sábado, 12 de outubro de 2013

Medicamentos que aumentam o apetite, por Dr. Paulo Giorelli


Quais são esses medicamentos?

Resumo dos principais medicamentos que podem levar ao ganho de peso:

  • Os antidepressivos: esses medicamentos agem por meio de neurotransmissores e promovem o desejo de comer.  Pessoas que tomam este alguns antidepressivos costumam ganhar peso, e esse seria o fator pode favorecer o aparecimento de ligado ao diabetes tipo 2. Outra possibilidade é de que os antidepressivos tenham algum tipo de interferência no nível de açúcar no sangue. As conclusões foram publicadas na revista científica “Diabetes Care“.
  • Os neurolépticos: esses medicamentos também agem sobre os neurotransmissores e provocam uma verdadeira ‘’fome’’.
  • Alguns medicamentos podem aumentar o apetite para doces e carboidratos, por exemplo: Remeron (Mirtazapina, Menelat), Tryptanol (Amytril, Amitriptilina), Tolvon (Mianserina), Zyprexa (Ziprazidona), Orap, Tegretol (Carbamazepina), Trileptal (Oxcarbamazepina, Oleptal), Depakote (Ácido Valpróico, Depakene), Tofranil (Imipramina), Anafranil (Clomipramina).
  • Alguns outros podem provocar aumento de peso depois de muitos meses de uso, por exemplo: Paroxetina (Cebrilin, Aropax, Paxil CR, Aotin, Benepax), Ácido Valpróico (Depakene, Depakote), etc.
  • Os Ansiolíticos e Hipnóticos Benzodiazepínicos não provocam ganho de peso, por exemplo: Rivotril, Clonazepam, Valium, Diazepam, Lexotan, Somalium, Bromazepam, Lorax, Lorazepam, Olcadil, Noctal, Frontal, Apraz, Alprazolam, Dalmadorm, Dormonid, Rohypnol, Midazolam, Flurazepam, Flunitrazepam, etc.
  • Com Efexor (Venlafaxina, Venlaxin, Venlift) e Cymbalta o ganho de peso não é freqüente.
  • Lexapro, Exodus, Escitalopram, Cipramil, Citta, Maxapan, Citalopram, Zoloft, Tolrest, Sertralina não costumam provocar aumento de peso.
  • A pílula anticoncepicional, age pelo sistema hormonal. As pílulas que contém estrógeno são as pílulas mais propensas a levar ao ganho de peso, quando comparadas às aquelas que contêm progesterona (minipílula), porque o estrógeno promove a retenção de água, e portanto, leva ao ganho de peso. No caso de você ganhar peso com o uso da pílula clássica, pergunte ao seu médico quanto ao uso da minipílula ou de outras técnicas de contracepção (como ex. o anel contraceptivo).
  • Os corticóides como a Prednisona (um tipo de cortisona). Essa classe de medicamentos possui um forte efeito antiinflamatório, sendo muito utilizado contra diversas doenças inflamatórias como a artrite (incluindo a poliartrite reumatóide). Infelizmente o seu uso pode desencadear diversos efeitos secundários como o ganho de peso. Se esse for o seu caso, converse com seu médico sobre a possibilidade de mudar o tratamento, por exemplo, o uso de Antiinflamatórios não-esteroidais (AINES) ou outra classe de medicamentos. O corticóide é o vilão no ganho de peso. “Pacientes que tomam doses altas de corticóide por um tempo prolongado podem ganhar até 20kg em um ano
  • Os ansiolíticos e/ou antihistamínicos: os medicamentos à base de difenidramina podem levar ao ganho de peso, pois essa molécula possui um efeito sedativo que diminui o consumo de energia (diminuição do metabolismo). Consequentemente, o organismo irá queimar menos calorias, o que vai levar ao ganho de peso.
  • Podem promover ganho de peso: Medicações para o tratamento do diabetes do tipo 2 (insulina, sulfoniluréias, tiazolidinedionas ), 
  • Antihipertensivos (diuréticos tiazídicos, diuréticos de alça, bloquedores de canal de cálcio, beta bloqueadores).Entre os medicamentos para pressão arterial que podem gerar ganho de peso estão o metoprolol, o atenolol, o propranolol, a amlodipina e a clonidina.
  • Remédios para transtornos de humor também acarretam ganho de peso. Entre eles estão os antipsicóticos clozapina, olanzapina, risperidona e quetiapina. Além destes, o uso prolongado de sais de lítio, o ácido valpróico e a carbamazepina também pode engordar Em geral os antidepressivos mais antigos são mais propensos a causar ganho de peso do que os ISRS [inibidores seletivos da recaptação de serotonina].

Medicamentos orexígenos (aumentam o apetite)

  • Acetato de megestrol (AM) é um derivado sintético, ativado por via oral, do hormônio progesterona. Este é o medicamento mais estudado dentre os orexígenos. Pode induzir o apetite pela estimulação do neuropeptídeo-Y (NPY), presente no cérebro e secretado pelo hipotálamo, com capacidade de estimular o apetite; e pela inibição de citocinas pró-inflamatórias, como interleucina 1 (IL-1), IL-6 e fator de necrose tumoral-alfa (TNF-alfa). Tanto o NPY quanto as IL e o TNF podem levar à caquexia pela diminuição da ingestão alimentar direta ou por meio de mediadores anorexígenos, como leptina e serotonina. Os agentes corticosteróides incluem a prednisolona e a dexametasona. Seus mecanismos de ação envolvem a inibição da síntese ou da liberação de citocinas pró-inflamatórias, citadas acima. Ou seja, estimulam o consumo alimentar e diminuem o gasto de energia (1,2).


Eles podem atrapalhar uma dieta?

  • Sim!  Mas se o(s) medicamento(s) que estiver causando  aumento do apetite tiver sido prescrito pelo médico a substancia não deve ser interrompida a não ser que o médico que prescreveu autorize a interrupção do uso do medicamento




Autor: Dr. Paulo Giorelli - Médico, nutrólogo, presidente da ABRAN-Regional RJ. Diretor do Departamento de Obesidade e Síndrome Metabólica da Associação Brasileira de Nutrologia (ABRAN)

Fonte: http://abran.org.br/para-profissionais/medicamentos-que-aumentam-o-apetite/

sábado, 5 de outubro de 2013

Europa discute o uso de substâncias que afetam o sistema hormonal

Publicado originalmente no Le Monde (5/10/2013)

É um caso tão polêmico que agora está nas mãos do presidente da Comissão Europeia, José Manuel Barroso. Assim, sua conselheira científica, Anne Glover, deverá reunir nos próximos dias todos os cientistas envolvidos em uma grande controvérsia com importantes questões econômicas envolvidas: que posição os Estados-membros devem adotar em relação aos disruptores endócrinos?

Bruxelas deve decidir até o final do ano sobre as medidas destinadas a proteger os europeus dos efeitos dessas substâncias – plastificantes, cosméticos, pesticidas etc – que interferem no sistema hormonal, a exemplo do Bisfenol A, que será proibido definitivamente nas embalagens de alimentos na França em 2015.

A polêmica atingiu uma intensidade inédita nos últimos dias. Certos membros da comunidade científica acusam – veladamente – vários de seus pares de fazerem manobras a favor de interesses industriais, em detrimento da saúde pública.

"A ciência se tornou motivo de guerra"

A rixa começou neste verão com a publicação, em diversas revistas acadêmicas, de um artigo no qual dezoito toxicólogos (professores ou membros de órgãos públicos de pesquisa) criticavam as medidas em discussão em Bruxelas. Restritivas demais para muitas indústrias, estas seriam, segundo os autores, "precauções cientificamente infundadas". Os signatários, liderados pelo toxicólogo Daniel Dietrich (Universidade de Konstanz, Alemanha), contestam, por exemplo, que essas moléculas possam ter consequências nocivas em doses muito baixas.

No entanto, esses efeitos são o foco de inúmeras pesquisas científicas feitas nos últimos quinze anos e são reconhecidos por um relatório publicado conjuntamente em 2012 pela Organização Mundial da Saúde (OMS) e pelo Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma). Em especial, nos animais, a exposição in utero a algumas dessas moléculas em doses baixíssimas aumenta os riscos de ocorrência de determinadas patologias no decorrer da vida – câncer hormônio-dependente, obesidade, distúrbios neurocomportamentais etc.

O texto dos dezoito pesquisadores imediatamente provocou comoção. E uma suspeita considerável. "O problema das 'intenções dissimuladas' se acentuou, ao mesmo tempo em que aumentou a capacidade da ciência de influenciar na regulamentação dos poluentes e que a pesquisa acadêmica passou a depender cada vez mais do apoio financeiro da indústria", escreveram na revista "Environmental Health" Philippe Grandjean (Harvard Public School of Medicine, University of Southern Denmark) e David Ozonoff (Boston University), professores de saúde ambiental e responsáveis pela publicação. "A ciência se tornou motivo de uma guerra, com a maior parte de suas batalhas ocorrendo nos bastidores."

Nada menos que 18 contratos de consultoria entre 2007 e 2012

Na mesma edição da "Environmental Health", cerca de quarenta toxicólogos e endocrinologistas publicaram uma outra resposta cáustica, apontando que o texto de Daniel Dietrich e de seus coautores é produto de "uma vontade de influenciar nas decisões iminentes da Comissão Europeia". Uma centena de outros cientistas opinaram, em um editorial do último número da revista "Endocrinology", que o texto de Dietrich e de seus coautores "representa a ciência de maneira enganosa."

Acima de tudo, as réplicas dirigidas aos dezoito pesquisadores se indignam com o fato de que estes não divulgaram – como é de praxe nas revistas científicas – seus laços de interesse com as indústrias potencialmente afetadas por uma nova regulamentação. "É isso que fazem os 25 cientistas, dos quais faço parte, que redigiram em 2012 o relatório da OMS e do Pnuma", explica Ake Bergman (Universidade de Estocolmo). "É também o que fizeram todos os signatários – dos quais faço parte – da resposta enviada a Dietrich e seus coautores."

As ligações destes últimos com a indústria por fim vieram a público. No final de setembro, uma pesquisa da agência Environmental Health News (EHN) revelou que 17 dos 18 autores mantinham relações financeiras com "indústrias químicas, farmacêuticas, cosméticas, do tabaco, de pesticidas ou de biotecnologia."

Carta aberta à conselheira científica de Barroso

Alguns deles tiveram seus laboratórios financiados por empresas, outros receberam remunerações pessoais como consultores ou conselheiros científicos. O toxicólogo Wolfgang Dekant (Universidade de Würzburg, Alemanha), por exemplo, assinou, segundo informações reunidas pela EHN, nada menos que dezoito contratos de consultoria entre 2007 e 2012 com empresas cuja identidade ele não divulgou. E a lista não para por aí. Dietrich e seus coautores também estão na iniciativa de uma carta aberta a Anne Glover, assinada por cinquenta outros cientistas. De acordo com uma primeira análise efetuada pela EHN, pelo menos quarenta deles também têm ligações com indústrias.

"As estimativas mais recentes sugerem que quase mil moléculas poderiam ser disruptores endócrinos", explica Grandjean. "Logo, são vários os setores que podem ser implicados." O pesquisador, uma das referências em pesquisa em saúde ambiental, diz não estar surpreso com as colaborações de Dietrich e seus coautores com os meios industriais, mas se espanta com o fato de que "eles aparentemente não colaborem com ONGs ou associações de pacientes."

As zonas cinzentas também se estendem para dentro da Comissão

Dietrich não quis responder ao "Le Monde". Um dos coautores, Wolfgang Dekant, garante que não houve "nenhum envolvimento da indústria, formal ou informal", na iniciativa ou na redação do texto.

As zonas cinzentas se estendem também para dentro da Comissão. A deputada europeia Michèle Rivasi (Europe Ecologie-Les Verts), bem como outros parlamentares, vão endereçar nos próximos dias uma questão por escrito a José Manuel Barroso para exigir a publicação da declaração de interesses de Anne Glover, sua conselheira científica. Esses elementos por enquanto não foram comunicados no site da Comissão.

Em Bruxelas, afirma-se que somente os comissários são obrigados a redigir e tornar pública uma declaração de interesses. Foi explicado ao "Le Monde" que José Manuel Barroso havia escolhido Anne Glover após um "rigoroso processo de recrutamento".

Fonte: http://noticias.uol.com.br/midiaglobal/lemonde/2013/10/05/europa-discute-o-uso-de-substancias-que-afetam-o-sistema-hormonal.htm