segunda-feira, 7 de janeiro de 2019

Atenção plena pode contribuir para a perda ponderal em obesos

Pessoas obesas tentando perder peso com os programas tradicionais poderiam ter resultados significativamente melhores se também aprendessem técnicas de mindfulness ou atenção plena, sugerem os resultados de um estudo feito no Reino Unido.

A Dra. Petra Hanson, pesquisadora do Warwickshire Institute for the Study of Diabetes Endocrinology and Metabolism no University Hospital Coventry, solicitou a mais de 50 pacientes obesos encaminhados para um programa de perda ponderal que participassem de sessões de atenção plena.

Os que completaram o curso de quatro semanas conseguiram perder significativamente mais peso em seis meses em comparação com os que não completaram o estudo ou com o grupo que não fez o curso.

Além disso, o estudo, publicado no periódico Journal of Clinical Endocrinology & Metabolism em 18 de dezembro, mostrou que as pessoas que completaram o curso de atenção plena tinham maior autoestima e maior autoconfiança em relação à perda ponderal, e melhor relação com a alimentação.

Atenção plena e bem-estar

O autor sênior do artigo o Dr. Thomas Barber, também do Warwickshire Institute for the Study of Diabetes Endocrinology and Metabolism, disse em um comunicado que "a atenção plena tem um enorme potencial como estratégia para atingir e manter uma boa saúde e bem-estar".

"Com o crescente impacto das doenças crônicas no século XXI, muitas relacionadas com escolhas comportamentais do estilo de vida, é lógico que o foco seja permitir que a população tome decisões apropriadas sobre o próprio estilo de vida e capacitar as pessoas à subsequente mudança para um comportamento saudável", acrescentou.

"No contexto da obesidade e dos comportamentos relacionados à alimentação, demonstramos que as técnicas de atenção plena podem fazer exatamente isso".

Em entrevista para o Medscape, a Dra. Petra disse não ter ficado surpresa com a magnitude dos resultados, já que os participantes "adquiriram outras habilidades", como a consciência dos gatilhos emocionais para comer, passaram ter mais compaixão e aceitação de si mesmos e adotaram estratégias que contribuem para retomar o controle depois de uma eventual fuga da dieta.

"Sabemos que os pacientes obesos tendem a adotar um estilo de alimentação inconsequente, muitas vezes fazendo as refeições enquanto assistem televisão, comendo quando não estão com fome, e usando a comida como escape nas situações de estresse", disse a médica.

"Enorme potencial"

Destacando que se tornar mais consciente sobre os próprios hábitos alimentares não está relacionado com nenhum tipo de alimentação específica, a Dra. Petra afirmou que a atenção plena tem um enorme potencial de contribuir para a perda ponderal em longo prazo, não apenas reforçando a autoconfiança.

O enfermeiro Dan Howarth, chefe da instituição humanitária Diabetes UK, que não participou da pesquisa, comentou que "este estudo sugere que a atenção plena pode ser uma ferramenta útil para ajudar as pessoas a perderem peso e manterem hábitos alimentares saudáveis".

Dan disse ao Medscape que o estudo Diabetes UK's DiRECT mostrou que "a perda de peso feita com rigor pode fazer regredir o diabetes tipo 2 de alguns pacientes".

"Por isso, é fundamental descobrirmos mais acerca das contribuições psicossociais à perda ponderal, como a atenção plena, a fim de tornar a remissão uma opção realista para o maior número de pessoas com diabetes tipo 2".

Atenção plena ganha destaque

A atenção plena ou se concentrar no aqui e agora, tornou-se uma técnica amplamente adotada nos últimos anos, não apenas na psicoterapia, mas também para o tratamento de dor crônica, depressão e ansiedade.

Embora as mudanças no estilo de vida permaneçam, nas palavras dos pesquisadores, o "pilar do controle da perda ponderal" para pessoas obesas, elas são difíceis de implementar e não estão associadas a sucesso em longo prazo.


Desse modo, os pesquisadores partiram para determinar se a atenção plena poderia modificar os hábitos alimentares e a relação com a comida, além da autoconfiança em relação à perda ponderal.

Detalhes do estudo

Entre 2016 e 2017, os pesquisadores recrutaram 53 adultos com índice de massa corporal (IMC) > 35 kg/m² recém-encaminhados para um serviço especializado em controle de peso terciário no hospital universitário no qual atuavam.

Os pacientes participaram de quatro sessões em grupo, nas quais foram ensinados comportamentos alimentares baseados na atenção plena.

Os hábitos alimentares informados pelos próprios pacientes e o peso corporal foram avaliados no início do estudo, após a conclusão das sessões em grupo e no sexto mês do acompanhamento.

Dos 53 participantes, 33 completaram as quatro sessões de treinamento em atenção plena.

Os participantes que completaram o curso tiveram menos probabilidade de ser do sexo masculino do que os que não completaram (definidos como tendo comparecido a apenas uma ou duas sessões), com 21,2% versus 45,0%, respectivamente, e serem um pouco mais jovens, com uma média de idade de 44,4 anos em comparação aos 47,7 anos dos que não completaram.

Os que completaram as sessões também registraram menor peso no início do estudo do que os que não completaram, com 126,3 kg em relação a 147,7 kg (P = 0,03) e tiveram média mais baixa de IMC, 46,5 kg/m² vs. 51,6 kg/m² (P = 0,05), respectivamente.

A equipe observou que os participantes perderam significativamente mais peso durante o acompanhamento, com uma perda média aos seis meses em relação ao início do estudo de 3,1 kg (P = 0,002) em comparação a 0,9 kg entre os não que completaram (P = 0,34).

A conclusão do curso de atenção plena também foi associada a melhora significativa do estilo alimentar geral informado pelos próprios participantes, de 14,3 pontos (4%; P = 0,009), que ocorreu principalmente por mudanças nas atitudes em relação a comer besteiras.

Em seguida, os pesquisadores compararam os participantes que completaram o curso a um grupo de controle retrospectivo formado por 33 pessoas que tinham sido encaminhadas ao programa de perda ponderal sem fazer o treinamento de atenção plena.

Os autores observaram que os pacientes que fizeram o treinamento até o fim perderam em média 2,85 kg a mais do que os participantes do grupo de controle (P = 0,036), que perderam em média apenas 0,21 kg no mesmo período de acompanhamento.

Os participantes do grupo da atenção plena informaram ter gostado das sessões, valorizando a interação social com os outros pacientes e disseram ter aumentado a compaixão, a estima, o respeito e valorização de si mesmos.

Os participantes que fizeram o treinamento também disseram estarem mais aptos a planejar as refeições com antecedência e se sentiram mais confiantes e no controle da sua perda ponderal.

Não foi informado nenhum financiamento ou conflito de interesse.

J Clin Endo Metab 2018: jc.2018-00578. doi: 10.1210/jc.2018-00578

Fonte: https://portugues.medscape.com/verartigo/6503088?nlid=126984_4182&src=WNL_ptmdpls_190107_mscpedit_gen&uac=217917MV&impID=1854081&faf=1

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