terça-feira, 11 de julho de 2017

Dieta rica em fibras pode auxiliar no combate aos efeitos da gota em ratos

Uma dieta rica em fibras introduzida em camundongos pela professora Angélica Thomaz Vieira, do Departamento de Bioquímica e Imunologia do Instituto de Ciências Biológicas (ICB), reduziu, nesses animais, a resposta inflamatória induzida por cristais de ácido úrico, o que indica benefícios para o tratamento da artrite gotosa e alívio de seus sintomas, como dor intensa, inchaço e vermelhidão nas articulações. Se não for tratada, essa enfermidade genética pode provocar sérias restrições na qualidade de vida dos doentes.

Desenvolvida em modelo animal, a pesquisa mostra evidências de que dietas ricas em fibras ou ácidos graxos de cadeia curta promovem a prevenção da inflamação induzida pelo aumento de cristais de ácido úrico na articulação do joelho. Os camundongos tratados com uma dieta rica em fibra ou ácidos graxos de cadeia curta apresentaram melhor resposta à inflamação.

Os animais foram alimentados durante 14 dias com dieta enriquecida de um tipo de fibra solúvel (Pectina) muito encontrada na casca de frutas cítricas e alguns legumes. Foi feita uma avaliação da inflamação no joelho dos camundongos logo depois da indução da gota, que se deu com a injeção de cristais de ácido úrico no local, e outra16 horas após esse procedimento. Nos animais que consumiram fibras, observou-se uma redução nos sinais clínicos e nas inflamações na comparação com outros camundongos não submetidos a esse tipo de alimento.

"Os tratamentos resultaram na resolução da resposta inflamatória, prevenindo a lesão e disfunção tecidual – alteração no tecido que o impede de exercer suas funções e que pode provocar o desenvolvimento de outras doenças –, melhorando, inclusive, sinais clínicos como a dor", esclarece Angélica Thomaz.

Com esse trabalho, ela recebeu os prêmios Thereza Kipnis, da Sociedade Brasileira de Imunologia, e Pemberton, de incentivo a pesquisas direcionadas à saúde e ao bem-estar da sociedade, promovido pela Coca-Cola. A pesquisadora, que iniciou o estudo ainda no doutorado, foi orientada pelo professor Mauro Teixeira.

Metabólitos

A pesquisa também avalia a importância das substâncias resultantes do metabolismo das bactérias do intestino, os metabólitos, na redução da doença. Eles podem atingir a corrente sanguínea e provocar a morte programada de neutrófilos – tipo de célula/glóbulo branco do sistema imune – diretamente relacionados com a inflamação na gota.

"Compreendendo a maneira como os alimentos interagem com a nossa ­microbiota, será possível propor dietas ou estratégias bioterapêuticas que poderão ajudar pessoas com doenças inflamatórias diversas, promovendo, assim, sua saúde e bem-estar", afirma a pesquisadora, lembrando que a incidência de gota tem crescido em países com dieta alimentar assentada na chamada fast food, alimentação com baixo teor de fibras e alto teor de gordura.

Embora congênita, a gota tem na comida um importante fator de potencialização. Com base na compreensão do processo que associa alimentação com redução da resposta inflamatória, os pesquisadores do ICB pretendem desenvolver estratégicas bioterapêuticas de reorganização das bactérias da microbiota – grupo de bactérias benéficas hospedadas no intestino humano – por meio de dietas ricas em fibras, probióticos e pós-bióticos.

As conclusões do estudo desenvolvido pela professora Angélica Thomaz Vieira estão descritas no artigo Dietary fiber and the short-chain fatty acid acetate promote resolution of neutrophilic inflammation in a model of gout in mice, publicado no Journal of Leukocyte Biology, em janeiro deste ano.

Doença dos reis

Conhecida há mais de quatro mil anos, a gota era chamada de doença dos reis, porque as cortes organizavam festas ricas em carnes e álcool, dois importantes fatores de risco para a inflamação.

A artrite gotosa é uma doença reumatológica, inflamatória e metabólica que atinge as articulações, como dedos dos pés, joelhos, cotovelos ou tornozelos. Ela afeta principalmente os homens – incidência 20 vezes superior à das mulheres em 95% dos casos – a partir dos 50 anos. Mulheres são afetadas geralmente após a menopausa.

Uma das causas da gota reside no fato de algumas pessoas nascerem sem um mecanismo enzimático responsável pela excreção do ácido úrico pelos rins. A produção excessiva de ácido úrico pelo organismo, em decorrência de um "defeito" enzimático, ou o uso de medicamentos, como diuréticos e o ácido acetilsalicílico, também podem levar à diminuição da excreção renal do ácido úrico. A maioria dos casos de artrite gotosa é provocada por falhas na eliminação ou na produção do ácido úrico. Não há tratamento definitivo, e a alimentação adequada pode amenizar os efeitos da doença.

Fonte: https://www.ufmg.br/online/arquivos/047183.shtml

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