. Quando comecei a treinar o Rodrigo Lamonier (o nutricionista que trabalha comigo e me acompanha em todos atendimentos), bati em duas teclas:
  1. Inicialmente o paciente que escolhe o tipo de dieta que ele quer seguir.
  2. Se ele não tivesse experiência com aquela dieta, encaminharíamos o paciente para um outro nutricionista.
Resultado: ele se dedicou a estudar inúmeros tipos de dieta, mas teve algumas que ele não ficou tão bom. Por um simples motivo: aquele tipo de dieta é como se fosse um estilo de vida e ele não vive aquele estilo de vida. 
Ex. veganos. Eu sei conduzir a investigação déficits? Sei. Ele sabe montar um plano alimentar para um vegano, escolher as suplementações? Sim. Mas ele não é e nem nunca será tão bom quanto a Karla Escoda (uma nutricionista que vive isso 24h por dia). Não temos problema algum em encaminhar esse paciente para o profissional. 
  • Isso é personalizar o tratamento.
  • Isso é reconhecer a real demanda do paciente. 
  • Isso é respeitar a necessidade do paciente.
  • Isso é cuidar. 
A mesma coisa vale para o tipo de dieta. A gente deixa o paciente escolher o tipo de dieta que ele acha menos chato fazer. Mostrando obviamente aspectos científicos prós e contras a escolha dele. Quer seguir? Tudo bem. Até quando o paciente consegue ? E como os exames laboratoriais responderão à aquele novo padrão dietético? Ele estará feliz? Ou seja, pode ser que precisemos mudar. Muitas vezes aquela estratégia não foi a melhor. Isso é aceitar que aquilo falhou e temos que mudar a estratégia. Isso é personalizar. 

Uma Medicina personalizada deveria ser a regra, mas na atualidade é a exceção. Mas é a exceção porque demanda:
  1. Escuta
  2. Tempo
  3. Estudo
  4. Raciocínio clínico em cima de cada caso
  5. Paciência e perspicácia para aguardar e avaliar os desfechos.
Quando profissionais da área da saúde passarem a exercer suas funções dessa forma, acredito que os pacientes serão melhor acolhidos e ficarão mais satisfeitos com os tratamentos.

#FicaAdica 


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