domingo, 27 de outubro de 2019

Número de médicos geriatras não acompanha avanço de idade no Brasil

Entre 2011 e 2018 o Brasil ganhou 1.100 novos geriatras. Agora, de acordo com dados da Demografia Médica, levantamento realizado pela Faculdade de Medicina da USP, são 1.817 profissionais especializados no atendimento de uma população que não para de envelhecer – hoje são 41,69 milhões de pessoas com mais de 60 anos. 

Na ponta do lápis, isso quer dizer que o Brasil tem hoje 1 geriatra para cada 22.949 idosos. Não bastasse o número reduzido, há ainda uma má distribuição destes especialistas pelo território nacional. Para se ter uma ideia, o estado de Rondônia não tem nenhum geriatra. Já em São Paulo, o número de especialistas é de 647.

Apesar de ser considerada uma especialidade promissora, já que a projeção do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) é de que 25% da população seja formada por idosos em 2060, a procura por este tipo de especialização ainda é baixa. E se permanecer a média de 157 novos geriatras por ano, em 2060 o país terá cerca de 8 mil geriatras para atender uma população de 57 milhões de pessoas que chegaram à terceira idade.

O processo de envelhecimento no Brasil é mais acelerado em outros países do mundo. Um levantamento do demógrafo José Eustáquio Alves, professor da Escola Nacional de Ciências e Estatísticas (ENCE-IBGE) mostrou que enquanto a França vai demorar 204 anos para quadruplicar a população com mais de 65 anos, no Brasil isso acontecerá em 50 anos. 

“O número de geriatras é baixo e dificilmente teremos uma quantidade ideal de profissionais para atender uma população que só cresce e requer cuidados específicos”, afirma André Uehara, presidente da Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia. De acordo com ele, o Brasil ainda está longe de resolver problemas básicos de saúde e atender as doenças que afetam a população que envelhece.

“Temos um sistema de saúde que foi pensado para o atendimento de doenças do século passado, ou seja, as doenças agudas, como doenças infecciosas. Hoje há o acúmulo de doenças crônicas não transmissíveis, como diabetes, hipertensão e o câncer”, afirma Uehara. Ele explica também que, diante do novo cenário, é preciso que sistema de saúde prefira a lógica de cuidado das doenças crônicas e continuadas para que os pacientes sejam atendidos periodicamente para acompanhamento e ajuste de medicações.

Mas também é preciso mudar o entendimento da população quanto à função do geriatra. “Ele cuida do processo de envelhecimento e não apenas de idosos doentes, como muita gente pensa. É um profissional com um olhar para as alterações decorrentes do envelhecimento e o impacto delas na saúde e na doença de uma pessoa. As pessoas envelhecem de forma diferente e é preciso levar isso em consideração”, afirma Maysa Seabra Cendoroglo, médica geriatra do Hospital Israelita Albert Einstein. 

O trabalho deste especialista não é só aumentar os anos de vida de uma determinada pessoa, mas sim manter o aumento dos anos de vida com independência e qualidade.

Portanto, não é preciso esperar chegar aos 60 ou mais para procurar um especialista em geriatria. “Qualquer indivíduo que busque entender o impacto do envelhecimento sobre a sua funcionalidade, tem indicação para visitar um geriatra. É claro que as consultas vão aumentando de frequência conforme o avanço da idade. Mas é importante a participação deste médico em parceria com outros especialistas, especialmente quando há doenças associadas”, afirma Maysa. Ela conta que a procura de pacientes por este tipo de especialista tem aumentado. Normalmente os acompanhantes dos idosos ao se identificarem com a avaliação e orientações, também querem ser avaliados.

Se o número de pacientes interessados na especialidade é crescente, o presidente da Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia, afirma que o mesmo não acontece com os médicos. “Entre os profissionais, a procura por esta especialização é pequena por ela não trazer tanto retorno financeiro quanto outras especialidades”, diz André Uehara. Outro fator importante é a questão da paciência. Uma consulta com um idoso costuma ser mais longa e cheia de detalhes. “O médico precisa conversar com o paciente, com a família, conhecer o histórico de vida para poder fazer o acompanhamento”, completa.

Formação de profissionais

Há apenas duas formas de um médico se tornar especialista em geriatria. A primeira delas é escolher esta opção durante o período de residência médica, que tem dois anos de duração. A outra possibilidade é fazer o concurso da Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia (SBGG) que consiste em provas teóricas e práticas, além de análise curricular para avaliação da trajetória do profissional em trabalhos relacionados ao envelhecimento. “Não podemos ter a expectativa de que formaremos médicos geriatras para a atender essa demanda. Temos de priorizar a capacitação de profissionais que já trabalham com este público em gerontólogos para qualificar o atendimento à população que está envelhecendo”, afirma o presidente da instituição.

As diferenças:

Geriatra: É a especialidade médica focada na promoção do envelhecer saudável até a reabilitação do idoso. O processo de envelhecimento impacta no comportamento orgânico, demandando abordagens diferenciadas, assim como crianças e jovens apresentam especificidades que são tratadas pelo pediatra

Gerontologista e Gerontólogo: O gerontologista é o profissional com formação de nível superior nas diversas áreas do conhecimento (Psicologia, Serviço Social, Nutrição, Terapia Ocupacional, Direito etc.) e apto para lidar com questões do envelhecimento e da velhice, com um olhar interdisciplinar a partir da sua área original de conhecimento. Já o gerontólogo é o profissional com graduação em gerontologia.

Gerontólogo: na fila da regulamentação

Embora o curso de graduação em gerontologia exista desde 2005 e a profissão seja reconhecida pelo Ministério do Trabalho, profissionais aguardam a regulamentação da ocupação. No dia 25 de setembro, depois um percurso que começou em 2013 no Senado Federal, o Projeto de Lei 9003/13 que define as regras sobre a atividade, requisitos da formação acadêmica e atribuições recebeu parecer positivo na Câmara dos Deputados, em Brasília. “Ele ainda precisa ser votado e não temos uma previsão de quando isso acontecerá”, afirma Rosa Chubaci, professora doutora do bacharelado em Gerontologia da Universidade de São Paulo (USP).

A especialista acredita que a demora na regulamentação da profissão é reflexo da cultura de uma população que não está preparada para envelhecer. “Estas definições são importantes na definição de uma política pública para esta população que está envelhecendo. Temos poucos profissionais especialistas no processo do envelhecimento e a regulamentação pode impulsionar a procura por esta área”, diz.

Distribuição dos geriatras nos estados Brasileiros

Acre
1
Alagoas
24
Amapá
2
Amazonas
4
Bahia
52
Ceará
49
Distrito Federal
49
Espírito Santo
48
Goiás
56
Maranhão
9
Mato Grosso
25
Mato Grosso do Sul
7
Minas Gerais
229
Pará
22
Paraíba
21
Paraná
106
Pernambuco
57
Piauí
14
Rio de Janeiro
166
Rio Grande do Norte
25
Rio Grande do Sul
104
Rondônia
0
Roraima
2
Santa Catarina
69
São Paulo
647
Sergipe
13
Tocantins
6

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