segunda-feira, 19 de agosto de 2019

Sensação de saciedade aumenta mais lentamente em obesos

Em uma nova pesquisa, pessoas obesas apresentaram uma percepção significativamente aguçada do prazer inicial de comer, ao passo que a redução gradual desta satisfação, que costuma ocorrer conforme a pessoa vai comendo – neste caso específico, chocolate – foi mais lenta do que em pessoas com peso normal ou sobrepeso.

"Nosso achado de que os participantes obesos, em média, tendem a relatar um nível maior de percepção gustativa para uma determinada quantidade de chocolate do que participantes sem obesidade pode, em parte, explicar por que as pessoas obesas comem mais do que as sem obesidade", disse a primeira pesquisadora Dra. Linnea A. Polgreen, Ph.D., em um podcast do periódico Journal of the Academy of Nutrition and Dietetics, que publicou o estudo em 30 de julho.

"Se pudermos generalizar as nossas descobertas para outros alimentos, isso pode ajudar a embasar futuras intervenções", disse a Dra. Linnea, que é professora do Department of Pharmacy Practice and Science da University of Iowa, nos Estados Unidos.

O estudo randomizado teve 290 adultos. Os participantes receberam amostras de chocolate, um pedaço de cada vez, e foram solicitados a classificar em uma escala de 1 a 10 a própria percepção sobre o chocolate.

Não houve um limite quanto à quantidade que os participantes poderiam consumir. Para facilitar a avaliação de como a percepção mudava com o aumento do consumo, pediu-se aos participantes que comessem o máximo que pudessem sem se sentirem desconfortáveis. Cerca de metade (N = 150) recebeu as informações nutricionais dos chocolates.

Dentre os participantes, 161 tinha índice de massa corporal (IMC) normal (< 25); 78 foram considerados com sobrepeso (IMC = de 25 a < 30); 51 eram obesos (IMC ≥ 30). Oitenta por cento dos participantes eram mulheres. A idade variou de 18 a 75 anos.

Embora a percepção do sabor tenha sido praticamente idêntica para os participantes com peso normal e para os com sobrepeso, as pessoas obesas relataram uma percepção significativamente mais aguçada do sabor inicial (P = 0,02).

Em geral, os participantes obesos atribuíram cerca de 0,5 ponto a mais para as amostras de chocolate na escala de 10 pontos do que os participantes não obesos.


O declínio da percepção do sabor, que ocorre de acordo com a quantidade de alimento consumida – um efeito conhecido como saciedade sensorial específica–, foi de cerca de 2,0 pontos por amostra no total, mas foi significativamente mais gradual nas pessoas com obesidade do que nas sem obesidade (P < 0,01).

A diminuição mais lenta na percepção do sabor pode resultar em um aumento no consumo de alimentos, disse em um comunicado o primeiro autor Dr. Aaron C. Miller, Ph.D. e professor assistente do Department of Epidemiology da University of Iowa.

"Nossos achados indicam que os participantes obesos precisaram consumir uma quantidade maior de chocolate do que os participantes sem obesidade para vivenciar um declínio similar na percepção do sabor", disse o Dr. Aaron.

"Especificamente, descobrimos que uma mulher com obesidade precisaria comer cerca de 12,5 pedaços de chocolate para chegar ao mesmo nível de percepção de sabor de uma mulher sem obesidade, que comeu apenas 10 pedaços, o que em nossa amostra corresponde a uma diferença de cerca de 67,5 calorias. O que pode, em parte, explicar por que as pessoas com obesidade comem mais do que as pessoas sem obesidade", disse ele.

A quantidade de chocolate consumida variou de 2 a 51 pedaços, embora não tenha havido diferenças significativas entre os grupos na quantidade de chocolate consumida. O consumo médio foi de 12,1 pedaços (P = 0,36).

Também não houve diferenças significativas na quantidade média de tempo gasto degustando os chocolates, que foi de 26,9 minutos no total, e em torno de 2,7 minutos por pedaço de chocolate (P = 0,28).

As mulheres tiveram declínios mais rápidos na percepção do sabor do que os homens, com decréscimos adicionais de 0,09 ponto por amostra para as mulheres em comparação com os homens.


Não houve diferenças significativas na percepção do sabor entre quem recebeu as informações nutricionais dos chocolates, uma descoberta que, de forma geral, é consistente com as evidências sugerindo que tais informações podem não ter tanta influência quanto o esperado, observaram os autores.

"Descobrimos que a informação nutricional, pelo menos quando fornecida sobre os pedaços de chocolate, não teve efeito sobre a percepção do sabor marginal", escrevem eles.

"Portanto, fornecer a informação nutricional por si só pode ser pouco eficaz em reduzir as taxas de obesidade."

A percepção do sabor foi influenciada, no entanto, pela fome. Os participantes relataram um aumento de 0,13 na classificação para cada ponto adicional na escala de fome.

Enquanto a grande maioria dos estudos anteriores sobre saciedade sensorial específica observou as percepções indicadas no início e no final da refeição, o estudo em questão foi inédito em observar as percepções gustativas instantâneas, bem como em avaliar como estas percepções mudam com o tempo, à medida que as pessoas comem mais, disseram os autores.

Entre as limitações do estudo, estão o fato de a amostra de participantes ter sido majoritariamente de mulheres, e de os voluntários terem sido recrutados com o propósito específico de comer chocolate. Além disso, os resultados podem não ser generalizáveis para outros tipos de alimentos, como os salgados ou os amargos.

Os achados todavia ressaltam os potenciais benefícios de concentrar os programas de perda de peso neste prazer exacerbado em comer que as pessoas com obesidade podem sentir, observaram os autores.

"De fato, estratégias com o objetivo de reduzir a obesidade podem ter de levar esta diferença na percepção do sabor em consideração; as estratégias que dão certo para as pessoas com peso normal ou sobrepeso podem não ser tão eficientes para as pessoas obesas caso elas realmente extraiam mais prazer ao ingerir quantidades adicionais de alimentos", disseram os autores.

Por exemplo, os nutricionistas podem orientar os pacientes obesos a selecionar ou pesar as porções antes de começar a comer para neutralizar o efeito da diferença nas percepções marginais.

"Se o declínio da percepção marginal é mais lento para as pessoas obesas, a decisão de parar de comer pode ser postergada durante um período de consumo contínuo", escreveram eles.

Nos estudos futuros, os autores sugeriram que uma consideração fundamental deve ser: o que acontece em primeiro lugar? A obesidade ou o aumento da sensibilidade gustativa?

"Os próximos estudos também devem buscar determinar se as diferenças na percepção do sabor são uma causa de obesidade ou se a obesidade eleva a percepção de sabor marginal dos alimentos", disseram eles.

O estudo não foi financiado. Os autores informaram não ter vínculos financeiros relevantes.

J Acad Nutr Diet. Publicado on-line em 30 de julho de 2019. Abstract

Nenhum comentário:

Postar um comentário